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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Bengalando em Barcelona (Palau Guell)

O Palau Guell fica no Bairro Raval, próximo à Rambla, e talvez por isso tenha grande quantidade de possibilidades de transporte público. Optei, como quase sempre, pelo metrô. A Linha 3 deixou-me a cerca de uma quadra do destino, e embora não haja piso tátil, como a rambla tem amplo espaço para passeio público a circulação não oferece grande risco, ainda que aquele que for sozinho e tiver deficiência visual, tenha que – via de regra – pedir auxílio para se localizar.
Fui até lá com minha esposa Patrícia, que me informou ser muito pequena a sinalização que demonstra onde está situado o lugar que procurávamos. De fato, caso não fosse ela, eu nem teria visto que o endereço era aquele apontado. Da mesma forma não há sinalizações para direcionar à bilheteria, o que dificulta bastante na aquisição dos ingressos.
Um aspecto interessante e que suscita certa reflexão. Existe preço do ingresso reduzido para pessoas com deficiência, mas, apenas mediante uma determinada documentação que apenas os cidadão que vivem na Catalunha podem ter, a chamada Tarjeta roja. Para ter esse cartão é preciso ser residente na província por certo tempo, além de cumprir requisitos que nenhum turista poderia ter.
Para mim, pareceu um tanto estranho o fato de uma tarifa que objetiva ser inclusiva, excluir os turistas com alguma deficiência; Considero que isso é uma contradição dessa diretriz. Mas, eu deveria estar acostumado com isso, já que muitas pessoas e instituições ainda tentam fazer inclusão baseada em ideias segregacionistas e excludentes.
Retomando ao relato da visita, após pagar o ingresso me dirigi até o guichê onde retirei o audioguia. O interessante é que existem duas modalidades de recursos de áudio. Há o audioguia tradicional, disponibilizado em dez idiomas, dentre eles Português – de Portugal e não do Brasil, segundo a atendente. O segundo, audioguia com audiodescrição, apresentado apenas em Espanhol – ou castellano como os catalães preferem chamar.
Se for solicitado, os atendentes mostram um mapa em auto relevo e braile. Este, apresenta as quatro plantas da casa para que a pessoa possa se locomover, sendo que a pessoa pode levar o referido mapa consigo na visita caso seja cego. Melhor ainda, nesse material, está indicada a numeração de cada faixa do audioguia com audiodescrição. Ou seja, a pessoa que quiser pode fazer a visita com autonomia.
A casa da família Guell arquitetada por Gaudi é uma verdadeira obra de arte, e mesmo que o famoso artista catalão estivesse em início de carreira, demonstrava ser já um expoente, dada a qualidade e criatividade do que criou. As diferentes curvas, desenhos e texturas fazem do local um dos mais belos espaços artísticos de Barcelona.
Fiquei maravilhado com tamanha inventividade e beleza criada por Gaudi, que cuidou de cada detalhe como se fosse uma pequena obra de arte. A suntuosidade do palácio fez com que eu me sentisse vivendo e transpirando a atmosfera do final do século XIX. Como eu soube de tudo isso? Simples, foi por conta da audiodescrição.
Para começar, o audioguia com audiodescrição desde o princípio da visita auxilia muito ao situar o ouvinte onde ele está e para onde deve ir. Em cada faixa há orientações de como e para onde a pessoa deve se locomover, informando sobre obstáculos, escadas, rampas ou superfícies escorregadias. Isso é importante para prover autonomia e segurança para aquele que está ouvindo, caso ele seja cego ou tenha baixa visão.
Durante toda a visita que leva um pouco mais de noventa minutos, o roteiro do audioguia e principalmente da audiodescrição, privilegiam informações relevantes para a compreensão e sensação do ouvinte com deficiência visual. Isso porque, são feitas descrições conjugando detalhamento e objetividade. Muitas nuances ficam para trás, mas nem mesmo aqueles que enxergam conseguem captar todos os detalhes em condições semelhantes.
Embora eu tenha sentido falta da descrição das cores de alguns objetos, vitrais ou salas do palácio, creio que foi feita com clareza e qualidade. Algumas das formas e texturas foram descritas realizando associações com coisas do cotidiano, como as letras “U” e “L”, por exemplo.
A trilha sonora também é importante nesse processo, já que as músicas de fundo enquanto está sendo feita a narração ou para comelar e finalizar as faixas conferem sensações que ajudam a construir as imagens daquilo que está sendo visitado. Isso porque, além da formação da imagem acontecer pela audição, também pode ocorrer com o auxílio das memórias de cada sujeito.
Ao mesmo tempo, a narração também foi muito bem concebida, pois o texto do audioguia é narrado por uma voz feminina, e o da audiodescrição, por uma voz masculina. Mais que isso, a locução foi feita com entonações vocais diferentes, ressaltando determinadas informações, colocando certa carga de emoções em outras, e tudo isso sem uma interpretação demasiada.
Por todos esses motivos, consegui compreender e formar imagens daquilo que estava exposto e das ideias que estavam sendo apresentadas. Também tive as sensações de acolhimento e entusiasmo com tamanhos detalhes e informações a que tive acesso, e que certamente não as teria se não fosse a audiodescrição.
Portanto, me senti muito satisfeito com essa visita por ter sido um dos museus com melhor acessibilidade na cidade. A qualidade do material demonstra a preocupação e a importância que os administradores dão às singularidades de seus usuários com determinadas especificidades. Eis um exemplo a ser seguido por outros tantos espaços culturais.



domingo, 26 de janeiro de 2014

O mais triste de todos os domingos

Na noite do dia 26 de janeiro do ano passado eu e a Patrícia saímos para jantar com amigos. Nos divertimos muito, tomamos umas cervejas, em ótima companhia e ouvindo boa música. Um pouco antes de um novo dia começar chegamos em casa, e para variar, eu tive insônia. Mas, naquela noite foi diferente, eu estava com uma angústia sem explicação. Não dormi naquela noite.
Fiquei ouvindo rádio para ver se o sono chegava, até que a programação foi interrompida para falar de um incêndio em Santa Maria que teria matado uma pessoa. Meia hora depois, outro corte, dessa vez em definitivo, para falar diretamente do local. E a partir dai, começou o domingo mais triste do Rio Grande do Sul.
Quanto mais o tempo e as notícias se seguiam o quadro ia ficando mais aterrorizante. Uma boate superlotada pegara fogo e o cenário era o pior possível. A cada minuto aumentava o número de mortos e feridos. Sabendo que a Patrícia tem familiares na cidade, fiquei ainda mais apreensivo.
A boate Kiss, pela ganância e mau caráter de seus donos estava superlotada e recheada de irregularidades como sempre, e o que deveria ser uma noite de festa, virou um pesadelo real. Como pode isso, jovens até mais novos do que eu, com uma larga trajetória de vida pela frente morrerem desse modo tão abrupto?.
Aquele início de manhã do dia 27 de janeiro mudou a minha vida. Enquanto a Patrícia dormia e eu ouvia a cobertura pelo rádio, o sol nascia e me pegava pensando em meio ao silencio triste. O primeiro pensamento que me veio foram as noites em que eu também participava de festas em locais com lotação absurdamente ultrapassada.
Achava até legal aquela multidão se divertindo, a energia sempre foi boa, mas a gente ignorava o perigo. Nunca entendi o motivo de meus pais me esperarem acordados em cada uma dessas noites. Achava que eles deveriam descansar e que aquilo era uma bobagem. Que tolo eu fui, aquilo era uma das maiores demonstrações de amor que eles poderiam me dar, mas só então eu vi as coisas por esse ângulo.
Consegui entender o que eles pensavam e o que sentiam toda vez que me viam entrar em casa inteiro e pronto para outra. Muitas vezes a gente desconsidera alguns gestos de amor, e demora muito para ter ideia do que eles representam. Pelo menos eu tive tempo para descobrir isso, algo que provavelmente muitos dos meus semelhantes que feneceram naquela noite não tiveram.
Outro fato que me fez refletir, foi ao ouvir os relatos de que muitos daqueles que morreram conseguiram sair daquele inferno, mas retornaram para tentar salvar pessoas que nunca tinham conhecido. Muitos pereceram assim, salvando muitas vidas em detrimento das suas, e isso é que ainda me faz acreditar na humanidade.
O dia foi passando e Porto Alegre estava em um silêncio incomum, e assim ficou durante todo o dia. Vi e ouvi as imagens do ginásio onde estavam os corpos e centenas de celulares tocavam ao mesmo tempo, provavelmente as famílias ligando para os jovens que já haviam nos deixado. Nem em meu último dia de vida esquecerei dessa imagem de tamanho sofrimento.Do jeito mais desagradável possível, e pela primeira vez, eu entendi exatamente o que é e o tamanho do amor de pais por seus filhos. Tudo aquilo me causou medo e admiração.
Foram 242 pessoas mortas, mais de uma centena de feridos e milhares de pessoas atingidas diretamente, que perderam filhos, irmãos, pais, amigos ou alunos. Mas, o estado inteiro sofreu um golpe muito duro. A cidade ficou calada, não fossem os helicópteros que subiam e desciam com no parque da Redenção, com os feridos transferidos de Santa Maria.
Eu não conheci diretamente ninguém que foi atingido pela tragédia, mas isso não é preciso para sentir uma dor sem tamanho, basta se colocar no lugar daquelas pessoas. A sociedade gaúcha tão conhecida pelo binarismo, nesse caso se uniu em um luto doido.
É inaceitável que tantas vidas promissoras tenham sido ceifadas, foram tantos os sonhos destruídos naquela noite que fica impossível dimensionar o que isso representa. Quando a imprensa divulga todos os números e nomes daqueles que morreram, parece algo trágico, ainda mais se lembrarmos que cada pessoa é um universo. Cada um dos mortos e feridos tem uma família, tem amigos, tem uma história de vida que foi solapada. Não é possível sequer imaginar quanta falta faz uma dessas pessoas para seus entes, imaginem se falarmos de todas.
Infelizmente, os proprietários do local nunca pensaram na segurança de seus clientes. Mais do que colocar a vida de seus clientes em constante risco, no dia do ocorrido, muita gente morreu porque os seguranças ao invés de abrir, fecharam as portas do local. Os políticos lavaram as mãos e não fiscalizaram como deveriam. Descumpriram leis, fiscalizaram mal, foram responsáveis pela morte de centenas de pessoas, e continuam soltos.
Se fossem seres humanos que merecessem alguma consideração, teriam reconhecido o que fizeram e assumido sua culpa. Mas preferiram contratar advogados com caráter parecido com os seus, e que fazem sempre questão de culpar as próprias vítimas. O prefeito e seus amigos foram coniventes, e portanto, tão responsáveis quanto os donos, mas a in-justiça os livrou, ainda.
Um ano depois, percebo que os legisladores tomaram atitudes muito mais para aparecer na mídia do que por convicção. Nada foi feito de concreto que não fosse para parecer que fizeram alguma coisa depois do que aconteceu. Foi preciso morrer tanta gente para que os legisladores e a inerte sociedade brasileira fizesse alguma coisa. Coisas que, infelizmente, estão se dissipando com o tempo. Boates seguem irregulares, órgãos de fiscalização continuam burocráticos e sem pessoal suficiente, e a população continua em risco.
Acho que todos nós aprendemos com tudo que aconteceu, mas cada dia que passa  tudo volta a ser como era antes. Depois da forte comoção popular o que ficou foi a lembrança, mas sem que isso resultasse em benefícios duradouros e práticos.
A vida é tão valiosa e linda que as vezes eu acho que deveria ser deveria ser eterna. Mas como não é, é preciso ter cuidado sempre, já que há muita gente que amamos e que nos amam, para quem nossa ausência seria uma catástrofe.
Nesse mundo acelerado em que a gente vive algumas coisas se perderam, como as demonstrações de afeto e as declarações de amor pelo outro, algo tão importante de ouvir, e principalmente, de dizer. Fatos como esse nos provam que esses gestos são fundamentais, já que se demorarmos muito para fazer isso, pode não haver tempo.
Dizer tudo que eu sinto sobre esse assunto seria impossível, mas gostaria muito que as pessoas refletissem sobre as circunstâncias de tudo que aconteceu para que não se repita. Acho que é um bom momento para nos darmos conta que cada instante de vida é importante, que é preciso ter zelo e cuidado consigo mesmo pelo amor que sentimos pelo outro. Amar com intensidade é entender o amor daqueles que te querem bem.
Fica minha singela e sincera homenagem a todos aqueles que se foram, aos feridos e demais atingidos por esse fato tão lamentável. Desejo que tenham muita força e serenidade. Embora nada traga todas as radiantes vidas de volta, espero que a justiça seja feita e que cada um de nós aprenda com tudo que aconteceu. Façamos com que a morte de tantos jovens não tenham sido em vão. Parecem clichês, mas é o que eu sinto.
Enfim, nossas vidas ficarão marcadas para sempre por aquele domingo tão triste e que nunca deveria ter existido. Desejo que nunca mais se repita a  estupidez que fez com que isso ocorresse, que a voracidade empresarial pelo lucro dê lugar ao zelo e preocupação com o outro. Espero que fique o sentimento de solidariedade, empatia e amor pelo próximo, a única coisa boa que restou disso tudo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Bengalando em Barcelona (audiodescrição da peça Iaia)

Através de um projeto chamado Teatro Acesible,  que conheci por meio de pesquisas e conversas realizadas na Universitat Autonoma de Barcelona onde estudo, tive acesso ao calendário da temporada de 2014 das peças teatrais com audiodescrição na capital catalã. 
A obra que fui assistir no dia 18 de janeiro foi realizada no Teatro Romea. O local fica situado no bairro Raval, um dos mais tradicionais e históricos da cidade. Há uma linha de metrô e algumas de ônibus que passam a cerca de uma quadra dali. Embora as estações de metrô tenham boa sinalização e piso tátil, o mesmo não pode ser dito das ruas que devem ser percorridas para chegar ao destino.
Uma pessoa cega não conseguiria ir sozinha, e uma com baixa visão teria algumas dificuldades, mas nada muito grave. Contudo, como sempre, fui acompanhado de minha esposa que está quase sempre comigo nas visitas e participações nesses eventos, e além de companhia agradável me ajuda muito na acessibilidade aos diferentes locais.
Dentro do teatro, como há grande aglomeração de pessoas é um tanto complicado circular, mas o espaço é acolhedor assim como os atendentes também o são. O Romea é muito bonito e sua decoração e arquitetura lembram os teatros do século XIX. Como a peça tinha audiodescrição, logo nos dirigimos para retirar nossos aparelhos receptores por onde seria exibido o áudio da AD. Feito isso, nos dirigimos para os nossos assentos – nesse caso, sem descontos para pessoas com deficiência, já que a peça tinha acessibilidade.
Em seguida, sentei em minha poltrona e passei a ouvir a audiodescrição exibida no transmissor. Uma voz gravada anunciava a sinopse da peça, bem como o elenco e outros dados técnicos como parte dos créditos. Apresentou também, a vestimenta dos três personagens e os detalhes sobre o cenário. 
Também senti falta da descrição sobre o espaço, ou seja, como é o teatro, quais seus detalhes arquitetônicos, quantos andares e setores, bem como a localização dos banheiros e escadas, o que ajuda na locomoção caso isso seja preciso.
Da mesma maneira, faltou a descrição física dos personagens e de cores de seus trajes e do cenário, algo fundamental para que tenhamos mais elementos para formar a imagem dos mesmos. E havia tempo para isso, já que a gravação repetiu-se por três vezes antes do começo da peça. 
Quando o espetáculo começou, foi possível notar mais coisas. A primeira delas é que acima do palco havia um telão onde foram exibidas as legendas utilizadas para as pessoas surdas e com deficiência auditiva. Como eram três personagens, nos diálogos tinham cores diferentes, em branco, amarelo e verde. Isso ajuda a esses sujeitos terem quase pleno entendimento do que está acontecendo.
A AD foi apresentada no idioma catalão, o que dificultou um pouco a compreensão de algumas observações mais aprofundadas que eu poderia ter verificado. Mas, esse fato não impediu que eu entendesse o que estava sendo dito, ao menos na maioria dos casos, já que cada dia mais estou me familiarizando com essa língua.
A audiodescrição foi de muito boa qualidade, com um texto claro e conciso. Não aconteceu nenhuma sobreposição da AD nas falas ou trilhas da peça. Isso é importante para facilitar o entendimento de ambos e para não existir confusão por parte do usuário que está ouvindo.
O roteiro da AD era muito objetivo e as informações foram dadas de modo direto. Há correntes de estudos nesse campo que tomam esse formato como o mais adequado a ser utilizado, já outros, acreditam que deva ser fornecido o máximo possível de informações.
Confesso me enquadrar nesse último grupo, pois acredito que quanto mais elementos dados ao usuário para formar suas próprias imagem, melhor será o entendimento e a qualidade da fruição dele. Assim, acredito que o roteiro poderia conter mais informações sobre as cenas e sobre os acontecimentos.
Existiam muitos silêncios e possibilidades para inserção dessas informações durante a peça. Certamente, não se podem preencher todos os silêncios com audiodescrição pura e simplesmente para “rechear” esse tempo, já que o silêncio às vezes faz parte da atmosfera da trama. Porém, não foi o caso, e não havendo nenhuma informação sonora, em algumas ocasiões me perdi no enredo de algumas cenas, embora não tenha sido algo muito grave.
A obra audiodescrita, chamada Iaia, foi uma comédia sobre uma avó (que dá nome à peça) que tenta a todo custo sabotar o relacionamento amoroso do neto, e as diversas situações que se seguiram giraram em torno disso. Foram muitos os momentos engraçados e mesmo em catalão, nos divertimos muito. Houve espaço também para dramas e emoções empolgantes.
Ao final, tive a oportunidade de ter uma rápida conversa com Javier, o roteirista da AD. Para minha surpresa, me disse que a locução não foi humana, mas a partir de um software que desenvolveram em sua empresa, uma espécie de leitor de telas que ele sincronizava com a peça em tempo real.
O mais interessante é que em nenhum momento consegui identificar que não se tratava de uma gravação. O que notei é que a locução parecia gravada e não feita ao vivo, mas a voz parecia humana e dificilmente seria possível verificar o contrário.  O resultado foi muito bom, a voz era excelente e de fácil compreensão e fluência.
Antes de saber disso, pensei que a entonação da narração poderia exibir uma carga maior de emoção nas audiodescrições de cenas que tinham a necessidade disso. Porém, como o estilo de muitos audiodescritores espanhóis é narrar com “neutralidade” (objetivando não demonstrar nenhum tipo de emoção), imaginei que esse fosse o estilo empregado.
Também discordo dessa linha que defende uma AD com locução neutra, pois a voz do narrador também nos ajuda a formar imagens e estabelecer os laços necessários para fruir a peça. Uma narração que esteja de acordo com a carga de sentimentos da obra – sem ser exagerado, é claro – é fundamental para a compreensão e sensação de pertencimento e emotividade do usuário.
Portanto, nesse evento pude experimentar mais uma vez a audiodescrição feita em Barcelona, e embora algumas discordâncias quanto ao modo como foi feita, devo admitir que dentro da linha de pensamento e concepções de alguns audiodescritores, sua execução teve grande qualidade e foi agradável de ouvir. Sem ela, não teria compreendido quase nada da peça. Logo, a AD cumpriu seu papel de fornecer acessibilidade e diferentes sensações e emoções. 


Descrição da foto
Estou na escadaria que leva à sala de espetáculos.  À direita da foto, uso calça jeans azul claro e blusão bege sob casaco azul escuro com uma listra cinza no centro e outra na barra inferior. De frente para a câmera, tenho na mão esquerda o aparelho receptor pelo qual ouvi a audiodescrição da peça.
Fim da descrição

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Foi a pátria quem os pariu


O assunto do momento são os tais “rolezinho” e eu não poderia me furtar de dar minhas opiniões sobre o que vem ocorrendo, ainda que eu esteja um pouco distante do Brasil. Mas, embora talvez nem seja tanta gente que se importe com o que eu diga, direi mesmo assim. Está apavorado com esses jovens fazendo rolezinhos? Pois é, eles são filhos da pátria – e, portanto, seus.
Desde que o Brasil foi ocupado pelos europeus vem sendo criado um fosso cada vez mais profundo entre a parcela da população que se considera dona do país e a “vassalagem”. Contemporaneamente, se convencionou chamar esse primeiro grupo de “classe média”, e o segundo de “pobres”, mas o abismo continua crescendo. E quando se pensa que a sociedade brasileira evolui, ela se mostra mais conservadora.
Essa tal classe média – a mesma que apoiou o golpe militar e agora posa de (pseudo)democrata – tem aumentado nos últimos anos. Inclusive pessoas que antes eram “pobres” agora fazem parte dela, e encamparam seu pensamento retrogrado e preconceituoso, o que é uma pena. Já que muitos sofreram discriminação por serem pobres, e agora que tem condição financeira melhor, fazem o mesmo com outrem.
Sim, estou generalizando porque estamos falando de comportamentos coletivos e não individuais e se estás incomodado com o que digo, continue lendo, pois vai piorar.
Durante décadas, quiça, séculos, aqueles que dizem comandar o país viraram as costas para a população pobre, não lhes dão educação, saúde, emprego, enfim, nenhuma condição suficientemente adequada que não seja na base do assistencialismo ou das políticas populistas. Verdade que na última década muita gente saiu da miséria, mas não é menos verdade que ainda continua dependente dela.
Essa “emergência da classe pobre” tem dado arrepios na tal classe média que ainda não sabe bem como lidar com essa “gentinha”. Mas, é a mesma coisa que deixar a panela de pressão no fogo ad eternun, um dia ela explode.
A juventude brasileira não tem muitas opções de vida como se propaga por ai. A educação é a saúde são precárias e embora o acesso seja universal, a qualidade é pífia. Fala-se no tal pleno emprego, mas a grande maioria, com salários bem pequenos, e sem tantas perspectivas assim. E a desigualdade social foi maquiada e recauchutada, mas continua colossal.
Assim, esses jovens não têm alternativas de lazer, já que não podem ir ao cinema, ao teatro ou outro ambiente cultural pelo alto custo desses produtos. Bibliotecas públicas são raríssimas, praças e parques são sujos e mal cuidados. Aonde a juventude irá se divertir?
Por outro lado, cada dia mais a tal classe média tenta se afastar dos “pobres” tentando estar o mais longe possível, entendendo até que o ideal é que eles não frequentem os mesmos espaços para não ter que conviver com os “maloqueiros”. Criam uma barreira não material, mas muito visível entre nós e eles. Quase um Apartheid velado - ou nem tanto, agora.
Um dia os jovens que a pátria da classe média pariu crescem, e agora que a “democracia” chegou, eles não têm mordaças e amarras que lhes façam calar. Como muita gente que se acha gosta da frase do Pequeno Príncipe, acho que aqui ela se encaixa bem: “cada um é responsável por aquilo que cultiva”, Ou, no populacho, “pariu a criança, agora que a embale”.
Os tais rolezinhos são exatamente isso, fruto do descaso secular com a juventude brasileira que agora talvez tenha tido as condições para dar um basta. Acho até que isso seja continuação dos protestos do ano passado. As manifestações de Julho foram empreendidas, via de regra, pela classe média também, e por isso, creio que teve certo glamour. Mas, quando a manifestação vem dos “favelados”, ai o nome é outro, bandidagem.
Isso que os jovens da periferia tem feito também é reivindicação de direitos só que sem o “charme” das manifestações anteriores. O que esse pessoal quer é ser visto, mostrar à sociedade brasileira que eles existem e que tem direito a ocupar os espaços públicos e privados tanto quanto qualquer outra pessoa que viva no “reino da fantasia” dos condomínios fechados.
Não quero dizer com isso que os crimes estejam legitimados. Quem cometer excessos deve ser responsabilizado por isso. Quem se aproveitar do ato para fazer algo fora da lei, que assim seja tratado.
Mas, qual a diferença entre um jovem que faz “arruaça” no shopping em um rolezinho e um “filho de papai” que briga em uma casa noturna? A diferença é a conta bancária. Qual a diferença dos “baderneiros” do rolezinho para os donos de Mercedes que estacionam em vagas para pessoas com deficiência ou dirigem bêbados? A diferença é que o primeiro recebe os rigores da lei e os últimos, as benevolências da lei.
As pessoas consideradas diferentes e inferiores sempre causam estranheza, medo e repulsa. Muita gente acha que os shoppings são oásis, quase uma bolha da classe média, e então, um grupo de jovens invade esse “cenário ideal” e põe por terra o sonho da classe média em viver em um mundinho sem pobres ou sem pessoas diferentes. Claro, isso causa revolta.
E, no caso dos centros comerciais de compras, não são apenas os jovens da periferia que não são bem-vindos, pois salvas honrosas exceções, pessoas com deficiência também não o são. Prova disso, a falta de acessibilidade nesses estabelecimentos.
Pior que não ter condições adequadas é ser seguido compulsivamente pelos seguranças, como se nós fôssemos um perigo. Sim, se você não sabe, as pessoas com deficiência como eu percebem e sabem que os seguranças as seguem por todos os cantos do shoppings, inclusive nos sanitários. Do que eles têm medo?
Com os integrantes dos rolezinhos o mesmo acontece, imaginem “aquela gentalha” toda fazendo baderna e perturbando a paz artificial da classe média. Pois ai que está o ponto, a diferença é perturbadora e assim deve ser sempre. Esses jovens encontraram um modo de reivindicar seus direitos de ocupação dos espaços materiais e sociais.
Arrumaram um jeito de se mostrarem, de expor aquilo que a tal classe média tenta varrer para baixo do tapete. Os rolezinhos não são nada mais do que o resultado de décadas de exclusão social e supressão dos direitos de educação e lazer dos jovens das favelas. Talvez, seja mais complexo do que isso, mas acho que aqui está o cerne da questão.
Assim, a favela desceu para o asfalto e essa classe média não sabe o que fazer com isso. Porém, foi ela mesma que gestou e criou essa juventude que agora repele. Esses jovens são todos filhos da pátria que os pariu, e se eles são mal educados, saibam que quem lhes educou – ou deixou de fazê-lo – foi essa mesma sociedade que agora os condena. Porque ao Inês de virarem as costas, a sociedade não lhes dá um abraço acolhedor? Eis uma grande oportunidade.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Bengalando em Barcelona (jogo do Barcelona no Camp Nou)



O Futebol é uma das paixões nacionais na Espanha e muitas vezes vai muito além de uma disputa esportiva. A relação com o futebol é mais ou menos parecida com as existentes em nosso país, já que movimenta a sociedade em todos os sentidos.
Barcelona tem dois times de futebol, o Español que é o menos conhecido e cuja torcida, importância e resultados são bem menos expressivos do que seu rival. O Futebol Clube Barcelona, foi fundado em 1899, sendo o time de futebol mais importante da Catalunha.
A equipe azul-grená é mundialmente conhecida, sendo duas vezes campeã mundial, quatro vezes campeã continental e possui quarenta e oito conquistas nacionais. Diante de tamanhos êxitos, sua fama é mundial e tem torcedores pelo mundo todo, embora os mais apaixonados sejam mesmo os catalães.
A região da Catalunha luta há alguns séculos pela independência da Espanha, reivindicando a criação de um Estado próprio diante das diferenças culturais e sociais do lugar. Além do idioma catalão, o “Barça” é um dos mais fortes símbolos regionais, sendo muito mais do que apenas um time de futebol.
No estádio do clube, o Camp Nou, aconteceram muitas manifestações políticas históricas durante as partidas de futebol, como a resistência a implantação da ditadura franquista iniciada entre as décadas de 1930 e 1970. O ditador espanhol proibiu qualquer referência à cultura catalã, como o uso do catalão e do uso da bandeira e outros ícones da Catalunha.
Diante disso, o Barça passou a ser o orgulho de seu povo e foi se tornando muito mais do que um time de futebol, mas também um forte instrumento de valorização cultural e de expressão dos sentimentos regionais sufocados pelo regime de exceção.
A ditadura se foi, mas o amor pelo time e a rivalidade com o time do real Madrid permanece até hoje. Por tudo isso, ir a uma partida do Barcelona PE mais do que participar de um evento esportivo, é conhecer uma parte importante da cultura local. Não se trata apenas de uma atração turística ou desportiva, mas uma possibilidade de imersão na vida social da cidade.
Não é muito comum uma pessoa cega ir sozinha ou acompanhada de outra que não enxerga a um jogo de futebol> Nesse sentido, analisar a autonomia no acesso do transporte coletivo até o local não requer uma argumentação mais detida. Contudo, é preciso dizer que há muitas linhas de ônibus e de metrô no entorno do estádio. O trajeto das mesmas é igualmente tranquilo, já que há muitos policiais nas redondezas e caso acontecesse algum problema, algum deles poderia ser acionado.
Chegando ao local, encontrar o portão de entrada correto é uma tarefa muito simples, já que a sinalização é muito boa, com letras grandes – e iluminadas - e contraste acentuado, facilitando a visualização. E, embora o público fosse razoavelmente grande não há atropelos para o ingrsso no ambiente, já que os assentos são marcados é possível chegar faltando pouco tempo para começar a partida e seu lugar estará lá vazio esperando que o ocupe. Algo bem diferente do que acontece no Brasil.
Fui com minha esposa assistir ao jogo Barcelona x Getafe, valido pela Copa do Rei. O jogo não foi considerado dos mais difíceis e requisitados pelo público. Ainda assim, havia lotação de 70% do estádio conforme informações da “Rádio Barça” que ouvi para compreender a partida sem enxergar grande parte dela.
Para quem gosta de futebol, como é o meu caso, foi uma alegria imensa ver todo aquele espetáculo. Chegamos com uma hora de antecedência para começar a sentir o clima e ver como tudo se processava antes do jogo. Os espectadores tomavam seus assentos com calma e em clima amistoso.
Foi sensacional ver famílias inteiras presentes, mais que isso, era muito grande o número de crianças e de idosos frequentando o estádio, algo um tanto perigoso no Brasil. Havia até, grupos de mulheres, algumas jovens, outras com idade avançada participando na torcida. No Brasil isso seria difícil pela violência e pela cultura – que tem arrefecido – de que estpadio de futebol não é ambiente feminino. Creio que só ver isso foi muito reconfortante, a democratização do esporte feita de modo tão natural.
Ficamos atrás do gol norte, na lateral esquerda da baliza e no nível do campo, o que ajudou na minha visualização. Quando as equipes entraram para fazer o aquecimento percebi que seria bem difícil enxergar o outro lado do campo, e por isso, decidi ouvir a partida por uma rádio, a Rádio Barça, para não perder nenhum detalhe do que acontecia, e que eu não podia enxergar.
Quando a cerimônia de ingresso dos times e a execução do hino do Barcelona iniciaram, foi possível notar a grandiosidade das partidas do Barcelona pelo lindíssimo espetáculo feito por sua torcida. As palavras de incentivo e o amor demonstrado ao time é tocante e torna tudo mais emocionante.
Como tenho baixa visão o que eu conseguia enxergar era apenas um terço do campo de jogo. Ou seja, de onde em estava, se o campo fosse dividido em três, via só o que ocorria na primeira parte, nas demais precisava do auxilio do rádio para entender o que acontecia. Mas uma coincidência me ajudou bastante, o uniforme do Getafe era verde “fosforecente” w o do Barcelona o tradicional azul e grená, esses contrastes aliados à iluminação do campo aumentaram um pouco as minhas percepções do que ocorria
A partida em si não teve tantas dificuldades assim para o Barcelona, que dominou o jogo com grande imposição. No primeiro tempo, o clube catalão atacou do lado contrário a onde eu estava, e não pude ver muitas coisas, inclusive um gol da equipe da casa. Já na segunda etapa, atacaram no gol onde estávamos e pude assistir a muito mais coisas do que antes, inclusive aos outros três gols do time anfitrião.
Mais do que isso, foi nessa parte do jogo em que o Messi entrou em campo, e jogava exatamente na faixa de campo em que eu conseguia ver. O sujeito é um jogador de outro planeta, não só pelo que faz com a bola, mas como joga sem ela também. A rapidez, técnica e efetividade com que ele atua é de embasbacar. E, agora já poderei dizer para os meus filhos - quando os tiver - que vi jogar um dos maiores jogadores da história do futebol.
Ao final do jogo, todos saíram com calma e em ordem pelos diversos portões do estádio, e como não havia muita aglomeração de pessoas, saímos tranquilamente até o ponto de ônibus e retornamos em segurança para casa sem qualquer dificuldade em termos de acessibilidade também. 
 Sendo assim, julgo que a acessibilidade do evento seja condizente com sua importância e não é tão complicado assim para uma pessoa com deficiência visual partilhar desses momentos tão emocionantes, pois é relativamente fácil ir ao estádio e entender o que se passa, além de ser algo com segurança e conforto. Sem dúvidas, um ambiente cultural muito interessante e fascinante. 
Durante todo o tempo em que estive lá, me emocionei de uma forma como poucas vezes aconteceu na minha vida. Eu adoro futebol, e acho que a energia de um estádio cheio incentivando sua equipe é uma das coisas mais incríveis que existe.
Desde pequeno eu sempre quis ir ao Camp Nou, pois quando entrava na adolescência o Barça tinha um time ótimo e ganhou muita coisa. Sonhava em estar no estádio um dia, mas achava tudo aqui distante para um guri que não era rico e que sendo quase cego como faria isso? os anos passaram e eu aprendi a duvidar as dúvidas que eu tinha. Aprendi a tentar por mais que parecesse inviável. Pois bem, mais um sonho alcançado!

Descrição da foto
Fotografia colorida mostra Felipe Mianes em primeiro plano no centro da imagem. Ele está em pé na arquibancada inferior do estádio Camp Nou. Felipe tem cabelos curtos e escuros e sorri para a camera. Ele usa, sob uma jaqueta de couro preta, a camiseta do time de futebol Barcelona, com listras verticais amarelas e vermelhas. O estádio está lotado e o ao fundo, acima do anel superior, refletores produzem manchas brancas no topo da fotografia. Ao seu redor, as pessoas usam casacos de inverno e à direita, percebe-se uma parte do gramado verde do e a rede de um gol.
Roteiro: Kemi Oshiro
Fim da descrição