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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

INÉDITO: Filme Colegas tem estreia com audiodescrição em Porto Alegre/RS


INÉDITO: Filme Colegas tem estreia com audiodescrição em Porto Alegre/RS
Pessoas cegas ou com baixa visão assistirão ao longa-metragem no dia 2 de março, no Espaço Itaú do Bourbon Country, com entrada franca e presença do elenco e equipe
O multipremiado longa-metragem Colegas, que estreia dia 1º de março, terá sessão acessível a pessoas com deficiência visual em Porto Alegre/RS, no dia 2, sábado, com entrada franca e presença de parte do elenco. A exibição está marcada para as 9h30, na Sala 2 do Espaço Itaú, no Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80 – atrás do Shopping Iguatemi), com distribuição gratuita de combos com pipoca e refrigerante. A produção é da Tagarellas Audiodescrição, com patrocínio da Óptica LH e apoio do Bourbon Shopping, Espaço Itaú, Europa Filmes, Radioativa Produtora, Som da Luz e Gatacine. Os ingressos são limitados e a reserva deve ser feita antecipadamente pelo e-mail tagarellasproducoes@gmail.com ou pelos fones (51) 3384 1851 e (51) 8451 2115. A preferência é para pessoas com deficiência visual e acompanhantes. Demais interessados terão seu ingresso condicionado à lotação da sala.
Porto Alegre é a única capital que ganhará uma sessão acessível de Colegas no final de semana da estreia do filme. E, pela primeira vez no Rio Grande do Sul, um longa-metragem estreante será exibido em uma sala comercial com audiodescrição. O recurso permite o acesso às informações visuais a pessoas cegas e com baixa visão, além de beneficiar idosos e pessoas com Síndrome de Down, deficiência intelectual, problemas neurológicos e dificuldade de memorização. Os fones de ouvido serão distribuídos a partir das 9h30 e a audiodescrição inicia-se às 9h45, para detalhar antecipadamente as características da sala de exibição, personagens e cenários. Depois do filme, que dura aproximadamente 90 minutos, o diretor e roteirista Marcelo Galvão, o produtor Marçal Souza e os atores Ariel Goldenberg e Rita Pokk conversarão com o público até as 12h.
Colegas, produzido pela paulistana Gatacine, conta de modo poético e divertido a história de três personagens com Síndrome de Down. Inspirados pelo filme Thelma & Louise, eles fogem do instituto onde vivem, em busca de seus sonhos: Stallone deseja ver o mar, Aninha quer casar e Márcio precisa voar. Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola e boa parte do elenco de apoio têm Síndrome de Down. Colegas foi premiado nos festivais de Gramado, Paulínia e Trieste, na Itália, e também na Mostra Internacional de São Paulo e no Greaking Down Barriers Moscow, na Rússia. Integrou, como hors-concours, a Mostra do Rio e foi escolhido como filme de abertura do Amazonas Film Festival e do Annual Red Rock Film Festival Utah.
#VemSeanPenn
Lançada no início de fevereiro, a campanha #VemSeanPenn faz o maior sucesso nas redes sociais, graças às milhares de pessoas que aderiram à causa de ajudar Ariel Goldenberg a realizar um sonho: conhecer seu ídolo, o ator Sean Penn, na estreia do filme Colegas, em 1º de março, no dia anterior à sessão acessível em Porto Alegre/RS. Aconteça o que acontecer, o vídeo já soma mais de 1,3 milhão de visualizações, entrou para os trending topics do Twitter no Brasil e é fenômeno de compartilhamentos no Facebook.
 
FICHA TÉCNICA DA ESTREIA DE COLEGAS COM AUDIODESCRIÇÃO EM PORTO ALEGRE/RS
Produção: Tagarellas Audiodescrição.
Roteiro: Kemi Oshiro, Marcia Caspary e Mimi Aragón.
Consultoria: Felipe Mianes e Mariana Baierle.
Narração: Marcia Caspary.
Supervisão: Lívia Motta.
Equipamento: A2 Sistemas Audiovisuais.
Montagem do trailler com audiodescrição: Bernardo Garcez.
Patrocínio: Óptica LH | (51) 3221 8605 e (51) 9814 0854 |
luisbasso@terra.com.br (mais informações: http://www.portoalegrequemdiria.com.br/2012/09/19/consultoria-de-oculos-com-hora-marcada/ e http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/donna/noticia/2013/02/o-que-ha-por-tras-da-paixao-em-usar-oculos-de-grau-4031057.html)
Apoio: Bourbon Shopping, Espaço Itaú, Europa Filmes, Radioativa Produtora, Som da Luz e Gatacine.


SERVIÇO
. Estreia do filme Colegas com audiodescrição ao vivo em Porto Alegre/RS.
. 2 de março (sábado), a partir das 9h30, com ingresso e combo (pipoca e refrigerante) grátis.
. Sala 2 do Espaço Itaú, no Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80 – atrás do Shopping Iguatemi).
. Ingressos limitados. É indispensável a reserva antecipada pelo e-mail
tagarellasproducoes@gmail.com ou pelos fones (51) 3384 1851 e (51) 8451.2115.
. Trailler com audiodescrição:
http://youtu.be/M3c1joyTWgc
. #vemseanpenn (sem audiodescrição):
http://youtu.be/bHNTPdy0CIM

CONTATO
Tagarellas Audiodescrição
tagarellasproducoes@gmail.com
(51) 8451.2115 e (51) 8118 9814

 (início da descrição do poster)
O poster do filme é vertical e foi criado sobre uma fotografia colorida. O texto, em letras brancas, está centralizado na metade superior da imagem, toda preenchida pelo céu azul turquesa de um dia ensolarado. Na metade de baixo, três jovens com Síndrome de Down – uma garota e dois garotos – viajam, sorridentes e livres, de braços abertos, em um conversível vermelho visto de frente. Atrás deles, ao fundo, a estrada faz uma curva em meio à vegetação. Mais ao longe, montanhas escuras contrastam com uma camada de nuvens azuladas. À esquerda, na carona do conversível, a garota olha para a frente. Ela usa chapéu dourado e blusa lilás. A seu lado, à direita da foto, o motorista tem só a mão direita no volante. Ele usa turbante brilhoso com penacho e um colete dourado. No encosto do banco traseiro, o terceiro jovem olha para cima de olhos fechados. Ele veste roupa azul, capacete, luvas, sunga e botas amarelas. Um cão preto e peludo viaja junto dele. Logo abaixo da foto, em uma barra preta, as logomarcas dos realizadores e os endereços de dois sites sobre o filme.
Gatacine, Petrobras, Invest Image, Caixa Seguros, Sabesp, Polo Cinematográfico de Paulínia, AkzoNobel, Neoenergia e Europa Filmes apresentam:
Colegas. A comédia mais divertida do ano.

. Melhor Filme – Melhor Direção de Arte – Prêmio Especial do Júri – 40º Festival de Gramado 2012.
. Melhor Filme Brasileiro – Prêmio da Juventude – Prêmio do Público – 36ª Mostra Internacional de São Paulo.
. Premio Del Pubblico – XXVII Festival de Cinema Latino Americano di Trieste (Itália) 2012.
. Melhor Filme 6th Greaking Down Barriers Moscow (Rússia) 2012.
. Melhor Roteiro – 1º Festival de Paulínia – 2008.
. Seleção Oficial Festival do Rio Hors-Concours 2012.
. Filme de Abertura 9º Amazonas Film Festival 2012.
. Opening Night Film 6th Annual red Rock Film Festival Utah (USA) 2012.


Um filme de Marcelo Galvão. Estrelando: Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Lima Duarte, Leonardo Miggiorin, Deto Montenegro, Rui Unas, Juliana Didone, Marco Luque, Maytê Piragibe, Nill Marcondes, Otávio Mesquita, Theo Werneck, Christiano Cochrane, Daniele Valente, Daniela Galli, Oswaldo Lot, Anna Ludmila, Germano Pereira, Theodoro Cochrane, J. Peron, Amélia Bittencourt, Giulia Merigo, Carlos Miola, Thogun. Trilha Sonora: Ed Côrtes. Direção de Som: Martin Grignaschi. Direção de Arte: Zenor Ribas. Figurino: Kiki Orona. Direção de Fotografia: Rodrigo Tavares. Montagem: Marcelo Galvão. Finalização de Som: La Burbuja Sonido. Produção: Gatacine. Produtor: Marcelo Galvão. Produtor Associado: Otávio Mesquita. Produção Executiva: Marçal Souza. Distribuição: Europa Filmes. Roteiro e direção: Marcelo Galvão.

Apresentadores: Lei do Audiovisual Ancine – Agência Nacional do Cinema, Lei de Incentivo à Cultura Ancine – Agência Nacional do Cinema, Governo do Estado de São Paulo – Secretaria da Cultura, ProAc – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, Governo Federal – Brasil – País Rico é País Sem Pobreza, BR Petrobras, Investimage 1 Funcine, Caixa Seguros, Sabesp, Polo Cinematográfico de Paulínia, AkzoNobel – Tomorrow’s Answers Today, Neoenergia, Gatacine Produções. Patrocínio: Net – O Mundo é dos Nets, KSB, CVC. Distribuição: Europa Filmes. Apoio: Docol Metais Sanitários, EATON – Powering Business Worldwide, Libbs, Locaweb, Ferro+, DaTerra Sustainable Coffe, Senac São Paulo, ArtCenter – Tecnologia em Impressão, Burti.

http://www.gatacine.com.br – http://www.facebook.com

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Infelicidades entrelaçadas

         Sempre detestei viagens de negócios, pois tenho alguma dificuldade em lidar com ambientes desconhecidos. Pior que isso, é ter que passar a noite trancafiado em um quarto de hotel. Ainda mais para um homem solteiro e bem apessoado como eu, que poderia estar em tantos outros lugares e em companhias mais interessantes.
         Naquela noite eu estava especialmente inquieto e resolvi descer até a recepção, onde prontamente uma moça muito gentil veio me atender, mas pedi para conversar com um funcionário homem, já que só assim eu poderia obter as informações que desejava sem qual quer tipo de constrangimento. Então, perguntei a ele onde eu poderia sair e ouvir boa música e se possível até, ter uma “companhia”. O sujeito foi muito prestativo e me indicou em detalhes como fazer para chegar ao local recomendado, parecendo ser um frequentador assíduo do estabelecimento.
         O trajeto foi rápido e por isso acho que o taxista foi honesto comigo – o que no meu caso não costuma ser comum. Inclusive fez questão de me deixar na porta da casa noturna sem fazer questionamentos estapafúrdios, o que é ainda melhor. Dali já se podia ouvir o barulho e o odor estimulante da diversão sem limites.
         Quando entrei no recinto, percebi que não estava lotado, e também era como se todas as pessoas estivessem olhando para mim, talvez porque não fosse muito comum ver alguém como eu por ali. Entre uma dose e outra de whisky, um garçom me ajudou a encontrar aquela companhia que eu tanto queria.
         Dentre tantas possibilidades, me apresentou uma mulher que parecia ser jovem, embora fora um pouco reticente quando apresentada a mim. Fiz a minha parte e lhe ofereci uma bebida enquanto me contava que se chamava Carla e que tinha 31 anos. Exceto pela idade, sabia que estava contando uma série de pequenas e grandes mentiras, parecendo cada vez mais embaraçada com uma situação que para ela deveria ser corriqueira.
         Então, paguei para ver – literalmente – onde iria dar tudo aquilo, que também me deixava um pouco assustado, aturdido e excitado. Era como se eu estivesse em meio a uma enxurrada de lembranças agridoces. Resolvi fazer um teste final, e lhe ofereci um cigarro com sabor de cereja, que era o seu preferido. Aceitou minha oferta e logo me levou para o quarto demonstrando docilidade e bastante timidez.
        Como sei tudo isso sobre ela? No caminho fui me lembrando com lancinante intensidade de todo amor que devotei a Manuela durante os dez anos em que não tive sequer uma notícia sua. Sim, seu nome verdadeiro era Manuela, e por um bom tempo fomos colegas de faculdade. Mais que isso, éramos muito amigos, e eu seu namorado, mesmo que ela não soubesse. Quando o curso acabou, cada um de nós foi trilhar seu caminho e acabamos perdendo contato, ainda que meu amor crescesse exponencialmente com a saudade. Eu sei que deveria tê-la procurado, mas na época não tive coragem suficiente para sofrer uma rejeição iminente.
         Desde que a conheci me apaixonei por sua bela e sedutora voz, e por uma mulher que parecia ser forte, independente, que dizia e fazia o que tinha vontade, sem se preocupar com as opiniões alheias. Cada semana tinha uma paquera diferente, empilhando relacionamentos na mesma proporção com que me frustrava por nunca ter sido um dos escolhidos.
         Como uma vitrola que arranha o disco, lembrava insistente e cotidianamente das longas conversas que tínhamos sobre as nossas vidas e planejamentos futuros, lembro de sua risada hipnotizante e de suas palavras sempre amargamente doces e de suas mãos pequenas e frias, que muitas vezes mostraram o caminho que eu deveria seguir.
         Fui despertado de meus pensamentos com o barulho da porta se abrindo e da delicada voz de Manuela me pedindo para entrar. O quarto parecia ser bem pequeno embora fosse climatizado e exalasse um perfume de jasmim. Ela me levou até a cama, fechou a porta e foi então que eu não aguentando mais de ansiedade resolvi abrir o jogo e dizer que eu sabia de quem se tratava:
- Agora que estamos só nós dois não precisa mais fingir, Manuela, ou não lembra mais de mim?
- Não sou paga para lembrar, e sim para ajudar a esquecer. Mas não Paulo, eu nunca esqueceria de você.
         Não sei se falava a verdade ou mentia por oficio da profissão. Sentou-se ao meu lado, acariciando a minha coxa e em seguida passou a desabotoar a minha camisa até que eu lhe disse:
- Eu senti muito a tua falta, nem imagina quanto... Não entendo o que te levou a sumir repentinamente. Como você entrou nessa vida?
- Quando a gente se formou eu resolvi dar um tempo em tudo, até em mim mesma. Queria mudar a minha vida, trocar de amigos, de cidade, de profissão até de existência se possível fosse. Infelizmente, como sempre, foi tudo uma sucessão de fracassos ininterruptos, e a uns três anos estou por aqui, pelo menos grana eu tenho.
- Com o valor que eu paguei, tenho certeza que sim... talvez, ganha bem mais do que eu até.
- Você continua o mesmo engraçadinho de sempre. Sabe, às vezes acho que jamais tomei uma decisão acertada, em momento algum sinto essa vida como se fosse realmente minha, e quando eu penso que o sofrimento chegou ao limite, sempre piora um pouco mais.
        Ela começou a chorar como se tivesse represado as palavras e as lágrimas durante os dez anos que ficamos sem nos ver. Também deixei as lágrimas serpentearem o meu rosto, lembrando de todos os dias, meses e anos de intensa solidão, angústia e rejeição que vivi, prendendo em mim um amor que mal cabia no infinito.
        Não importava o que fizesse ou como ela fosse, eu continuava amando-a como quem adora o sol mesmo sem poder tocá-lo. Não houve sequer um dia que não tivesse devotado amor a Manuela, afinal, o amor se alimenta de renúncia e de saudade. Quanto mais falta ela me fazia, mais os sentimentos se intensificavam. Amar é ser mesmo um pouco adorador da tristeza. Quem ama olha nos olhos da dor e sucumbe a ela. Não há quem ame e não sinta prazer no sofrimento que esse sentimento provoca.
         Quando me dei conta, fazia um silencio ensurdecedor no quarto. Enxuguei suas lágrimas, e recordava o bem que me fazia ser apaixonado por ela, mesmo sem nunca ter sido notado. Apesar disso, sempre me ajudou muito a superar os momentos de dificuldade na faculdade, e não foram raros. Durante todo esse tempo, Manuela foi meu ombro amigo e minha estrela-guia.
         Sempre me sentia excluído pelo mundo todo, o que piorava ainda mais cada vez que ela me apresentava um “namorado” novo, e eu sempre ali a disposição para quando e como quisesse, mas talvez por isso mesmo, jamais tive essa oportunidade. Acho que não me declarei por saber que adiar a felicidade e viver de expectativas é mais regozijante do que consumá-las.
         Resolvi romper o silêncio, e como quem tenta curar uma ferida colocando álcool, perguntei:
- Só queria entender porque na época você ficou com quase todos da turma, menos eu?
- Eu sempre tentei encontrar em alguém aquilo que nunca tive, e quanto mais eu tentava pior eu me sentia. E sai com outro, e outro...
- Menos comigo ...
- Eu sempre gostei tanto de você, mas nunca imaginei que gostasse de mim desse jeito, achei que era só uma grande amizade, eu acreditava que ninguém pudesse ter um afeto tão forte assim por mim, ainda mais alguém como você?
          Em um só movimento me levantei e fiquei de costas para ela, dizendo:
- Como assim, alguém como eu?
- Pensando bem, você é a única pessoa que gosta de mim pelo que eu sou e não pelo meu corpo, pelo que eu visto, a única pessoa que pode me dar o que eu preciso, que é amor verdadeiro.
- Não é possível, era algo que parecia tão evidente.
- Eu acho que desconfiava, mas não quis dar um passo em falso e abalar nossa amizade, pois eu não amava nem a mim mesma. Além disso, eu ficava um pouco embaraçada em como lidar contigo e com toda a situação. Mesmo assim, você nunca sequer tentou algo comigo.
           Como eu não havia tentado nada? Pelo jeito ela não reparava bem em mim. Às vezes, até o amor pode fazer emergirem os sentimentos mais cruéis, e as verdades que não deveriam ser ditas, e por isso eu retruquei:
- É claro que eu não podia ter chance, você nem deixava a cama esfriar.
          Manuela levantou com fúria, e depois de um suspiro, em um tom de voz mais alto, repleto de cólera e desolação, disse ao meu ouvido:
- Se isso te deixa mais feliz, eu odeio dar, sempre achei  que seria como me libertar, como me sentir amada e desejada. Mas no fim eu sentia uma insuportável sensação de estar sempre suja. Foi nessa época que aprendi a fingir.
           Juro que tentei não dizer o que eu estava pensando, mas não consegui esconder o sorriso sarcástico, e menos ainda as palavras:
- Como é? Uma puta que não gosta de trepar? Eu pensei que isso não existisse.
          Agora chorando, mais por raiva do que por tristeza, Manuela me agarrou com força pelo colarinho da camisa, encostou o nariz dela no meu, como se quisesse que eu engolisse as palavras que iria me dizer:
- Você pensa que a minha vida é uma merda? Pois ela é mesmo! Só não é pior do que a sua, que vive aprisionada na masmorra do passado, que precisa pagar para ter o que outros tantos conseguiram de graça. E agora, quem é o fodido aqui?
          Competir em crueldade com uma mulher nunca é bom negócio, a gente sempre acaba humilhantemente derrotado. Com alguma dificuldade, ainda me recuperando com a surra de verdades, tirei do bolso um maço de cigarros, pegando um para mim e outro para Manuela. Era um pedido de desculpas que eu prometi que não materializaria em palavras. Acendemos os vagalumes de nicotina sabor cereja, e depois de uma tragada em silêncio eu disse:
- Tá, me desculpa... esqueça o que eu disse, pois não me importa o que te aconteceu esse tempo todo, ainda te amo da mesma maneira. Todos os dias dos namorados, eu comprava uma flor, tirava as pétalas e soprava-a ao vento, para que chegassem até você. Nos dias tristes eu escutava aqueles poemas que gravou para mim. No meio da multidão, meu coração enchia de esperança ao ouvir uma voz parecida com a tua, e logo meu mundo caia na decepção de uma falsa impressão.
          Encontrei um copo cheio de whisky sobre a mesa, e tomei de uma só vez. Dei dois passos para trás, mais aliviado do que tenso. Eu havia ensaiado por dez anos como dizer tudo isso a ela, e de repente foi bem diferente do que imaginei. Na medida em que eu me sentia mais leve, o ambiente foi se tornando até mais acolhedor. Me dei conta que Manuela me fazia cafuné e dizia ter sentido saudade. Por um instante, cheguei a achar que aquelas eram típicas palavras de Carla fazendo seu trabalho. Logo percebi que tudo aquilo não era mecânico ou ensaiado de parte dela, o que me deixou mais tranquilo e confiante.
          Instaurou-se uma atmosfera diferente no recinto, pois embora muitos anos antes Manuela me afagara diversas vezes, naquela hora tudo me pareceu diferente, uma sensação de ternura partilhada por nós dois. Afinal, nossas vidas são entrelaçadas por um tácito pacto de infelicidade, baseado no medo da rejeição e, principalmente, no prazer clandestino de manter viva a chama de um passado que esqueceu de acontecer. Lembranças muito vivas que corroem a carne e nos matam um pouco a cada dia.
          Há coisas que não necessitam ser ditas para serem partilhadas.  Manuela segurou as minhas mãos e me puxou para que também ficasse em pé, me deu um longo e afetuoso abraço. Parecia estar pensando o mesmo que eu, vivendo a dor e o deleite daqueles que sucumbem a si mesmos. Naquele momentos finalmente éramos um casal, unidos pela existência que fenecia ainda em vida.
          Senti algo novo, como se uma sensação estranha de esperança me dominasse, como se no teatro da vida eu tivesse a chance de refazer os roteiros soturnos que marcaram o passado e prescreviam nosso futuro. Era uma oportunidade de fazer tudo de outro modo, dizer o que deveria ser dito, ter coragem de tentar sem temer o fracasso ou esperar reciprocidade, afinal, amar é um ato individual e independente de quem quer que seja.
          Imbuído desse novo espirito que me arrebatava, ao ouvido de Manuela pedi-lhe um beijo, e disse que eu esperava por aquilo diariamente por mais de uma década. Seu longo suspiro e respiração ofegante deixavam claro não só que tudo daria certo, mas que as labaredas do desejo nos consumiam. Com suavidade ela colocou uma de suas mãos em meu rosto, roçando em minha barba, e com a outra me laçou pela cintura. Seus lábios molhados e carnudos tocaram os meus vagarosamente. Nos beijamos longa e apaixonadamente.
          Infindáveis sensações me inundavam a cada instante, flashes desconexos de lembranças que aconteceram e de outras que tinha inventado, além de um completo êxtase físico e mental. Seu beijo tinha gosto de chocolate misturado com batom, e era intenso como meu desejo e frágil como minhas certezas. Fui desbravando seu corpo em alto relevo, como um conquistador que descobre algo que já fora explorado por outros tantos.
          Deitamos na cama e começamos a nos acariciar com bastante desejo e delicadeza, e se é verdade que muitos pagaram para ter esse belo manancial, fui um dos únicos que teve Carla e Manuela ao mesmo tempo. E quando tudo estava ardendo em mim, eis que toca o despertador, avisando que meu tempo havia encerrado. Já era hora de ir embora, pois Carla ainda tinha duas horas de trabalho pela frente. Não preciso nem dizer o tamanho da minha frustração e angústia por possivelmente não ter outra oportunidade dessa novamente. Nem mesmo essa aflição apagou minha alegria por notar que Manuela estava muito decepcionada pelo tempo ter acabado. Foi quando mais uma vez ela me surpreendeu e disse:
- Você é solteiro né? Vi que não tem aliança no dedo.
- Sim sou, mas que tem isso?
- Posso te fazer companhia no hotel? Tem trabalho amanhã?
- Claro que pode, amanhã eu iria embora, mas dou um jeito nisso.
- Vou te levar até o andar de baixo e esperar meia hora aqui, se não aparecer ninguém a gente vai, senão vai demorar um pouco mais.
          Ainda um pouco atônito com a situação, respondi que sim com um movimento de cabeça. Rapidamente descemos e me sentei mais ou menos no lugar onde a havia encontrado. Parecia que mais movimentado do que antes, o que diminuiu minhas esperanças de sair dali em menos de meia hora. Não acreditava naquilo que acontecia, e a maneira com que ao menos uma vez eu estivesse feliz e com sorte. Tive pensamentos que não condiziam com o momento – pessimismo não se perde facilmente.
          Acendi um cigarro para aplacar a ansiedade, mas ela não se dissipou com a fumaça, fiquei imaginando quantos homens teriam pago pelo seu serviço? Seriam eles gordos, magros, feios, cheirosos? Seriam educados ou violentos com ela? Me vi sofrendo com ela nas noites muito movimentadas ou nas humilhações que deve ter passado. Para alguém na minha condição é muito mais fácil voltar-se para dentro de si mesmo, mas apenas o amor é capaz de subverter a hegemonia do ego, e nos faz viver mais no outro do que na gente mesmo.
          Minhas divagações foram abruptamente interrompidas por Manuela que me deu um beijo na orelha e muito animada me disse que poderíamos ir embora. Rapidamente fomos para o hotel, onde transferia a passagem para o dia seguinte, poderíamos fazer do meu quarto um recanto onde o tempo seria esquecido, não havendo passado nem futuro, onde as tristezas e cobranças não estariam presentes. Não estava mais ansioso ou com medo, só tentava viver ao máximo cada instante com Manuela, que me tratava com mais atenção e carinho, com menos amizade e mais paixão.
          Logo pedimos espumante e morangos para aumentar o clima de desejo e o romantismo do momento. Entre muitos beijos e caricias bebemos toda a espumante, e muitas vezes nem usamos as taças ou a garrafa. Manuela tinha muito a me ensinar sobre sua atividade profissional, pude usufruir de sua experiência e de seus equipamentos de trabalho.
          Foram muitas e muitas horas de luxúria, suor e paixão, onde pude realizar quase todas as fantasias que tive com ela desde que a conheci.  Além de saciar minha voracidade carnal, conversamos muito sobre nossas vidas. Senti que nascia em Manuela um sentimento mais forte do que uma afetuosa amizade, o que enchia meu coração de alegria e esperança.
          Quando tivemos que nos despedir não sentia exatamente tristeza, apenas uma pequena saudade, mas eu tinha certeza de que seria não o fim, mas um novo começo para nós dois. E o beijo que trocamos antes da despedida me fez perceber que ficaríamos juntos para sempre. Não demoraria muito estaríamos vivendo juntos, e por mais dificuldades que existissem seriamos simplesmente, felizes.
          Ao voltar para casa, tive que atravessar quase o país todo, além disso, o cansaço e as emoções dos últimos dias consumiram todas as minhas energias. Cheguei em casa, larguei as malas em algum canto e fui dormir rapidamente. Ao acordar tive a sensação de ter voltado de um longo sonho ou de ter dormido quase uma semana. Já havia se passado mais de um dia desde que deixara Manuela, mas era como se estivesse todo esse tempo comigo.
          Tomei um café rápido, pois deixei muito trabalho acumulado. Entrei no meu computador e fui verificar meus e-mails quando notei que tinha uma mensagem dela. Tive a certeza de que sua saudade foi ainda maior do que a minha. Deixei a mensagem dela por último só para alimentar a expectativa. Depois de algum tempo fui ler a mensagem que dizia:

Oi querido, fez boa viagem?
Faz pouco tempo que não nos vemos e já sinto tanta saudade. Nem dormi até agora pensando em tudo que nos aconteceu. Talvez não entenda agora, mas um dia saberá que minhas palavras são fruto de um novo, profundo e eterno amor. Sempre te admirei pela sua força de vontade, inteligência e perseverança, que te levam hoje a ser um executivo de sucesso. O mundo é muito menor e muito mais escuro para mim do que para você.
É a única pessoa que eu sei ter me amado de verdade, pois sem nunca ter enxergado meu corpo, se atraiu e se apaixonou pelo que eu sou – ou como você desejava que eu fosse – e não por minha aparência. Sua cegueira não foi, não é e nem seria um problema, mas uma solução para mim.
Justamente por essa grande admiração é que eu não posso ser desonesta com nenhum de nós dois, embora isso cause uma dor que dilacera, é melhor o estrondo de uma verdade do que uma mentira que nos putrefa aos poucos. Ficar ao lado de alguém por pena ou sem amor, mais do que trair ao outro, é matar a si mesmo. Não quero cometer os mesmos erros do passado, ou pior ainda, te torturar cotidianamente com esse meu jeito.
Quando a gente tem dúvidas sobre existir um amor ou não, a certeza já está clara e límpida. O amor nunca deixa interrogações, e se elas existem, é porque o amor não se faz presente. Isso eu só pude perceber conversando contigo e tendo uma pequena noção do que sentes De alguma forma, o bem que você me fez, te afastou de mim.
Se ficássemos juntos, durante algum tempo poderíamos viver felizes, mas e depois? A verdade é mais dura para mim do que para você, eu sempre amei mais o desejo e o amor que me devotam, do que as pessoas que demonstraram esse sentimento. Sempre fiz questão de manter viva a esperança e a súplica por uma possibilidade de consumar esse amor. Minha felicidade não está em amar, mas em ser amada incondicionalmente, e no prazer de sentir esse desejo pulsando em alguém, de ter completo domínio sobre a vida de quem me ama.
Meu amor, infelizmente contigo isso não seria diferente, e fiquei pensando que a gratidão que tenho por você não me permite esconder isso. Talvez eu te amasse um dia, mas não sei se é agora. Além disso, os amores mais perfeitos são aqueles que nunca se realizam, pois o que fica na memória não é a rotina, o tédio, a dor ou as más lembranças, e sim, as lembranças que inventamos de quão belo tudo poderia ter sido.
Indo direto ao ponto, espero que encontre alguém que te ame, e sei que não posso ser eu. É melhor para nós dois que não me procure mais, nem amanhã, nem daqui a uma década. Sei que por mais longe que estejamos, algo nos unirá, a infelicidade. Espero que você um dia rompa com esse elo, pois eu não posso, nasci marcada para viver nessa condição. Não peço que concorde ou entenda, apenas que aceite que isso será o melhor para nós.
Seja feliz, adeus.
Manu

          Não sei explicar exatamente o que aconteceu comigo, lembro apenas da inimaginável dor e vazio de que fui tomado. Recordo de ter ficado muitas e muitas horas chorando em silêncio sentado no chão em um canto da sala, para só depois dimensionar o que se passava. É, dizem que o amor é cego, e de fato, eu sou feito apenas de amor, mas se dizem que a rejeição faz o amor sobreviver, serei eterno. Agora, muito tempo depois dou razão a Manuela, só mesmo a impossibilidade de um amor pode torná-lo subversor do tempo.
          Foram incontáveis as noites em que tentei inventar um final feliz para nossa história, escrever um final diferente daquele que aconteceu. Poderia dizer que encontrei uma mulher que tivesse me feito tão feliz quanto eu mereço, Ou que em um belo dia eu tenha acordado e a tristeza tinha passado, e que sairá com minha bengala cantando na chuva. Mas quem eu poderia enganar a não ser um leitor menos atento?
           O que tem acontecido é que penso em Manuela a cada segundo, e o tempo tem aprofundado a dor. Não tenho desprendimento suficiente para esperar ou desejar que ela esteja feliz. Acho que é bem pouco provável que isso tenha ocorrido, pois o que é a vida senão conjuntos de atrocidades separados por breves hiatos de alegria.

...................
Felipe Mianes

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Defesa de Projeto de Tese de Felipe Leão Mianes

Olá pessoal, vai ser um prazer contar com a presença de todos vocês na minha defesa de Projeto de Tese, um importante momento para mim e creio que uma oportunidade para debatermos sobre as questões de acessibilidade, sobre deficiência visual e suas marcas culturais.
Conto com vocês!!


MARCAS CULTURAIS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL: REIVINDICANDO IDENTIDADES ATRAVÉS DO DIREITO À DIFERENÇA

Doutorando: FELIPE LEÃO MIANES

Orientadora: Dra. Lodenir Becker Karnopp

Banca examinadora:
Dra. Rosa Maria Hessel Silveira (PPGEDU/UFRGS)
Dra. Maura Corcini Lopes (UNISINOS)
Dra. Eliana Paes Cardoso Franco (UFBA)

Data: 26 de Fevereiro de 2013
Horário: 9h
Local: Sala 408 da Faculdade de Educação da UFRGS (Av Paulo Gama n º 110) 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Audiodescritor em Foco - Entrevista com Mariana Baierle







Mariana Baierle é jornalista pela PUCRS e mestre em Letras pela UFRGS. Professora e palestrante em cursos sobre acessibilidade cultural e formação de profissionais para atendimento de pessoas com deficiência. Consultora em Acessibilidade e audiodescritora consultora. Repórter e apresentadora do quadro Acessibilidade dentro do programa Cidadania da TVE-RS. Diretora do documentário “Olhares” (em parceria com Felipe Mianes). Editora do Blog Três Gotinhas (www,tresgotinhas.com.br)




1 - Como você se tornou audiodescritor? Que importância a audiodescrição tem na sua vida?
Mariana: Através de curso de formação específica, além de assistir a muitos filmes com audiodescrição, analisar roteiros, ler artigos, pesquisar e discutir com outros profissionais da área. O audiodescritor não é formado na noite para o dia. É um processo longo, trabalhoso, que exige dedicação e esforço pessoal. É preciso uma sensibilidade incrível por parte do audiodescritor, que tem em suas mãos um desafio e uma grande responsabilidade. É preciso formação teórica e prática, talento, riqueza vocabular e treinamento. Mais do que um campo de trabalho e um mercado em plena expansão, a AD tem um significado mágico na minha vida. Representa minha autonomia, minha independência, liberdade, oportunidade de lazer e entretenimento, acesso à arte, à cultura e à informação. É um mundo visual ao meu alcance através de palavras.
Palavras que significam mais que imagens. Palavras repletas de significado e de sentimento. Sempre amei literatura e a AD nada mais é senão uma tradução – e, porque não dizer, uma criação - artística e literária. Por isso, ouvir a AD de uma exposição, filme, fotografia, obra de arte pode ser algo belo e prazeroso, que coloca a pessoa cega ou com baixa visão em posição de igualdade em relação às demais.
 
2 – Na sua opinião, o que a AD representa para seus usuários? O que pode provocar na vida dessas pessoas?
Mariana: AD representa uma mudança de cultura, de consciência e de valores por parte da sociedade. O mundo passa a preocupar-se – ainda que de forma tímida - com os direitos humanos, com o respeito às diferenças e às especificidades de cada um. Os espaços públicos e privados, os ambientes culturais e sociais, começam a ser preparados e projetados para receber e atender bem a todos, não apenas àqueles enquadrados dentro de certos padrões de normalidade.
Sempre consegui realizar todas as minhas atividades tendo baixa visão (como trabalhar, estudar, ter amigos, me relacionar com as pessoas etc). A maior dificuldade sempre foi no acesso a determinados produtos e eventos culturais, em que as imagens eram imprescindíveis.
A partir da AD isso mudou, não há mais esse impedimento. Agora a luta é para que mais espaços coloquem a AD em sua programação regular, não apenas em alguns momentos pontuais. Por isso, acredito que a AD representa mais autonomia, mais liberdade, mais satisfação na vida de pessoas com deficiência visual e dos demais beneficiados.
 
3 – Quais as maiores dificuldades e quais as maiores alegrias em ser audiodescritor?
Mariana: Uma das grandes e sérias dificuldades ainda é fazer com que as pessoas se deem conta que qualquer produto ou serviço relacionado à acessibilidade não precisa necessariamente feito de forma gratuita. Ainda existe a ideia de que qualquer ação relacionada à acessibilidade é uma obra social ou de “caridade”, de cunho assistencialista, para com aqueles que não enxergam. E isso não é verdade. As pessoas com deficiência visual querem ser tratadas com respeito, como consumidoras, como clientes e apreciadoras de arte e entretenimento.
No caso da AD, existem profissionais capacitados, empresas preparadas e com experiência para prestar um serviço de qualidade. Algumas podem realizar seu trabalho melhor do que outras. É a lei do mercado, o público irá decidir e escolher aquela AD que lhe agrada mais.
Nesse sentido, tratar as pessoas com deficiência visual como consumidores, como clientes, e não como “coitadinhos” ou “vítimas” de alguma coisa ainda é o mais difícil. Isso envolve uma mudança de postura e de pensamento. As pessoas com deficiência visual podem acompanhar os mesmos filmes, os mesmos espetáculos, desde que tenham as condições adequadas.
Quanto às alegrias, são imensas. Sou apaixonada pela arte da audiodescrição e por tudo que ela representa. Gosto das imensas possibilidades artísticas e literárias que ela propicia. É maravilhoso exercer a atividade de audiodescritora consultora, revisar roteiros, trocar ideias com os demais colegas da área, além de fazer parte de uma equipe maravilhosa na Tagarellas Audiodescrição (mais do que colegas, amigos para a vida toda). Enfim, é uma atividade que me realiza como pessoa e como profissional. Tenho alegrias constantes desde que me aproximei da audiodescrição enquanto espectadora e depois enquanto profissional.
 
4 - Você concorda com a ideia de que a AD, mais do que informar, deve proporcionar que o usuário usufrua e sinta as sensações do que é descrito?Você acredita que a audiodescrição além de um recurso de acessibilidade seja também uma produção cultural?
Mariana: Com certeza, não há dúvidas de que a audiodescrição é, acima de tudo, uma produção cultural e artística. Além de ampliar o conhecimento e o acesso do público aos produtos audiodescritos, amplia também o vocabulário, o entendimento do mundo, a apreciação e percepção cultural. A AD permite que as pessoas com deficiência visual vivam e sintam os espetáculos, filmes, teatros etc de forma intensa, autônoma e completa.
 
5 – O mundo está cada vez mais visual, e se levarmos em conta que a visualidade é a matéria-prima da audiodescrição, ainda há muito a ser explorado nesse campo. Junto a isso, temos a ampliação e difusão dos produtos e políticas culturais para acessibilidade por parte dos governos e da sociedade civil. Diante desse cenário, quais desafios você acha que devem ser enfrentados para expandir a audiodescrição, tanto em quantidade como em qualidade?
Mariana: Em primeiro lugar é preciso que as leis sobre acessibilidade que existem no Brasil sejam cumpridas. Já está determinada a inserção de duas horas semanais de AD na TV aberta, mas nem todas as emissoras estão cumprindo. E, mesmo aquelas que cumprem, às vezes disponibilizam uma AD de péssima qualidade, feita por pessoas desqualificadas e sem experiência na área.
Falta pressão por parte do público com deficiência visual, intelectual e todos os demais interessados. É importante lembrar que quase um quarto da população brasileira tem alguma deficiência, conforme dados do último Censo do IBGE. São pessoas que, como todas as outras, pagam seus impostos, fazem parte do mercado consumidor de cultural, arte, lazer e entretenimento. São pessoas que precisam ser contempladas em todo planejamento de qualquer evento, programação cultural, televisiva, cinematográfica etc. Não é mais espaço para pensamos apenas em um modelo de “consumidor-padrão”. A sociedade não comporta mais esse tipo de pensamento e atitude. Não existe mais um padrão de “normalidade”. Cada pessoa deve ser respeitada e atendida em suas necessidades.
 
Entrevista: Felipe Leão Mianes
 







quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Desfraldando meu estandarte

Pessoas com deficiência visual é o grupo que pertenço.
A visão é baixa,
e a felicidade é imensa.
Me falta acuidade e nitidez.
Mas sobra sabedoria e sensatez.

Não enxergo as estrelas no céu,
mas sei que elas estão lá.
Como amigos que perdi.
E nunca mais pude abraçar.

O quanto enxergo.
A dizer me nego.
Se vejo em cone ou só em brumas.
Isso não tem importância alguma.
Com o que tenho me contento.
Tanto faz se é dez ou um por cento.

Não fitando o exterior.
Olho para dentro,
e conheço a mim mesmo.
Profunda estranheza me incendeia.
Antes isso que viver a vida alheia.

O poeta portenho.
Diz que pouco enxergar é um dom.
Aumentando a certeza que tenho,
na firmeza dos passos que dou.
Da baixa visão ostento o estandarte.
Semeando esse orgulho por toda parte.
...........
Felipe Leão Mianes





domingo, 3 de fevereiro de 2013

A união faz a força das diferenças

Ontem estava caminhando pelo bairro Cidade Baixa, aqui em porto Alegre, e comecei a me dar conta de algo que é realmente importante, uma tentativa de unificação e aglutinação dos grupos considerados minoritários para diluir preconceitos e valorizar a diferença. Essa é uma postura que poderia ser muito frutífera, embora ainda seja pouco ventilada.
Enquanto circulava pela rua Lima e Silva, lembrei que no longínquo século XIX o bairro Cidade Baixa foi um importante quilombo e reduto de negros alforriados. Muito da tradição carnavalesca, e de algumas características da região da cidade tem a ver com a herança que esse grupo nos deixou e que ainda está latente.
Atualmente, o bairro é composto por residências de famílias de classe média que convivem – não muito bem – com a intensa e divertida vida noturna. São dezenas de bares com as mais diferentes opções gastronômicas, musicais e de grupos sociais. Adolescentes e jovens porto-alegrenses - dentre os quais eu mesmo - gostam muito daquela atmosfera de alegria e boa música. É claro que existem os problemas inerentes como a violência e sujeitos que não sabem viver em sociedade, independentemente de quais grupos pertençam.
A Cidade Baixa também é conhecida por ter entre seus principais frequentadores, o público homossexual. Realmente desconheço as razões que fizeram com que esses grupos se reunissem naquele local, e embora incomode a muita gente, acho ótimo que essas pessoas se façam presentes nos diferentes espaços da cidade. Afinal, é preciso marcar posição, ser visto e enfrentar a resistência da sociedade. Isso é algo que todos aqueles que pertencem a uma minoria tem de lidar.
Em um determinado momento do trajeto que eu percorria fui resgatado de minhas reflexões por uma imagem que me chamou muito a atenção. Vi e ouvi – pelo barulho da bengala – que uma moça cega acompanhada de outra mulher também circulava com desenvoltura pelas ruas do bairro. Durante umas duas quadras fomos na mesma direção e pude observá-la e fiquei feliz de não ser eu o único com deficiência visual a curtir a região.
O mais interessante de tudo, foi perceber que a moça cega e sua companhia, em determinado momento trocaram um afetuoso beijo na boca e algumas palavras de carinho, as duas são namoradas – sim, eu ouvi a conversa delas para saber isso. O que me deixou feliz foi o fato de ter me dado conta de que a uns anos atrás uma pessoa com deficiência sequer pensava em sair na rua. Mais ainda, dificilmente é possível ver com frequência pessoas com deficiência que se declarem gays (assistam ao curta Eu Não Quero Voltar Sozinho), afinal devo reconhecer que o preconceito seria infinitamente mais forte.
Mesmo assim, aquelas mulheres que não tinham mais do que 30 anos seguiam suas vidas com felicidade, sem se interessar com olhares oblíquos que em algum momento recebem. Se para um colunista gaúcho pessoas cegas não podem ser felizes, aquela jovem contraria essa besteira. Não me importa quem ela seja ou o que ela faça, o fato é que ao ver aquela cena fiquei pensando: como seriamos fortes se as minorias se unissem ao invés de lutarem sozinhas.
O exemplo do bairro Cidade Baixa que reúne entre seus frequentadores de ontem e hoje, negros, gays, pessoas com deficiência e outros tantos grupos minoritários me faz perceber que existem diversos temas em que os grupos dos “diferentes” poderiam se aglutinar e debater em bloco, como a questão do preconceito, da justiça social e de formas salutares para modificarmos o status quo da sociedade, eliminando as discriminações e construindo no lugar uma sociedade que exalte o direito de ser diferente.
Por isso mesmo, creio que respeitando as peculiaridades de cada grupo, podemos sim pensar em uma coesão que nos possibilite dialogar em torno de uma agenda positiva na luta que travamos contra os destratos daqueles que se consideram como maioria e desprezam os “diferentes”. Não estou nem me referindo à militância ou aos movimentos sociais especificamente, mas a ações individuais, como ativistas que podemos ser em nome do direito de ser como somos.
Não sou negro ou gay, mas como vivo na condição da deficiência, partilho diversas sensações semelhantes a que essas pessoas sentem, como se sentir deslocado na maioria das vezes, como viver de alguma forma tendo que conviver com olhares e comentários desnecessários, além de uma série de preconceitos e estigmas que não condizem nem um pouco com a verdade absoluta.
É muito importante que possamos nos colocar no lugar do outro, dessa forma poderemos tomar aquilo que achamos ser injustiça contra alguém como sendo uma luta que também é nossa. Assim, poderemos deixar de lado eventuais divergências em nome de um bem maior que é o nosso direito a ser singular, a ser diferente, sem que aqueles que se outorgam como maioria tenham que determinar o que somos ou o que devemos fazer. Não é um brado contra a maioria, embora eu sempre me pergunte: quem é a maioria? É sim, uma sugestão para que nós possamos debater algumas possibilidades de unirmos nossas reivindicações.
Enfim, como cada pessoa possui em si peças de pessoas, como diria o cancioneiro, não deveríamos nos importar tanto em nos definirmos como uma coisa só, assim como há negros com deficiência, negros gays, gays com deficiência ou outras tantas combinações possíveis. Até mesmo dentro desses três grupos que citei aqui existem outras tantas divisões que muitas vezes prejudicam os processos de consolidação de seus direitos. Contudo, o que para mim ficou evidente ao ver aquele casal na rua é que sim, nós podemos deixar de lado as picuinhas e ao invés de dividir, nos unirmos e somarmos forças em nome do bem maior que é o direito de poder ser quem se é, pelo direito de ser diferente sem que isso seja considerado ruim, ou ainda, pelo direito de sermos nós mesmos....