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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Papai Noel devia ser cego

Às vezes a cegueira é usada como adjetivo positivo para qualificar algumas posturas. Um exemplo disso, é que a justiça deveria ser “cega”, já que os cegos – ou a maioria deles – tratam a todos de modo semelhante, sem distinguir cor de pele, beleza, condição social ou deficiência. Isso não significa tratar a todos igualmente, mas estabelecer relações pelo que as pessoas são ou sentem e não pelo que aparentam ser.        
Fiquei pensando nisso depois de ter ouvido a conversa entre uma mãe e sua filha que era cega. O diálogo foi o seguinte:
-- Mamãe, Papai Noel também é cego?
-- Não sei minha filha
-- Tadinho! tomara que ele seja...
-- Pensando bem, acho que ele é cego sim, porque ele gosta das pessoas pelo que elas são e não pelo que elas tem, ele ama todas as crianças do mesmo jeito.
Ao contrário do que essa mãe disse para sua filha, às vezes é preciso colocar o dedo na ferida e falar sobre o senhor Noel a partir do modo como as pessoas o caracterizam. Nesse caso, ele enxerga muito bem e pode ser um velhinho injusto muitas vezes.
            Existem inúmeras crianças que ele jamais visitou, e que esperam por ele ansiosamente por anos sem saber que ele nunca vai chegar. Sempre lembro dos versos da famosa canção natalina: “Já faz tempo que eu pedi mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ Ou então felicidade é brinquedo que não tem”. Infelizmente, ele enxerga muito bem, e escolhe quem receberá ou não os presentes de natal.
Mas ainda resta uma esperança! Se nomeássemos um cego como Papai Noel, talvez isso mude. As coisas seriam muito diferentes se o bom Noel não enxergasse.
Fico imaginando como seria esse papai Noel cego, que ao invés de usar renas, seria auxiliado por cães-guia, ou usaria óculos escuros e bengala branca. Para ele seria mais fácil entrar nas casas de madrugada sem fazer barulho, pois teria a capacidade de usar mais tranquilamente o tato na escuridão da noite.
Se o bom velhinho fosse cego, ele não iria apenas nas casas em que houvessem enfeites, árvores de natal e o famoso show de luzes natalinas. Muito menos, faria diferença entre luxuosas mansões e barracos minúsculos, ele chegaria a todas as casas com presentes e a alegria habitual.
Talvez fosse um excelente pedido de natal rogar para que todos nós sejamos um pouco cegos. O natal seria muito mais feliz se a gente enxergasse mais com o coração do que com os olhos. Se fosse assim, gostaríamos das pessoas mais pelo que elas são do que pelo que elas aparentam ser ou ter, que amam mais o conteúdo do que a forma. Dizem que o amor é cego, então, vivamos na cegueira, para amarmos uns aos outros mais e mais...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Bengalando em Barcelona (Visita ao Museu Olímpico)



Essa foi uma das experiências mais emocionantes e repletas de conhecimento que tive, pois se trata de um lugar quase plenamente acessível, a começar pelo transporte coletivo. Não por ser perto do centro da cidade, pois fica um pouco afastado, na região da montanha Montjuic.
Só há uma linha de ônibus que leva até a região, mas como faz um trajeto transversal na cidade, é possível usar diferentes linhas de metrô e ônibus para chegar até essa linha de coletivo e fazer a baldeação com segurança e autonomia. E como a maioria das estações de trem e pontos de ônibus conta com acessibilidade, chegar até lá fica mais fácil. A linha 55 deixa os passageiros exatamente em frente ao museu.
O prédio não conta com piso tátil na parte externa ou interna, mas não há nenhum obstáculo perigoso na entrada do mesmo. Existe uma rampa e uma porta ampla pela qual as pessoas com deficiência têm a possibilidade de se locomover com segurança e autonomia.
Logo na entrada, há um guichê de atendimento onde o visitante paga a entrada – pessoas com deficiência têm 20% de desconto – e aluga o audioguia. Caminhando cerca de vinte metros chega-se ao inicio da exposição. No primeiro piso há exposição sobre os diferentes tipos de esporte, sejam eles olímpicos ou não.
Há uma espécie de divisórias separando cada esporte apresentado. Os primeiros espaços se dedicam a contar as histórias das olimpíadas da Idade Antiga, e como eram as competições naquela época. Em seguida, apresentam fotos, áudios e vídeos das primeiras edições das olimpíadas da era moderna, em 1896, recriada pelo Barão de Coubertin. Logo após o panorama histórico, começam os esportes especificamente.
Cada uma dessas divisórias que havia explicado antes, na lateral esquerda do visitante, e na medida em que se vai avançando na exposição indo para frente, se vai descendo ao subsolo, pois como o prédio é adaptado não existem escadas, apenas rampas, elevadores e escadas rolantes – essas usadas apenas para a exposição temporária, fora da sala principal do museu.
No subsolo é possível encontrar as mesmas divisões do andar de cima, ou seja, por esporte, mas, ao centro, há pequenas cabines com monitores de televisão onde é possível ver fotos, ouvir áudios das mais diferentes olimpíadas e assistir a vídeos com reportagens, jogos e outros fatos históricos esportivos.
No que tange aos espaços físicos, se resumem a essas disposições nos três andares, seja no primeiro ou nos dois subsolos. O fato de haver harmonia e características claras de como os objetos estão dispostos e como a exposição pode ser vista, ajuda e muito em termos de acessibilidade, pois é fundamental para a orientação de uma pessoa cega ou com baixa visão.
Quando o quesito são as informações sobre o museu, a acessibilidade continua excelente. Em todos os locais existem informações referentes a localização e aos textos sobre os esportes e personalidades apresentados. Todos os painéis contam com textos em espanhol, catalão e inglês, o que demonstra a possibilidade de comunicarem-se nos diferentes e principais idiomas usados pelos turistas e habitantes de Barcelona.
Mais do que isso, todas as informações estão em totens com excelente contraste – fundo preto e letras brancas. O tamanho das letras é bem grande, e aliados à iluminação bem colocada permitem que uma pessoa com baixa visão leia tudo sem qualquer problema. Tal só é possível também, porque esses totens estão à altura dos olhos de uma pessoa com estatura mediana.
Para ajudar ainda mais no processo de acessibilidade e sensibilização do visitante com deficiência visual, em quase todas as apresentações dos diferentes esportes, há pelo menos um objeto que pode ser tocado, e na imensa maioria deles são mais de dois artefatos que podem ser tateados.
Muita coisa pode ser tocada, de réplicas de diferentes estádios olímpicos, seja da era antiga ou moderna, até objetos como sapatilhas originais de corredores famosos. A imensa maioria dos artefatos são reproduções, mas todas feitas com a mesma textura, cores, formas e com os mesmos materiais das originais.
Além daqueles que já citei, podem ser tocados também aparelhos de arco e flecha, futebol, ginástica artística, basquete – destaque especial para os tênis de Michael Jordan –, e de outros esportes menos tradicionais no Brasil como Hóquei sobre Grama, Esgrima, Rugby e outros.
Por fim, há uma sala dedicada exclusivamente às Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Assim como nas demais a imensa maioria dos objetos podem ser tocados, dentre elas, réplicas da tocha olímpica, do mascote dos jogos e artefatos usados por alguns atletas.
Contudo, o maior destaque fica para as peças originais dos figurinos usados nas cerimônias de abertura e encerramento. Há também os originais de muitos adereços usados nessas cerimônias, o que ajuda a ter uma noção muito grande do que está sendo exposto, além de prover a sensibilização que sempre é desejada pelas pessoas com deficiência. Isso porque, mais do que acessibilidade ser fonte de informação, também é fundamental para a compreensão, fruição e sensação daquilo que se está vivenciando.
E, para finalizar, o audioguia é um capítulo à parte no que diz respeito à acessibilidade no Museu Olímpico. O produto oferecido tem excelente qualidade sonora, e os textos narrados, igualmente. Em algumas das vinte faixas, dois atletas paralimpicos relatam algumas de suas experiências e sensações quanto ao esporte e a importância do mesmo em suas vidas.
Esses relatos ajudam muito a sensibilizar, a promover processos de identificação e imersão daquele que ouve com a exposição, além de ser um ponto de vista diferente e incomum sobre o esporte.
Aliando isso ao conjunto de informações disponibilizados no material em áudio, o entendimento da exposição é facilitado. O roteiro é muito bem escrito e repleto de informações e referências imagéticas, ajudando na compreensão daqueles que não enxergam ou enxergam pouco.
Além de informações sobre os esportes, sobre as fotografias em cada parte específica e sobre os objetos expostos, o audioguia traz orientações espaciais como o local em que a pessoa está, quantos passos deve dar e em que direção ela deve ir para chegar até o item seguinte. É excelente a riqueza de detalhamento com que isso é feito, desde as descrições das dimensões, formas, cores e texturas até a demonstração das sensações e emoções que objetivam provocar.
Tal é possível também diante da narração que contem bastante diversificações nas entonações que levam à sensibilização do ouvinte. Prova disso é que mesmo ouvindo em espanhol, consegui compreender absolutamente tudo que foi dito.
Enfim, creio que a acessibilidade nesse museu é excelente, a melhor que já tive oportunidade de presenciar. É possível que uma pessoa cega ou com baixa visão vá e desfrute sozinha e com autonomia. Permite que essa pessoa toque, ouça e sinta a exposição, o que lhe proporciona informação e emoção. Esse é o caminho da acessibilidade que devemos trilhar: informação, emoção e participação das pessoas com deficiência, e que sigamos esse exemplo para a acessibilidade cultural no Brasil.


Descrição da foto
Do lado direito, e de costas, estou com uma camisa xadrex nas cores cinza, branco e vermelho, além de um capuz azul escuro.
Ao centro. e a minha frente, três espadas usadas para esgrima. Com a mão esquerda toco a terceira, da direita para a esquerda.
Acima e ao lado da base das espadas, há uma mascara usada por esgrimistas.
Fim da descrição

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O dia em que eu venci a morte, e de goleada



Apenas pessoas próximas sabem dessa história que tenho a revelar. Não que eu tenha algum problema com ela, pois apesar de ser a vítima, sou de todos os envolvidos, o que sabe melhor lidar com ela. A vontade de contar isso talvez venha do fato de estar morando em Barcelona, e ser a capital europeia com o maior número de motos. Isso me faz lembrar diariamente dos acontecimentos que irei compartilhar.
Era uma segunda-feira, dia 24 de Abril de 2000. Uns dois dias antes, tive uma decepção com um amigo e não estava lá muito legal. Mas era um dia depois da Páscoa e os chocolates me ajudavam a superar o fato.  Também era meu primeiro semestre na faculdade de História, e isso me deixava muito motivado e feliz por frequentar um curso que eu gostava tanto.
Como sempre, fui para a aula caminhando, já que a faculdade ficava perto de onde eu morava e eu sempre gostei de caminhar e ir refletindo sobre a vida. Não tenho muitas lembranças daquele dia, apenas sei de muitas coisas pelo que me contaram depois. Conforme me fora dito, tínhamos aula de Sociologia I, e não sei por qual motivo fomos liberados da aula mais cedo, por volta das 16 horas, conforme os colegas me contaram.
Então, fui para casa a pé como fazia todos os dias desde que começaram as aulas. Como de costume, esperei o sinal abrir para os pedestres e atravessei a rua (dessa parte eu tenho pequenos fragmentos de recordações). Infelizmente, um irresponsável de um motoqueiro resolveu ir mais rápido do que deveria e ultrapassar o sinal vermelho, o resultado é que o sujeito me acertou em cheio.
Como eu já estava quase do outro lado da rua e a batida me fez voar para frente, por cerca de 30 centímetros não bati a cabeça no meio-fio da calçada, e provavelmente seria meu fim. Com o impacto da batida eu desmaiei, mas segundo contaram testemunhas eu tive a sorte ou sei lá o que de colocar a mão na frente do rosto na hora de cair, e a batida na cabeça foi amortecida.
Tudo está documentado em algum prontuário policial ou da empresa de transito - perdido em um arquivo. Dizem que eu acordei alguns instantes, o suficiente para dar meu endereço ao policial que fazia a ocorrência. Desse modo puderam ir até minha casa avisar o que tinha acontecido.
Apenas o meu irmão que na época tinha 13 anos estava em casa, e o telefone estava estragado. Além de ficar assustado, ele teve que pensar rápido e ir até a casa de minha avó, onde havia um telefone que funcionava. Assim, pela primeira e única vez meu maninho andou em um camburão da polícia. Na mesma hora, avisaram o meu pai que estava trabalhando e foi corendo para o pronto socorro para onde eu seria levado.
Nesse meio tempo eu acordei. Lembro que recobrei os sentidos e senti que precisava cuspir algo, que entre muito sangue, percebi que havia todos os cinco dentes da parte frontal da boca. Isso me deixou um tanto assustado, mais ainda do que eu estava. Sentia muitas dores nas mãos e no rosto. Mesmo assim, ainda perguntei aos enfermeiros para onde eu estava indo e se tinham avisado meus pais.
No meio do caminho, escutei uma batida muito forte e em ato continuo me levantei mesmo com aquele colete cervical pesadíssimo. Ainda não tinha visto o que aconteceu, mas olhei para trás e vi que algo pontiagudo havia cravado a maca bem onde era para estar o meu pescoço. A única coisa que a enfermeira conseguiu dizer Foi: ”teu anjo da guarda te salvou pela segunda vez hoje guri”. Fiquei tão apavorado que emudeci – o que para um tagarela como eu é algo quase impensável.
Segundos depois, soube que uma moto tinha batido em alta velocidade na ambulância em que eu estava, e por isso alguns aparelhos quebraram e voaram lá dentro. Infelizmente, o motociclista havia ficado muito ferido na batida, e como sabemos não há tantas ambulâncias assim na cidade, imaginem a mais de uma década.
Isso gerou um fato que seria cômico se não fosse trágico. A enfermeira que estava me atendendo correu para ver como estava o motoqueiro atingido e uns cinco minutos depois voltou para me dizer: “tens que tomar uma decisão, eu não posso te obrigar a nada, mas, o motoqueiro que bateu na gente está muito mal, e precisa ser atendido logo, queríamos saber se aceitas sair da ambulância e esperar outra para que o levemos no teu lugar?” Eu não tive dúvidas em aceitar.
Por isso, fiquei no meio-fio da calçada durante um tempo conversando com a atendente e com muita dor no rosto e nos braços com as roupas esfarrapadas. Lembro que sentia como se meu rosto tivesse o dobro do tamanho normal e sangrava bastante pelos ferimentos internos na boca o que me deixava com uma sensação ainda mais desagradável. A adrenalina ia baixando e a dor aumentando, e muito.
Lá pelas tantas, chegou outra ambulância e fui para o hospital receber tratamento adequado..Chegando lá, eu encontrei o meu pai me esperando em certo desespero pois chegara primeiro do que eu. Teve muito alívio ao me ver, mas não maior do que o meu.
Foi engraçado que ele tentava falar comigo tentando me consolar e fingir que eu não estava com o rosto todo arrebentado. E, eu tentava tranquilizar ele dizendo que estava tudo bem, mesmo sentido dores terríveis. Sim, hoje eu consigo achar graça em tudo isso.
Depois de terem me levado para fazer uma peregrinação por quase todas as salas de exames do hospital, fui levado até a emergência dos politraumatizados para fazer as suturas necessárias. Fiquei sabendo iria passar a noite no hospital em observação.
Havia apenas uma vaga naquele momento, e fui colocado como o “paciente 10”. Enquanto os médicos tricotavam a minha boca ouvia algumas conversas dos funcionários no entorno, primeiro porque isso me fazia sentir menos dor, e segundo porque meu ouvido desenvolvido me ajuda nisso.
Eis que ouvi uma mulher comentando que o “09” era de uma gangue e tinha ficado ferido em uma briga de traficantes, e que já tinham chamado reforço da polícia porque tinham medo que seus companheiros fossem resgatá-lo ou que os adversários terminarem o serviço.
Fiquei pensando que o sujeito estava imediatamente ao meu lado, e esse pessoal não quer nem saber quem está por perto e não tem nada a ver com isso. Dai sim, me bateu um baita pavor. Eu conversei com a enfermeira e disse que não ficaria ali mais um minuto sequer. Depois de muito eu incomodar e de provar que tinha auxiliares de enfermagem na família que cuidariam de mim, consegui liberação.  
Duas horas depois e com a recomendação expressa de não dormir e de no primeiro sintoma correr de volta pra lá, eu sairia do hospital. Nesse momento eu já estava com a boca e o queixo todo suturado em um total de 13 pontos – e um inchaço tão grande que o lábio superior tocava a ponta do meu nariz-, com a mão esquerda enfaixada e muitas escoriações no rosto e nos braços e pernas.
Com certa dificuldade, coloquei a roupa e fui saindo pela porta. Quando a abri, para minha surpresa e em ato contínuo, o policial militar que vigiava a entrada sacou uma arma e apontou para a minha cara. A única coisa que eu disse foi: “cara eu não vou fazer nada, estou aqui todo fodido e ainda com uma arma na cara, que eu posso fazer contra ti?” Como eu falei meio sorrindo, o tal sujeito pediu desculpas meio constrangido e sorriu também.
Mais uma porta, e encontrei com meu pai. Eu nunca tinha ficado tão feliz em vê-lo e saber que eu voltaria para casa só com uma história para contar, além de ter que tratar durante três meses os meus dentes e refazê-los. Naquela noite nem que eu quisesse eu conseguiria dormir, pois até chegar em casa eu estava em estado de alerta e não tinha me dado conta de tudo que acontecera.
Assim que cheguei em casa e vi a alegria da minha família, me dei conta de tudo, acho que chorei tanto que fiquei um ano sem lágrimas. Foi uma época difícil, pois eu fiquei com medo de sair na rua. Quase um ano depois decidi que era hora de acabar com aquilo e sai sozinho, fiz o mesmo trajeto, ida e volta, nada me aconteceu, e assim, voltei a ir a pé para a faculdade.
Hoje eu conto essa história como algo engraçado que me aconteceu, pois eu sempre faço das coisas ruins um motivo para rir. Porém, lembro que eu fiquei assustado com a possibilidade de morrer tão cedo. Por outro lado, tive felicidade de ser visitado e receber telefonema de muita gente, e como dias antes eu me sentia o último dos seres humanos, tudo aquilo me deu animo para continuar. Eu percebi que muita gente me queria bem.
Portanto, pude notar o quão efemera e boa é a vida. Procuro fazer de cada dia o mais importante e me cuidar sabendo que muita gente sentiria minha falta. Acho que esse episódio foi muito bom na minha trajetória, já que eu de fato nasci de novo, muito melhor do que antes.
As marcas que tenho desse episódio são mais do que a cicatriz que tenho no queixo, são da grandiosidade e da fragilidade da vida. Por isso eu agradeço que essa história tenha acontecido comigo, pois fez de mim um sujeito melhor e um dos poucos a vencer a morte três vezes no mesmo dia.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Bengalando em Barcelona (Visita ao Museu de História da Catalunha)



O Museu de História da Catalunha está situado às margens da praia de Barceloneta, e por isso tem uma grande quantidade de ônibus e trens para chegar até lá, já que se trata de uma região turística e de muito movimento na cidade.
As estações de ônibus e metrô contam com acessibilidade para pessoas com baixa visão, pois possuem letreiros grandes nos pontos e a numeração e nome dos coletivos também, por isso relativamente legíveis. Os elevadores que levam aos diferentes andares das estações do metrô contam com sinais e avisos sonoros e em braile para que a pessoa com deficiência visual consiga ter autonomia em sua locomoção. Os pisos podotáteis direcionam dos elevadores e escadas até as plataformas sem qualquer tipo de obstáculos.
Encontrar o museu é um tanto difícil, pois ele fica em um prédio grande cuja entrada é pela lateral, além das sinalizações não serem as adequadas e não haver piso tátil que ajude a pessoa cega a ir sozinha. E, as dificuldades não terminam quando se entra no local, pois não há nenhum recurso de acessibilidade, nem sequer audioguia para a exposição.
Talvez por isso, as pessoas com deficiência pagam um valor reduzido pela entrada e tem direito a um acompanhante cuja entrada é franqueada. Nesse caso, a pessoa cega ou com baixa visão não possui acessibilidade que lhes permita conhecer plenamente o museu sozinho, mas se tiverem uma companhia disposta a ajudar e que saibam minimamente fazer descrições de imagens, as coisas melhoram bastante.
Tive a sorte de contar mais uma vez com a ajuda qualificada de minha esposa, Patrícia. Pelo fato de conviver comigo há quase dez anos, já sabe como me descrever as coisas, aquilo que eu posso ou não gostar, além de eu ter passado a ela algumas técnicas de audiodescrição que ela aprendeu muito bem. Sua ajuda foi fundamental para que eu pudesse conhecer o museu em todas as nuances e desfrutar de toda a riqueza de conhecimentos que lá é possível encontrar.
As exposições temporária e permanente, se dividem nas duas plantas do prédio destinadas a essa finalidade. No primeiro piso se apresenta da pré-história catalã até o ano de 1740. No piso subsequente, se encontram retratados os períodos do ano antes referido até os dias atuais.
Ainda que essa separação seja de fácil compreensão, o que ajuda no momento da visita, o modo como estão dispostos os objetos e obras, não facilitam muito para uma pessoa com deficiência visual, já que existem muitas salas pelas quais se tem que passar, muitas fileiras de exposições que não estão em ordem ou dispostas com as mesmas características de orientação espacial, dificultando para uma pessoa cega se movimentar e conhecer o que está exposto sem se perder ou deixar algo importante para trás.
Por outro lado, embora os problemas apontados acima também sirvam para as pessoas com baixa visão, elas podem contar com algo que ajuda bastante, que são os totens com letras grandes e com bastante contraste. As letras são em tamanho bem ampliado e estão escritas em branco com fundo preto, podendo ser encontradas ao lado de quase todas as obras consideradas de suma importância, nos idiomas catalão, espanhol e inglês.  
Na linha do tempo que está na sala da pré-história essas informações em letra grande estão bem abaixo do campo visual de uma pessoa com altura mediana, dificultando que se enxergue o que está escrito. Assim como o nome das obras na maioria das vezes estão colocadas em uma altura muito baixa, e ler é um tanto complicado. Contudo, nas peças arqueológicas existe um sistema de iluminação pelo lado de dentro da redoma, de tal forma que ressalta as cores e formas desses objetos ajudando na visualização.
Já os espaços que tratam dos primeiros habitantes da Catalunha, seja com os visigodos, com os romanos e séculos mais adiante os árabes, contam com os referidos totens que facilitam a visualização e conhecimento das obras.
Há também reproduções que podem ser tocadas, como algumas estátuas romanas, a maquete de uma cidade catalã no período romano e outros objetos que retratam a vida cotidiana naquela época como os sistemas de irrigação árabe, as oficinas de cerâmica e bronze dos romanos e reproduções de templos e objetos religiosos.
Algumas instalações eram interativas, como uma sala que retratava uma igreja cristã do século X ou uma armadura de soldado romano que poderia ser vestida pelo visitante. Essas formas de interatividade e contato com os fatos históricos se repete com mais intensidade e em maior número no segundo piso onde é retratada a história da Catalunha pós 1740.
Subindo ao segundo piso, o destaque fica a cargo das lutas pela independência da Catalunha, contra a monarquia e nos complexos anos e batalhas da guerra civil. Além disso, estão retratados aspectos cotidianos da sociedade catalã conforme o passar das décadas, das vestimentas e objetos usados pela alta sociedade barcelonesa até os produtos trazidos e criados na época da imigração.
Antoni Gaudi recebeu destaque especial. O arquiteto e artista mais famoso da Catalunha, e do mundo. Com isso, se ressalta também a Barcelona das primeiras décadas do século XX e até as reformas para as olimpíadas de 1992. Retrata a relação dos habitantes e turistas com a cidade e suas transformações.
 Há instalações muito interessantes e das quais as pessoas com deficiência podem se sentir ainda mais inseridas na atmosfera do museu, como a reprodução de uma pequena sala de aula, a cabine de um bonde dos anos 1920 e os primeiros trens de Barcelona. Porém a que mais chama a atenção, inclusive por sua carga emocional e dramática é uma sala que reproduz um refúgio e abrigo para aqueles que buscavam não serem atingidos nas batalhas da guerra civil espanhola e mais adiante na Segunda Guerra Mundial.
Outras instalações têm com menor carga de tensão e busca colocar o espectador imerso em um tempo e espaço que apresenta, como um pequeno cinema típico dos anos 1950 e um espaço no fim da visitação onde se pode tocar a maquete do templo da Sagrada Família, idealizado por Gaudi e ainda em construção.
Enfim, essas possibilidades de interatividade com os conteúdos do museu, aliado aos diversos objetos que podem ser tocados ao longo das exposições, minimizam os diversos problemas de acessibilidade que esse museu possui. Isso porque, permite ao usuário com deficiência visual vivenciar muitas das situações que não podem ver. Não podem ver, mas podem sentir e isso é uma das coisas mais importantes na arte e na cultura.
Assim, considero que a acessibilidade do local está longe de ser plena, mas pode ser considerada muito boa e superior a quase todos os museus brasileiros, ainda que necessite urgentemente de audiodescrição e de ampliação de outros recursos de acessibilidade que possibilitariam maiores e mais intensas sensações.