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sábado, 30 de março de 2013

Os sonhos nunca fenecem

Confesso que durante algum tempo achei que estava sendo em vão todo o trabalho que eu desenvolvia como acadêmico e como ativista na luta pela acessibilidade e dos direitos das pessoas com deficiência visual. Como o meio acadêmico é um tanto restrito e os estudos sobre as temáticas que investigo mais ainda, me sentia como se tudo que eu fizesse não chegasse e nem tocasse aqueles que eu gostaria que fossem contemplados pela minha luta.
Lembro que não foi uma ou duas vezes em que pensei em desistir desses estudos e seguir outros caminhos. Mas como cabeça dura que eu sou, persisti. Depois que conheci a audiodescrição em 2010, descobri que talvez estivesse ali uma chance de me aproximar do público com deficiência visual e tentar fazer a vide de muita gente um pouquinho melhor.
As coisas foram acontecendo, acabei me tornando audiodescritor além de pesquisador. Passei a ver que a audiodescrição poderia ser esse elo que eu tanto procurava e passei a realizar projetos que dessem voz às pessoas cegas e com baixa visão.
Eu e minha amiga, Mariana Baierle além dos projetos em AD, fizemos o documentário Olhares em 2012, retratando o acesso – ou a falta dele - a cultura por pessoas com deficiência visual..
O Olhares foi uma das coisas mais importantes que eu já fiz na vida. Por mais que as condições do filme não sejam as melhores, nós conseguimos tocar o coração de muita gente, pais de crianças com deficiência que nos procuram e dizem que não mais irão ver seus filhos com as lentes da comiseração e da culpa, por exemplo. Nos fez conhecer gente bacana de Salvador a Porto Alegre.
Por conta do nosso trabalho no Olhares e na Tagarellas Audiodescrição fomos chamados a participar de alguns eventos no Rio Grande do Sul. Um deles, em um município da região metropolitana de Porto Alegre, em que debatemos sobre AD em um seminário de acessibilidade.
Eu sempre gosto desses eventos por conhecer gente legal e interessada no tema, além de fazer amigos cegos e com baixa visão. Por isso mesmo, nós sempre procuramos conversar o máximo que podemos com os colegas de evento, passar um pouco da nossa vida, dividir experiências e levar uma mensagem de otimismo para todos.
Poucas semanas depois, fomos convidados desse mesmo município para apresentar o Olhares num evento literário na cidade. Muitos amigos que estiveram no seminário dias antes, também estavam presentes, e fizemos questão de chegar bem antes da exibição do filme para compartilhar ideias, conversar e conviver um pouco com nossos novos amigos.
O que sempre procuramos levar de bom é a experiência de fazer da acessibilidade uma possibilidade de acolher e aproximar pessoas. Mais que construir rampas e pisos táteis, nosso objetivo sempre é fazer as pessoas serem tocadas, e fazer com que esses encontros sejam momentos felizes e de congraçamento. Afinal, não há inclusão sem acolhimento! E isso eu direi sempre.
Essa semana soube de uma história que fez valer a pena toda minha persistência, todas as vezes em que fui adiante mesmo sofrendo com aquela sensação de desalento que contei no inicio. Conhecemos um jovem nesses dois eventos na cidade referida antes, muito simpático e interessado pelo nosso trabalho.
Também pelo fato de ser cego teve dificuldades no acesso à cultura – exatamente como nós – e ficou encantado com a AD e suas possibilidades, além de ficar muito entusiasmado em conhecer eu e Mariana que - às vezes contra nossa vontade – somos tidos como exemplos de conduta diante da deficiência, por termos mestrado, profissões consolidadas e levarmos adiante muitos projetos, e não tratarmos a baixa visão como um impeditivo, mas como mais uma característica que nos constitui.
Por mais que não desejemos ser exemplos, muitas vezes, as pessoas se dão conta de que se a gente conseguiu elas também podem tentar. 
Conheci os detalhes que relato a seguir através de uma amiga que temos em comum e que me contou essa história, que confesso ter dificuldade em escrever de tanto que me tocou.
Seja como for, uma chama se acendeu no coração desse nosso amigo, e durante alguns meses ele pode desfrutar de uma alegria ainda maior, se interessou por muito mais coisas, viu a vida com muito mais beleza e felicidade. Passou a buscar novas possibilidades de conhecimento e de entretenimento. Saiu mais de casa, conheceu outras pessoas. Enfim, se tornou um cara ainda mais feliz.
Ele se interessou por audiodescrição e começou a assistir a filmes, ir a eventos e a ter vontade de trabalhar com esse recurso também. Mas o que importa aqui é que esse amigo mudou sua vida, ampliou seus horizontes e isso lhe fez muito bem. Sempre falou em mim e na Mariana com afeto, o que sempre é uma alegria para nós dois quando as pessoas se sentem bem com o que a gente tenta transmitir.
A parte mais chata da história foi quando a minha amiga que relatou esses fatos, disse que o rapaz em questão teve um problema sério de saúde e estava no hospital em condições bem complicadas e em quadro considerado irreversível. Enquanto escrevia a primeira versão desse texto, soube que ele nos deixou sem que tivesse a chance de pelo menos ouvir o que eu escrevi. Coisas da vida... 
Confesso que no dia em que tomei conhecimento da história, tive dificuldade em continuar a aula que estava ministrando naquele dia, pois aquilo me tocou muito, muito fundo mesmo.
Pelo que a minha amiga continuou contando, ele estava vivendo os melhores dias de sua vida, os mais alegres pelo menos, depois que teve contato com a audiodescrição, com nosso trabalho e com nossa amizade. Por isso, digo a ele, amigos e familiares que esse caso representou muito na minha vida, pois foi a sensação de recompensa por todo o esforço e dificuldades que eu tive. Eu sempre disse que se eu conseguisse ajudar uma pessoa que fosse tudo já teria valido a pena. E valeu! O que vier daqui em diante é lucro.
Claro que eu sou profissional e gostaria que a acessibilidade me desse mais do que satisfação pessoal. Mas, nenhum cachê que eu receba será maior do que saber que alguém ficou um pouco mais feliz e que de alguma forma refez uma parte de sua vida por nossa causa. Foi pensando nisso que entrei no mundo da acessibilidade, tentar melhorar a vida das pessoas com deficiência. Ao descobrir que consegui um pouco disso, me sinto com a missão cumprida, e com desejo e força para seguir adiante e lutar para que mais e mais pessoas se sintam como eu.
Muitos poderão achar que seis meses de vida alegre é muito pouco, mas tem gente que vive mais de cem e nunca esteve frente a frente com a felicidade. Mesmo um segundo vivido com sorriso é melhor que uma existência fria. Não me sinto herói por ter ajudado esse amigo e de alguma forma contribuir para que ele tenha partido em paz, mas sei que fiz a minha parte colocando um tijolinho na ponte da felicidade.
Não quero terminar esse texto com tristeza, embora seja assim que eu me sinta ao escreve-lo. Gostaria de propor a troca da tristeza pela esperança, de que a acessibilidade possa chegar a muito mais gente, que ela possa fazer a vida de outras tantas pessoas um pouquinho melhor. Tenho esperanças que ao invés de muros, construiremos pontes, ao invés de olhares enviesados e de preconceito, trocaremos olhares fraternos e abraços acolhedores.
Tenho a plena certeza de que com muita luta e alegria em fazer as coisas a gente atinge esse objetivo. Até porque, quando um dia eu reencontrar esse meu amigo, eu possa abraçá-lo e dizer: cara nossa luta não foi em vão, ela valeu muito a pena!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Superação, não obrigado!

Não estou aqui para julgar comportamentos individualizados, ou mesmo para determinar o que é ou não o correto. Não me considero dono da verdade, mas um sujeito que procura ver as coisas sempre por um ponto de vista diferente. Mas, não sou dos que esconde as próprias opiniões, sou dos que se responsabiliza por todas elas. Começo dizendo isso por saber que muita gente vai discordar do que escreverei abaixo, inclusive pessoas muito próximas a mim, mas... estamos aqui é para provocar e não para concordar.
Muito por conta do políticamente correto e de suas nocivas influências na sociedade, associado a uma inegável boa vontade da maioria das pessoas em exaltar um ato considerado grandioso de alguém com deficiência - pode ocorrer em outras minorias também, mas me refiro a esse grupo em específico -, lançammão do surrado clichê da superação.
O principal significado da palavra remete a uma ideia de ir além daquilo que se espera, de ultrapassar limites impostos por uma ou mais condições, de inferioridade, que acabam por ser vencidas. Assim temos um desenho mais ou menos claro do que significa a tão decantada superação. Permitndo-nos ter uma noção daquilo que se atribui aos que são "premiados" com esse sentimento e com esse termo.
Estou aqui refletindo sobre algo que vivencio cotidianamente, poderia mesmo falar sobre outras pessoas, pois como pesquisador me vejo com propriedade para tecer comentários sobre um panorama mais ou menos estabelecido como padrão. Contudo, permanecerei usando exemplos que me dizem respeito ou que são comuns para a maioria das pessoas com deficiência.
Quando conseguimos coisas até corriqueiras ou tidas como nem tão dificeis para pessoas consideradas normais, tais como ter um emprego, passar no vestibular, ser aprovado numa seleção de mestrado ou doutorado, ter sucesso profissional, ser um sujeito talentoso naquilo que faz e outras tantas coisas. Seja como for, o sucesso de cada um de nós é sempre motivo de alegria e satisfação acima da média para muitas pessoas.
Muita, mas muita gente, ao invés de elogiar alguém com deficiência por sua capacidade, por seu talento, por sua dedicação, disciplina e outras caracteristicas que de fato são dignas de menção com honra, preferem privilegiar a "superação do problema". Fazem isso como se a deficiência fosse um impeditivo ou um impecilio para muitos de nós. De fato é, mas será que a defici~encia deve sempre estar a frente do sujeito?
Eu por exemplo, só estudo doutorado em Educação, não apesar da deficiência visual, mas sim, por causa dela. Ou seja a baixa visão me fez ter vontade, estimulo e interesse pelos estudos nesse campo, e por isso não a vejo como inimiga mas como principal responsável pelo patamar que ocupo.
Dificuldades e mazelas que tornam nossas trajetórias sempre mais dificeis do que se poderia desejar são parte de todas as pessoas, cada uma com as suas situações que devem ultrapassar ou os fardos que tem a carregar. Oras, se a vida fosse fácil seria muito chata e careta. Ninguém alcança o cume de uma montanha  sem esbarrar nas pedras no meio do caminho. E, por caso, a maior parte dessas pessoas recebem o "troféu Superação"? Não.
Para muitas pessoas com deficiência essa história de ser exaltado como alguém que superou seus limites é algo benéfico, que aumenta a autoestima e traz uma agradável sensação de inclusão e aceitação. O que fico me perguntando é se tanto as pessoas com deficiência quanto aquelas que "exaltam" a superação já pararam para pensar a questão por outra perspectiva, essa bem menos doce e "polianica".
A maioria das representações e estereótipos que circulam sobre as pessoas com deficiência dizem respeito a sua incapacidade, ou a um "problema" que limita a expectativa de muita gente sobre nós. Será que as pessoas acham que a gente tem que ficar em casa trancado esperando a banda passar? Ou será que duvidam que possamos conseguir coisas maiores do que saber ler e escrever? Fato é que ainda existe uma expectativa muito baixa diante dos resultados que podemos atingir, e isso faz com que até uma mínima conquista de objetivo se torne motivo para um desmedido carnaval da superação.
Lembrem-se de uma coisa singela, supera-se aquele que vai além dos limites esperados, de quem se considera que pode fazer pouco ou nada. A superação está no olhar daquele que faz a afirmação e não na percepção daquele que o fez. Eu nunca direi que uma pessoa com deficiência se superou, seja lá o que ela tenha feito, sabem por qual motivo? É que eu nunca espero menos ou sou descrente do potencial que nós podemos ter. Eu nunca duvido que alguém com deficiência possa chegar onde deseja, afinal, eu sempre acredito no talento e na qualidade desses individuos.
Por outro lado, a superação é também uma retórica da pseudoinclusão que temos por ai...  eu digo que alguém se supera pois não espero nada da pessoa, por consequência, estou dizendo também que a deficiência é um obstáculo a ser vencido e não uma caracteristica do sujeito, é algo que deve ser escamoteado ao máximo, para que pareça normal.
Quando as pessoas dizem que eu me superei por estar fazendo doutorado, conscientemente ou não, o que estão dizendo é que APESAR da deficiência eu consegui, e que a minha baixa visão é algo ruim, uma coisa que dificulta minha vida, o que é uma inverdade. Mais ainda, pelo fato de fazer o doutorado, eu "venci" a deficiência e ATÉ  tenho direito de ser considerado um pouco mais perto da normalidade.
Mesmo assim, por mais que possamos nos "superar" sempre ficará impregnada a marca da falta, da incapacidade e da anormalidade em todos nós. Digo isso, pois embora não se admita a superação é também uma forma de dizer que chegamos perto da normalidade fazendo sempre o máximo esforço para tal, mas... nunca chegaremos lá. Seremos sempre os "quase", que quase se tronaram normais de tão bons, os que quase são perfeitos, os que quase são como nós... Eu gosto sempre de usar a figura do café com leite, que é mas não é, que está mas não está. É assim que me sinto em relação a superação.
Não quero des desculpado ou isentado dos meus erros por causa da deficiência, mas quando tiver algum êxito quero que seja pelo meu próprio talento e não que se diga que a baixa visão faz de mim um herói. Não sou um fênomeno, apenas aproveitei as oportunidades que com meu esforço - e alguma qualidade - tive competência para aproveitar.
Não acho que me superei, pois eu sempre acreditei no meu potencial, e sei que posso ir ainda muito mais longe. Mais do que isso, é assim que penso sobre todas as pessoas com deficiência, que elas podem ir muito mais além do que elas mesmas imaginem, afinal, nós temos um pequeno universo a nossa disposição.
 
  

quarta-feira, 20 de março de 2013

saudade, o combustível do amor

Não sei se eu sou como todo mundo, mas sou um saudosista de carteirinha. Não sou do tipo fundamentalista da saudade, que acredita na perenidade daquilo que passou e acha que tudo de antigamente era melhor. Tendo 30 anos, nem sei se meu tempo de vida é suficiente para sentir essa falta de coisas do "antigamente". Muitos amam compulsivamente a saudade e vivem grudados a ela, estragando a relação. Outros se fazem de difícil e lhe dão as costas, esperando aquele abraço apertado por trás... sim, ela adora nos atingir pela retaguarda.
A relação que mantenho com ela é estável e madura, não a sufoco e nem a deixo livre demais, afinal, eu também tenho ciúmes da saudade que sinto, mesmo que ela seja de fato intransferivelmente minha. Dias nublados como esse em que escrevo, me fazem dar mais atenção a ela, pois é nesses momentos em que aparece mais vistosa e arrebatadora.
Lembro das milhares de vidas que não vivi, das situações que deixei para trás sem ter tentado ou mesmo das vezes em que desejei viver a vida de outrem. Às vezes fico pensando como seria se eu fosse um caretão? e se eu fosse hippie? e se eu fosse mulher? como seria minha vida se eu vivesse no Turcomenistão? eu escreveria melhor se fosse infeliz? Sinto saudade das pessoas com quem nunca me relacionei diretamente ou dos amigos que poderia ter feito.
Sinto uma profunda saudade da minha adolescência onde o objetivo principal é que o dia de amanha fosse mais divertido que o de hoje, e que o de ontem tivesse sido irrelevante perto do atual. Dessa época sinto falta do guaraná - via de regra batizado com caninha - com Milhopan que a gente comia nos dias em que ia jogar bola e botar conversa fora por ai. Sinto falta dos planos que tracei o único que atingi - e por caminhos diferentes do que imaginei - foi a felicidade. Lembro exatamente a sensação de desejar que o mundo parasse nos instantes em que eu me divertia com os meus amigos como se não houvesse amanhã.
Sinto muita saudade dos amigos que ficaram pelo caminho, alguns que já viraram estrelas e que brilham lá no céu como que me afagando e aplacando a dor da ausência ou confortando nos momentos difíceis. Perdura em mim a saudade dos abraços que a timidez me impediu, dos beijos que não roubei e das vezes em que calei quando devia ter dito que amava.
Nos momentos mais difíceis é que o passado nos inunda, no meu caso, não como melancolia, mas como uma mola propulsora em que ao me lembrar de tudo que passei e hoje estou aqui lépido e faceiro, logo me dou conta de que nada que me aconteça pode ser pior. Seja como for, as coisas sempre acabam se resolvendo da melhor forma. Devo agradecer a saudade por ter me proporcionado a grande maioria dos contos e poesias que escrevi, sejam os já publicados aqui no blog ou aqueles que queimei quando tinha 15 anos achando que nenhum deles fazia sentido.
A ausência nos faz ver o quão importante determinada pessoa é em nossa vida, e por mais que tenha defeitos, sua presença é absolutamente indispensável. Assim,  descobri que a saudade é o mais potente e eficaz combustível para o amor.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Audiodescritor em Foco - Entrevista com Josélia Neves


Josélia Neves é licenciada em Línguas e Literaturas modernas (português-inglês) pela Universidade do Porto; tem um mestrado em Estudos Ingleses pela Universidade de Aveiro; doutora em Estudos de Tradução, pela Universidade de Surrey Roehampton, em Londres.
É professora convidada na Universidade de Coimbra, nos Cursos de Mestrado e de Doutorado em Estudos de Tradução. Atua tanbém em cursos de Mestrado e de Doutorado em várias universidades estrangeiras.
Desde 2000, desenvolve projetos na área da comunicação acessível. Assumindo as soluções para públicos de pessoas com deficiência e surdos numa perspectiva inclusiva.
Publicou dois guias práticos para a criação de materiais acessíveis: Vozes que se Vêem: guia de legendagem para surdos e  Imagens que se ouvem: guia de Audiodescrição 



1 - Como você se tornou audiodescritor? Que importância a audiodescrição tem na sua vida?
Josélia - Conheci a audiodescrição (AD) numa conferência em Londres em 2004. Nesse mesmo ano fiz o primeiro de 6 cursos sobre Audiodescrição, todos com profissionais diferentes em diferentes países do mundo. Em Portugal, a AD era novidade, então propus-me trazê-la para o país. Simultanemante apareciam na televisão por cabo em Portugal e na Rádio Telvisão Portuguesa (RTP) os primeiros ensaios em território português pela mão de profissionais do teatro e guionismo convencional. Passei então a trabalhar com AD em DVD, espetáculos ao vivo e museus.
Hoje a AD faz parte da minha vida enquanto professora de tradução audiovisual, enquanto investigadora em comunicação inclusiva e enquanto cidadã empenhada em criar condições de acesso para pessoas com deficiência sensorial.
 
2 – Na sua opinião, o que a AD representa para seus usuários? O que pode provocar na vida dessas pessoas?
Josélia - A AD é absolutamente fundamental para quem é cego; é muito útil para quem tem baixa visão; e é estimulante para quem vê. Em suma, interessa a todos. O grau de importância varia consoante as vivências de cada um, pois mesmo para fruir de AD é preciso aprender a “ouvir”.
 
3 – Quais as maiores dificuldades e quais as maiores alegrias em ser audiodescritor?
Josélia - Em Portugal a maior dificuldade está na pouca oferta, ou pouca requisição de serviços. Seria bom poder trabalhar mais na área.
As maiores alegrias: sempre que vejo pessoas a fruir do meu trabalho, a alegria é imensa. Fico particularmente feliz quando são os jovens a “ver” através das minhas palavras. Aí, dou graças ao universo por fazer parte deste mundo admirável em que se consegue ver através das palavras ditas.
 
4 - Você concorda com a ideia de que a AD, mais do que informar, deve proporcionar que o usuário usufrua e sinta as sensações do que é descrito?Você acredita que a audiodescrição além de um recurso de acessibilidade seja também uma produção cultural?
Josélia - Sou totalmente a favor da audiodescrição expressiva. Aliás, procuro sempre adequar a minha AD ao estilo do original… se o produto é informativo, procuro criar uma AD meramente informativa, mas é na AD expressiva que eu me revejo, na partilha do ato criativo com o autor da obra original, proporcionando à pessoa cega um momento de deleite estético se é esse o objetivo do original. Isto é particularmente verdade na descrição de obras de arte – sejam elas pintura, fotografia, teatro, bailado, ou filmes de autor.
 
5 – O mundo está cada vez mais visual, e se levarmos em conta que a visualidade é a matéria-prima da audiodescrição, ainda há muito a ser explorado nesse campo. Junto a isso, temos a ampliação e difusão dos produtos e políticas culturais para acessibilidade por parte dos governos e da sociedade civil. Diante desse cenário, quais desafios você acha que devem ser enfrentados para expandir a audiodescrição, tanto em quantidade como em qualidade?
Josélia - A fim de melhorar a oferta há que trabalhar em vários domínios:
1)    Na formação dos audiodescritores. Para ser audiodescritor não basta ter jeito. Há que adquirir conhecimentos sobre composição fílima, a semiótica da imagem estática e em movimento; há que desenvolver competências de escrita criativa; há que trabalhar noções musicais e de ritmo; e no caso da AD ao vivo há que trabalhar a colocação de voz, o ritmo, cadência e dicção. Para além desta formação técnica o audiodescritor tem de compreender a psicofisiologia da cegueira e da baixa visão para poder servir efetivamente este grupo de pessoas.
2)    Há também necessidade de sensibilizar os promotores/a oferta. Os promotores de ações culturais ainda não estão sensibilizados para a oferta sistemática e generalizada deste serviço em todas as esferas da vida quotidiana, e particularmente em contexto educacional e cultural.
3)    Finalmente, há que educação a população em geral, e as pessoas cegas ou com baixa visão em particular. Há muitas pessoas que ainda desconhecem a existência da AD e tantas outras que têm dificuldade em acompanhar o serviço. Como em tudo é preciso conhecer para fruir e para exigir mais quantidade e melhor qualidade. Para conhecer é preciso usar.
 
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Entrevista: Felipe Leão Mianes
 

domingo, 3 de março de 2013

O fabuloso milagre da audiodescrição

Há quem tenha um sonho e não corra atras dele. Há quem tenha um sonho e passe uma vida inteira perseguindo-o e não alcance. Outros ainda, o realizam apenas no fim da vida. Pois é, eu posso dizer que sou um sujeito de sorte, pois antes de chegar na metade da minha trajetória eu realizei um dos meus tantos sonhos,
Quando eu era adolescente a parte mais chata do fim de semana era ir ao cinema. Meus amigos gostavam disso, assistir aos lançamentos, aos filmes que todos falavam ou apenas para ter um pretexto e sair. Essas eram as ocasiões que mais me causavam tédio e sofrimento. Acho que até agora muito pouca gente sabe disso, mas eu sofria muito quanto tinha que ir ao cinema. Dizer que não entendeu o filme porque não enxergou nada, "fora de cogitação", então eu era obrigado a fingir que tinha entendido, fazer de conta que eu compreendera tudinho, a quem eu iludia?
Isso me causava uma profunda sensação de exclusão, me sentia como se o mundo estivesse virado de costas para mim, ainda mais que eu gosto muito da arte cinematográfica. Sofrer calado talvez doa mais do que contar a todos, mas fato é que sempre que o pessoal decidia ir, eu me divertia sempre antes e depois do filme, mas durante, era um imenso poço sem fundo em que eu caia.
Depois de meus vinte e poucos anos, me inseri na pesquisa sobre deficiência visual e passei a notar que eu deveria era mostrar que o cinema é uma arte que exclui, que nós não temos acesso e que algo deveria mudar para que eu e outras tantas pessoas tivessem a chance de ter acessibilidade. Minha mudança de postura e de encarar a deficiência de frente me deu força para tentar fazer com que nenhuma criança, jovem ou idoso com deficiência visual derramasse as mesmas lágrimas que eu diante daquela tristeza excludente, mas, por onde começar?
Sempre achei que um dia, quem sabe, acontecesse algo que não me deixasse mais sentir isso, alguma tecnologia, alguma forma difeente ou mesmo que um milagre ocorresse. Eu comecei a acreditar em milagres quando conheci a audiodescrição. Descobri que havia uma saida e que era sim possível se divertir e se emocionar no cinema.
Como todos sabem, a audiodescrição mudou a minha vida para melhor, já falei muito disso. mais ainda, me tornar audiodescritor é como fazer a minha parte ativamente para processar essas mudança e dar esse acesso que antes eu não tinha. Eu sou fascinado por essa função que exerço, eu sou até uma pessoa mil vezes melhor devido a audiodescrição. Mais ainda, trabalhar na Tagarellas é um presente que a vida me deu, pois além de colegas, eu ganhei amigos.
Mas o que eu gostaria de comentar aqui é que toda a tristeza que sentia outrora, pude transformar em alegria ontem na sessão com audiodescrição de Colegas - o Filme. Eu sonhava que isso um dia pudesse acontecer, ir assistir a um filme no fim de semana de estreia, com muitos amigos e ainda entender e me emocionar com tudo. Esse é o fabuloso milagre da audiodescrição.
A sala estava lotada com umas 200 pessoas, a maioria com alguma deficiência e usando os fones de ouvido através dos quais se podia ouvir a audiodescrição. Antes do filme, começamos a conversar com as pessoas e notar que elas estavam muito empolgadas e ansiosas antes da sessão, nesse caso sabiam que poderiam entender e se emocionar com tudo.
E foi o que aconteceu!! Embora eu conhecesse cada diálogo do Colegas, pois junto com a Mariana Baierle fiz a consultoria da AD, fui me sentar e aproveitar o filme. Perto de mim, alguns adolescentes com suas bengalas e fones de ouvido. Quando a projeção começou e aquela galera começou a vibrar com a AD, além daquela profunda alegria pelo dever cumprido, eu me lembrei do meu passado. Deixar as lágrimas correrem foi a única alternativa, pois eu percebi que milagres acontecem, sonhos se realizam e que aquele choro - o mesmo que está molhando o teclado agora enquanto escrevo - eram de uma doce sensação de redenção, de saber que daqui a um tempo ninguém mais vai passar por essas dificuldades e exclusões.
NUNCA em Porto Alegre houve tanta gente com deficiência desfrutando de AD. Além disso, tivemos a chance de contar com a presença do diretor de Colegas, Marcelo Galvão, do produtor Marçal Souza e dos queridos atores Ariel Goldenberg e Rita Pokk. Além de tudo, a audiodescrição se tornou um ponto de encontro para novos e antigos amigos com deficiência, que juntos se divertiram e se emocionaram tanto com o filme quanto com o papo com a equipe de Colegas. Muitos deles puderam perceber que ao contrário do que poderiam imaginar, sempre é possível chegar mais longe.
Mais que isso, ter audiodescrição num fim de semana de estreia é lindo, agora, numa sala comercial de um shopping muito conhecido da cidade é mesmo a realização de um sonho. A sessão não foi numa sala escondida, e sim no coração da cidade, para que todo mundo veja que a gente existe, que a AD existe, e que a gente vai ao shopping, basta ser acessível. Aqui devo mencionar o Shopping Bourbon, que nos cedeu o espaço e um grande apoio para a realização desse grande evento.
Iremos trabalhar com muito afinco e dedicação para que essa seja a primeira de tantas sessões com audiodescrição em salas comerciais. Cabe a cada um de nós cobrar para que mais ocasiões como essa aconteçam.
Tenho que mencionar quem tornou isso possível: Bourbon Shopping (e sua equipe competentissíma), Itaú Cinemas, Gatacine, Europa Filmes, Óptica Luis Henrique, Tesch Transporte Executivo, Dado Bier Bourbon Country,  Fernando Waschburger, A2 Sistemas Audiovisuais, Guilherme Oliveira Silva, O Som da Luz, Acergs e Radioativa Produtora
Por fim, gostaria de dizer que as vezes a gente acha que a revolução está muito longe do nosso alcance, ou que seja impossível de fazer algo. Mas, se a gente se der conta de que pequenos atos simples podem processar revoluções seculares, talvez note que a revolução está sendo feita. A audiodescrição é mais do que tradução visual, mais do que recurso de acessibilidade, ela é sim, o instrumento pelo qual fazemos essa revolução cujos resultados são os sorrisos e as lágrimas de quem pela primeira vez foi ao cinema e se emocionou com o que ouviu. Hei de estar firme e forte para ver que isso se tornará parte de nosso cotidiano!

Foto com parte do elenco do filme (Marcelo Galvão, Rita Pokk, Ariel Goldenberg e Marçal Souza), com o pessoal do Bourbon, com a turma da Tagarellas e com minha sempre amada esposa Pátrícia. (Não, não está na ordem da foto).