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domingo, 28 de abril de 2013

Audiodescritor em Foco - Entrevista com Bell Machado

Bell Machado trabalha na Prefeitura de Campinas como assessora na Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida. Bacharel em Filosofia (Unicamp). Estudou Fonoaudiologia na PUC-Campinas e Agronomia, na Universidade de Padova, Padova - Itália. Mestranda em Multimeios no Instituto de Artes da Unicamp. Audiodescritora da ONG Vez da Voz.
Pioneira da Audiodescrição no Brasil, pois, desde o ano de 2000, fez a audiodescrição ao vivo de 290 filmes. Iniciou seu trabalho em audiodescrição de filmes para pessoas com deficiência visual, no Centro Cultural Braille de Campinas.
Coordenou de 2005 a 2011 o projeto de inclusão social, cultural e digital do MinC: Ponto de Cultura Cinema em Palavras no Centro Braille. Ministrou  por dois anos o curso “Introdução à formação de audiodescritores” oferecido para professores da Rede de Ensino da Prefeitura Municipal de Campinas.
Em 2012 fez a audiodescrição simultânea do Evento “Prêmio Folha – Empreendedor Social “ocorrido no Masp/SP e pela 1ª vez no Brasil  com transmissão ao vivo na web, diretamente dos estúdios do UOL.
É agente cultural do Projeto da Petrobrás-Cinema BR em Movimento, no qual exibe filmes brasileiros com audiodescrição ao vivo.
É integrante do Grupo AD–ABNT, grupo de discussão das normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), que tem o objetivo de estabelecer as diretrizes para a produção de audiodescrição no Brasil.



1 - Como você se tornou audiodescritor? Que importância a audiodescrição tem na sua vida?
Bell - Minha incursão ao trabalho desenvolvido com cinema e filosofia na audiodescrição de filmes deu-se por meio do curso de filosofia, na Unicamp, em 1999, quando estudei
Carta sobre os Cegos*, escrita no século XVIII pelo filósofo francês Denis Diderot. A Carta sobre os Cegos impressionou-me e me encantou de tal maneira que, nos 10 anos seguintes, meu trabalho e estudos versariam sobre questões referentes à maneira pela qual o homem constroi seu conhecimento por meio dos sentidos, e ao modo como a pessoa cega ou com deficiência visual elabora o juízo de suas percepções.
Em 2000, fui convidada pela então coordenadora técnica do Centro Cultural Louis Braille de Campinas, Eduarda Leme, para fazer o “Cinema Narrado” – atualmente o que se denomina audiodescrição, prática que ela e Cristina Loyola já desenvolviam há um ano – para pessoas com deficiência visual e cegueira. Como professora de história do cinema, achei estimulante, pois seria um modo de – ao mesmo tempo – desconstruir e roteirizar oralmente cada plano-sequência, no sentido de descrever o cenário, as pessoas e suas expressões, o vestuário, os movimentos de câmera, os deslocamentos espaciais e temporais, enfim, toda a estrutura de um filme, e o mais desafiador ainda: fazer tudo isso ao vivo, no momento da exibição do filme (na época não tínhamos recursos para fazer o roteiro de audiodescrição prévio do filme e muito menos realizar a audiodescrição gravada).
A escolha dos filmes era feita a partir de temas, país, gênero ou simplesmente pelo interesse em um determinado filme o qual as pessoas com deficiência visual não teriam condições de assistir no cinema. A maioria dos filmes selecionados, com exceção dos brasileiros, era de produção europeia, asiática, iraniana, enfim, não tinha sido exibida com dublagem nos cinemas, com o agravante de ser dificilmente encontrada nas locadoras.
A formação desse novo público espectador de cinema foi um grande desafio, pois, na época, (2000 a 2004), muitos usuários do Centro Cultural Braille não tinham o hábito de assistir a filmes – nem mesmo na televisão – e, assim sendo, não queriam participar das sessões de audiodescrição.         Com o tempo isso mudou. A maneira pela qual os filmes foram sendo apresentados, narrados, (como se dizia na época) e debatidos foi um fator determinante, tanto para desmistificar a ideia de que filmes não são para as pessoas com deficiência visual, quanto para despertar nessas pessoas o interesse e a adesão às atividades. Certamente outro fator importante foi o número de exibições, que ocorriam semanalmente durante todo o ano e a partir de 2005, duas vezes por semana. Era quase um cineclube, mas infelizmente, ainda para um pequeno grupo de usuários cinéfilos. Atualmente dois deles, Jean Braz e Evandro Chequi, são revisores de roteiros de audiodescrição.
Bem, a importância que a audiodescrição tem em minha vida não é uma resposta simples, nem breve. Cresci habituada a falar para pessoas que enxergam sobre coisas que já viram, mas em meu trabalho com audiodescrição durante doze anos no Centro Cultural Braille tive que aprender a falar para pessoas que não enxergam sobre as coisas que nunca viram. (não do meu modo, não pelo sentido da visão). E no início não tinha com quem discorrer sobre meu novo aprendizado, a não ser com as próprias pessoas cegas, as quais me ensinaram a fazer a audiodescrição. Mesmo em um mundo predominantemente ordenado pelas coisas visíveis, acredito no invisível, que se aloja no campo da imaginação e por isso respeito a imaginação. E é também por meio da audiodescrição que podemos, nós videntes, aumentar o repertório das ideias das pessoas com deficiência visual para uma melhor fruição do filme. Penso que pesquisadores e educadores devam ter um comprometimento com a produção do saber aliada a novas alternativas de comunicação.
Respondendo mais objetivamente à segunda parte desta pergunta, posso dizer que minha vida é norteada pela questão da inclusão, e que há anos a audiodescrição está atrelada ao meu cotidiano, pois está intrínseca em todas as formas do meu pensar e agir, em meus estudos, em minha vida familiar e social, em meu lazer e principalmente em meu trabalho.
2 – Na sua opinião, o que a AD representa para seus usuários? O que pode provocar na vida dessas pessoas?
Bell - Num primeiro momento gostaria de deixar claro que minha opinião sobre o que a audiodescrição representa para alguns usuários, e não para todos logicamente, é apenas uma reflexão baseada em muita convivência com diferentes pessoas que não enxergam. Sempre me questiono, pois diante da convivência ainda maior que tenho com pessoas que enxergam, não saberia dizer, de um modo geral, coisas sobre elas – E por que então poderia dizer tão assertivamente algo sobre as pessoas cegas?
Então, voltando à questão da opinião sobre a pluralidade do olhar e seus desdobramentos e, portanto, sobre a audiodescrição, posso dizer que conheci pessoas com deficiência visual que se deslumbraram com a audiodescrição das imagens e esse fato engendrou uma mudança comportamental e psicológica violentas e uma nova perspectiva de vida, pois a possibilidade de “educar” o olhar a partir do estudo da estética do cinema trouxe a essas pessoas um novo repertório imaginário e, portanto, a segurança, a autoestima e o conhecimento necessários para se discutir as imagens, em quaisquer esferas em que elas se apresentem.
- E me digam qual é o lugar que vamos que não se fala do visível?
Por outro lado, cansei de insistir desde 2000, para que alguns usuários assistissem a uma sessão de cinema e muitos nunca entraram na sala. Outros entraram, mas não voltaram tantas vezes. Não posso afirmar com certeza muitas coisas sobre isso. O efeito que uma audiodescrição produz na mente de um espectador cego é particular, individual, genuíno, mas penso que se a audiodescrição for apresentada desde criança, o processo da contemplação, absorção dos conteúdos, formação das ideias e elaboração será muito diferente. Ver essa realidade mudada acho que é o grande sonho dos audiodescritores e antes deles, logicamente, das pessoas com deficiência visual, pois ela significaria a mudança da sociedade.

3 – Quais as maiores dificuldades e quais as maiores alegrias em ser audiodescritor?
Bell - Qual dificuldade?Interna ou externa?
Falarei primeiro da interna. Acho que a dificuldade se estabelece para o indivíduo numa relação de proporção de sua vontade e competência. Narrar filmes para mim, foi algo que aconteceu naturalmente. Minha área de estudo e trabalho era o cinema, que conhecia muito bem. Por outro lado eu estava num campo completamente desconhecido, que era o das pessoas que não enxergavam. Mas meu encanto por esse mundo (Jean me matará por falar “desse mundo”!), foi tão grande que me deslumbrei. Foi um processo visceral, individual e coletivo, pois tive que aprender a fechar os olhos, a não ver, a rever, a refletir sobre a obviedade da imagem, a imaginar o tempo e o espaço misturados. Eu não tinha algo objetivo, não tinha um foco e foi aí que desfrutei dos ensinamentos de meu caro professor Milton de Almeida, que sempre me alertou a não me especializar pois o foco excessivo tiraria a possibilidade do olhar periférico e das outras possibilidades do olhar.
Quanto às dificuldades externas, em comparação ao ano de 2000, não são nada! Não que a sociedade tenha mudado tanto, no que se refere à inclusão e às barreiras atitudinais, mas não sofro mais aquela sensação de estar só. Sempre tive a certeza de que as mudanças ocorrem a partir da vontade própria e do modo como ela se representa e foi isso que me fez persistir. Hoje minha alegria é ainda maior porque vejo audiodescritores maravilhosos em caminhos diversos, e que juntos, lutam pela inclusão. Meu caminho solitário acabou e posso dizer para aqueles que me consideraram alienada, burguesa e obstinada, que valeu a pena.
A maior alegria em ser audiodescritora não é tanto poder descrever imagens para as pessoas que não enxergam ou não as compreendem muito bem, mas é dialogar sobre a parte invisível do olhar, aquela que está na mente de cada um, inclusive das pessoas que não enxergam.
 



4 - Você concorda com a ideia de que a AD, mais do que informar, deve proporcionar que o usuário usufrua e sinta as sensações do que é descrito?Você acredita que a audiodescrição além de um recurso de acessibilidade seja também uma produção cultural?
Bell - Ao meu ver toda e qualquer informação necessariamente evoca no indivíduo uma reação, consciente ou não, que é instantaneamente transformada em fruição, sensações de prazer, de dor, juízos de valor, (belo, feio, justo, falso, etc).  Não vejo porque seria diferente com as informações da audiodescrição. Existem muitas maneiras de se explicar esse percurso da informação, tanto na filosofia, na estética, na semiótica, na psicanálise e para refletir melhor sobre isso, sempre me pauto na reflexão de que não é o olhar que engana, mas o juízo que se faz das percepções que vêm por meio de todos os sentidos que possuímos.
Para responder a segunda parte da questão, me utilizo de um trecho de meu artigo A parte invisível do olhar publicado no livro “Educação e cultura audiovisual:ressonâncias"
RODRIGUES, U. A.; AMORIM, A. C. R.; COSTA, A. V. P. P.; SILVA,, J.M.B.; MACHADO, I.; SOARES, C.L.;  01/2012, ed. 1, Moderna, Vol. 1, pp. 6, pp.5-10, 2012, que versa sobre o filme de Abbas Kiarostami, “Shirin” e, entre outras a questão, por assim dizer, da pluralidade das linguagens que pode ser entendida como novas formas de se produzir conhecimento ou compreender algo já conhecido, e portanto, não somente  uma produção no sentido de uma nova cultura de hábitos e costumes da pessoa com deficiência visual e intelectual, mas também no sentido do audiodescritor ser o produtor de um novo conceito da obra a partir da sua descrição da imagem.
Se entendermos o olhar como um filtro subjetivo de uma realidade que não existe em si, mas, para cada um, e se entendermos que cada audiodescritor tem que seguir uma norma, mas também é livre para escolher a imagem e a maneira dela ser descrita, não temos como desvincular essa ação da liberdade artística.
            “Perceber o que um sentido diz para o outro, ver a passagem de uma forma de expressão (cinema) em outra (cinema descrito); entender a vontade de ver e a sua representação; colocar em desequilíbrio a interpretação; traduzir ou transformar as imagens em palavras são formas possíveis de inter relações, fundamentais dentro do processo de conhecimento da imagem. Na audiodescrição de um filme, toda descrição escolhida significa o abandono de outras possibilidades e, portanto, a construção de um significado. Por isso, não há um modo perfeito e satisfatório na audiodescrição. 
            Transformar as imagens de um filme em palavras é um modo de explorar o repertório linguístico, imaginário e artístico do audiodescritor. Durante o momento em que a imagem é observada, o descritor entra em um momento suspenso de intensa reflexão sobre o que deve ser descrito, pois aquelas imagens são invisíveis para alguns, e somente ele pode torná-las visíveis para, assim, dar-lhes um sentido, de modo análogo ao que faz um cineasta e sua câmera.
            Seja a descrição de uma cena, de uma pessoa, de um cenário, da mudança de tempo e espaço ou de um objeto, ela cria na imaginação daquele que ouve (cego ou não), um espaço (uma interferência, uma intromissão), que é rapidamente ocupado por outras ideias, transformadas em imagens, sensações e sentimentos. A imagem audiodescrita é resultado de uma montagem interna das percepções do descritor. Essas imagens trazem palavras.  Milton de Almeida disse que “cinema é a arte da fala, a arte da oralidade”. A arte de ver está ligada à arte da memória”* .
            As palavras revelam a ideia das coisas.  A audiodescrição ancora-se nas palavras e na imagem. Cria ou forja uma ideia da imagem que vai se juntar ao conceito interno de cada um, decantado na memória, o que torna diversa a intelecção.
            Um objeto está na memória. O olhar sobre o objeto depende do juízo que se faz das percepções, que vêm por meio de todos os sentidos. A imagem que enxergamos não está nem no objeto em si, nem em nosso olhar, mas em nossa imaginação, que, de acordo com Milton de Almeida, é um lugar que pode ser chamado “entremundo”.
            A imagem audiodescrita é, para alguns, a intromissão desejada, a possibilidade de ampliar o entendimento e contribuir para o imaginário da pessoa cega; para outros, é a intromissão repudiada, visto que tira a autonomia da imagem e, por consequência, infere na liberdade da percepção do espectador.
            A descrição do visível é o gesto da palavra, é como se descrevêssemos a música por meio de uma língua musical, e déssemos à imagem um gosto e um perfume. A descrição do visível pode levar o homem a confortar-se na loucura, a confrontar-se com a paz. É um deleite dos sentidos.
             É, em nossa imaginação, em um lugar que Milton de Almeida chama “entremundo”, que se encontram as metáforas óticas de Shirin: o real, o artifício e sua distinção; é também nesse “entremundo” que vivem os personagens, os espectadores e os audiodescritores, que se encontram por causa do cinema, que só nos chega pelas mãos do cineasta graças à parte invisível de seu olhar.”.
 
5 – O mundo está cada vez mais visual, e se levarmos em conta que a visualidade é a matéria-prima da audiodescrição, ainda há muito a ser explorado nesse campo. Junto a isso, temos a ampliação e difusão dos produtos e políticas culturais para acessibilidade por parte dos governos e da sociedade civil. Diante desse cenário, quais desafios você acha que devem ser enfrentados para expandir a audiodescrição, tanto em quantidade como em qualidade?
Bell - A visualidade é sem dúvida, a matéria-prima da audiodescrição, porém,
atrelada a uma educação dos sentidos, a uma sensibilização das
percepções ou, se preferirem, a uma educação e ao exercício do olhar.
Se assim não o for, dificilmente o acesso fenomenológico às coisas do
mundo bastará para que o audiodescritor descreva aquilo que foi visto. A qualidade de um profissional em audiodescrição está ligada ao tipo de formação. Penso que devemos investir em cursos de longa duração como especialização e pós-graduação. Eles são fundamentais para o estudo aprofundado das áreas em que a audiodescrição se aplica.
Entre os tantos desafios a serem enfrentados, penso ser fundamental promover o desenvolvimento de políticas públicas voltadas às pessoas com deficiência, assim como estabelecer parcerias com as diversas esferas de governo e iniciativa privada. Sabemos que algumas políticas já foram adotadas, mas não existe um órgão que as fiscalize adequadamente. É muito importante que exista uma articulação entre governo, iniciativa privada e sociedade civil, no que se refere à formação de profissionais, leis de incentivo à aplicabilidade do recurso, criação de espaços físicos e uma política de comunicação.
Tenho visto ações inclusivas geniais vindas de todas essas esferas, porém, a quantidade de eventos ainda é pequena e desse modo, torna-se inviável a formação de um público com deficiência visual e consequentemente de uma sociedade inclusiva.




*DIDEROT, Denis. Carta Sobre os Cegos para uso dos que v[ê]eem, 1749. In GUINZBURG, J. Diderot: Obras I – Filosofia e Política[:]. São Paulo[,]: Perspectiva, 2000. Com Voltaire e Rousseau, Diderot foi uma das figuras seminais do Século das Luzes e da fermentação cultural que levou à Revolução Francesa. Sua obra e suas idéias, não menos que as do autor de Candide ou do Contrato Social, encontram-se na base não só do movimento do Racionalismo francês ilustrado, como do processo de toda a modernidade filosófica, política, científica, literária e artística”. A “Carta sobre os Cegos” é um estudo no qual Denis Diderot discute, entre outras coisas, a maneira pela qual um cego congênito pode adquirir conhecimento, quando começa a enxergar, depois de fazer uma operação de cataratas. A investigação sobre o modo como o cego reconhecerá os objetos e a importância dos sentidos como fonte de conhecimento[,] são algumas das questões estudadas pelo filósofo. A partir da leitura, dou início ao meu trabalho desenvolvido, no Centro Cultural Braille, no qual ressalto algumas passagens e comparo as respostas do cego de Puilsaux, às de outros cegos entrevistados, alguns cegos de nascença, outros que perderam a visão ainda crianças, ou ainda, que a perderam recentemente. Faço, portanto, conjuntamente com eles, uma revisão comentada da “Carta sobre os cegos” em pontos considerados fundamentais para uma compreensão, aproximada ao menos, do universo dos cegos, que segundo eles, é o mesmo dos que veem.
*Milton de Almeida


 
Bibliografia:
ALMEIDA, Milton José de. Cinema Arte da Memória. Campinas, SP: Autores Associados, 1999.
ALMEIDA, Milton José de. O teatro da memória de Giulio Camillo. Cotia/Campinas: Ateliê Editorial/Unicamp, 2005.
ALMEIDA, Milton José de. Notas à margem da memória.
YATES, Frances A. A Arte da Memória. Campinas, SP: Unicamp, 2007.
TARKOVSKY, Andrei. Andrei Rublev (roteiro), 1966.
DIDEROT, Denis. “Carta sobre os Cegos in: Guinsburg (org.), Obras I – Filosofia e Política. São Paulo: Perspectiva, 2000.
MOTA, Lívia; ROMEU FILHO, P. (org.) Audiodescrição-Traduzindo imagens em palavras. São Paulo: Secretaria do Estado da Pessoa com Deficiência de São Paulo, 2010.
AUMONT, Jacques. O olho interminável (cinema e pintura). São Paulo: Cosac Naify, 2004.

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Entrevista: Felipe Mianes

sábado, 27 de abril de 2013

Uma dúvida azul

Desde criança não gostava de ser fotografado, seja pela minha timidez, seja por algum outro fator que a adultez me obrigou a esquecer. Hoje eu acho que essa minha aversão se devia muito mais a um desejo de ter algo que eu julgava impossível, o talento para fotografar. Só agora entendo que preciso mais de sentimento do que técnica para meus registros fotográficos. Também não gostava de ficar vendo fotografias, já que pelo fato de não enxergá-las nitidamente, precisava sempre que alguém me contasse o que estava vendo, e tivesse boa vontade em me descrever a foto.
Através dos textos de Evgen Bavcar, um grande fotografo cuja cegueira lhe confere uma percepção estética diferente, percebi que a imagem não é só aquilo que se vê, mas a intersecção entre como vejo o mundo e que sensações uma fotografia pode me motivar a registrar um determinado instante em imagem. Passei a achar que a fotografia é muito mais um retrato do que tenho dentro de mim do que algo que capture do exterior.
Comecei a ter tais ideias depois de algumas conversas, projetos e parcerias com a minha estimada amiga Daniele Noal, uma pessoa muito antenada, criativa e que tem o dom de nos fazer pensar de outros modos. Para muitos, cegos e pessoas com baixa visão fotografar é um contra-senso. Mas, como pesquisador que busca sempre expor aquilo que pode ser perturbador, me dei conta de que tinha um venturoso caminho pela frente.
Não digo que passei a tirar fotos constantemente daquilo que não fossem paisagens ou com pessoas marcantes para mim. Ainda assim, tenho aos poucos me arriscado a fazer fotografias baseado na ideia de construção da imagem como sentimento e não como primor estético, mas como cristalização de momentos e imagens que são mais reminiscências de minhas narrativas pessoais do que aquilo que se pode enxergar.
Apresento aqui uma das fotografias que fiz, que para mim representa muito.
Descrição da imagem
 Em quase doir terços da imagem, o mar azul escuro com alguns raios de sol refletidos e uma pequena marola. Acima, separado pela linha do horizonte, está o céu azul mais claro, onde também se podem ver algumas nuvens cobrindo quase toda borda superior da figura. A imagem está um pouco desfocada e inclinada para a esquerda.
Numa das minhas noites de insônia perguntei a mim mesmo: Que cor teria a dúvida? Qual o limite de nossos horizontes? Meu horizonte tem uma cor? Seria ele tão borrado e desfocado que não vejo seu fim?
A primeira imagem que se formou em meus pensamentos foi o azul, seja o azul do céu como o do mar, que se complementam e se delimitam durante o dia, e se unem ao anoitecer. Fitando o mar em uma manhã ensolarada percebi o contraste de azuis produzidos pelo horizonte. O azul que pode ser falso e enganar os olhos daqueles que enxergam.
A imensidão azul do mar, nos faz crer que sua cor é inquestionável, mas basta colocar sob as mãos um punhado de água que logo o azul se dissipa como uma leve bruma que leva sua cor e seu sentido azulado. Já o céu, quando não é visitado por nuvens ou quando não está visto no horário de trabalho da lua, parece um azul tido como celestial, que pode variar o tom, mas nunca perde a melodia de seus contornos.
Mas, experimente tentar tocar no céu, se para ti isso é impossível, saibas que se não o fosse também te decepcionaria, pois não é o céu que se veste de azul, mas a luz do sol que engana aos olhos daqueles que são iludidos pela visão.
Acho que às vezes a vida é meio azul como o mar e o céu. Seja como for, fiz a fotografia dos contrastes do horizonte, lá onde o mar banha a imensidão do céu e onde este, esconde por trás de si os mistérios marinhos. A imagem sempre é capaz de pregar peças se as pensamos como única fonte de reflexão e pensamento. Para quem tem deficiência visual como eu, desconfiar das imagens que nos é descrita é muito comum, pois somos produtores e consumidores de nossas próprias figuras, formas e cores.
Por isso, não creio no azul que vejo, mas sim no azul que sinto. Fotografar mar e céu juntos é construir a possibilidade de unir aquilo que poderia parecer impensável. Ser bem que, deve ser sempre bom manter viva uma reflexão e uma dúvida azul...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pensando com os meus botões - entrevista de emprego

Era uma vez em uma entrevista de emprego...
Entrevistador: seu currículo é excelente, nem parece que você tem um probleminha, parabens. Mas... nós não temos acessibilidade na empresa e nem uma vaga "à sua altura"
Entrevistado: Ah é, pois bem eu que agradeço, não quero trabalhar em um lugar sem acessibilidade e que escolhe os funcionários pela mediocridade dos currículos. Passar bem!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Meu passado sem rosto

Sempre procuro escrever sobre as coisas boas que a deficiência me proporciona ou sobre os direitos que temos a reivindicar. No entanto, hoje me dou o direito de falar da exceção, sobre algo que me entristece e que confesso sentir falta diante de minha baixa visão.
Sempre que tento lembrar de pessoas ou lugares, as recordações são sempre borradas ou desfocadas, isso quando as tenho. Não consigo gravar a fisionomia das pessoas por mais que tenham sido importantes na minha vida, mas se fico algum tempo sem conviver perco essa referência como quem perde um pedaço de si mesmo.
Dizem que as redes sociais vieram com a função de unir as pessoas. Não duvido disso, mas acho que comigo e com meus “colegas” cegos e com baixa visão isso não acontece muito bem quando o assunto são os amigos e conhecidos do passado.
Sei de gente que se reencontrou com amigos de infância e de colégio pelo facebook, e que conversam seguidamente até hoje. No entanto, essas pessoas sabiam o nome e conseguiam associar às fotos que estavam vendo, o que para nós é impossível. Imagine ter um amigo chamado João da Silva, existem centenas, como saber qual deles é o meu amigo sem ver a foto ou lembrar de algum detalhe físico? Para mim, essa rede não tem lá muita serventia.
Fico me questionando o quão bom seria poder ter claro no pensamento a visualidade de pessoas e locais marcantes, uma coisa até comum para quem enxerga bem.
Coisas que parecem tão simples podem nos deixar bastante chateados. Exemplo disso, não ter a menor ideia de como era a professora que me ensinou a ler. Meu passado não é nítido, e os sentimentos de saudade, arrependimento, alegria e outros, não tem uma imagem específica na qual se amparar. E isso é realmente muito angustiante.
Sempre penso em como deve ser legal estar andando na rua, tomando um café ou no estádio de futebol e de repente rever aquele amigo que não encontrava a mais de uma década. Bater um papo, relembrar o passado e poder dizer que o cara tá velho ou bem conservado. Isso eu nunca terei.
Por mais que a pessoa lembre de mim e me chame - como já aconteceu em uma viagem certa vez - eu não consigo reconhecer de quem se trata. Garanto que não é por mal, não se trata de desdém ou de esquecimento, mas sim, de literalmente não conseguir ligar o rosto a quem é a tal pessoa.
É realmente uma coisa meio estranha de viver, pois eu lembro os fatos com detalhes, mas não guardo qualquer imagem que os represente. Como o da moça que eu era afim na época de Ensino Fundamental, e por mais que fossemos bem amigos, eu me esqueci de pedir o endereço e telefone no dia da formatura, e nunca mais soube dela.
Ou então, do amigão que aprontava comigo na escola e que uma vez fingimos ter uma baita briga só para adiar a prova de matemática. E, depois de ter cumprido a missão e levado uma monumental bronca da diretora e dos nossos pais, a gente saiu rindo e abraçados, e a história virou meio lenda na escola... Se essas pessoas passarem por mim na rua hoje, por mais que eu queira contar as aventuras que tenho feito e a vida feliz que tenho levado, ou elas me reconhecem ou isso não acontecerá.
Por outro lado, eu posso até ser um sujeito de personalidade um tanto forte, mas se há uma coisa que não gosto é deixar coisas ruins para trás, ou melhor dizendo, não curto ficar brigado com ninguém, ou que alguém se chateie comigo por longo tempo. Claro que há exceções.
Contudo, sempre pensei em tentar ao menos “zerar” algo ruim que eu tenha feito para alguém, procurar a pessoa e por mais tempo que tenha passado, me desculpar e dizer que eu não sou o mesmo cara nervosinho, radical, tímido tido como esnobe ou que tantas vezes se escondia das coisas. Queria deixar tudo as claras caso algo tenha ficado de errado, mesmo que talvez ainda assim a pessoa nunca mais queira contato comigo. Então, embora sejam bem poucos nessa condição, como fazer isso se eu nem sequer lembro que rosto elas tem?
Penso também, nas inúmeras festas que eu fiz, nos diversos amigos que ficaram para trás e que ainda hoje se nos reencontrássemos tudo seria como antes, uma alegria enorme. Sinto saudade de tanta gente boa com quem já cruzei pelos caminhos da vida e que gostaria de agradecer, mas como se suas faces estão apagadas da memória?
Sinto como se meu inventário de sentimentos, percepções e lembranças fosse cada vez mais rico e ao mesmo tempo pobre. É rico, pela quantidade de coisas que já fiz e de pessoas que já conheci. E pobre, pois parece que quanto mais o tempo passa as lembranças vão ficando sem cor e sem detalhes, como se eu tivesse um álbum de fotos que se esfarelasse diariamente. Como se fosse um punhado de areia fina que eu sempre tentasse guardar, mas que escapa por entre os dedos.
Em muitos momentos me acho um tanto incompleto, alguém com presente futuro, mas com um passado pela metade. É difícil dimensionar exatamente o que se sente ao tentar recordar, mesmo que seja apenas um traço físico de alguém e não conseguir. O que eu tenho é um passado sem rosto, no qual as lembranças se misturam umas com as outras.
Nunca consigo guardar por muito tempo as expressões, os semblantes e diversos detalhes das pessoas que passam pela minha vida. Como eu sempre digo, “o que os olhos não vêem o coração também sente”, é por isso que o passado pode apagar os rostos, mas sempre manterá acesa a chama de uma sincera saudade.

Pensando com meus botões

Há os que só pensam
Há os que só tentam.
Há os que só fazem.
Eu sou dos que tentam fazer pensar!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Acessibilidade nos hotéis: hospede essa ideia


Eu sempre gostei muito de viajar, principalmente depois de adolescente quando pude passar a escolher para onde eu iria. Faço isso menos do que gostaria, devido ao tempo curto e às vezes por questões financeiras. Contudo, minhas incursões por terras nunda d'antes visitadas - pelo menos por mim - são cada vez maiores. Isso me causa muita alegria, e ao mesmo tempo tenho a necesidade de aumentar a minha dose de paciência. Afinal, muitas instalações como hotéis, bares e restaurantes ainda carecem muito de acessibilidade, o que me causa certos embaraços.
É sobre a falta de acessibilidade que eu pretendo falar, pois não creio que seja de interesse coletivo minhas aventuras turisticas pelos cantos do mundo. Quando a viagem é feita com alguma companhia as coisas ficam mais fáceis, já que aquela pessoa que está comigo pode ajudar a evitar algumas dificuldades com relação à acessibilidade. Mas as coisas pioram quando estou sozinho por alguma eventualidade ou por se tratar de uma viagem de trabalho, por exemplo. O assunto é sério e grave, e ainda nos causa dificuldade, mas muitas situações acabam sendo cômicas por serem trágicas - ou vice versa.
Vou contar duas delas antes de analisar a situação dos hoteis que já encontrei por esse Brasil afora.
Lembro da vez em que estava fazendo meu checkin e estava um tanto... apertado para usar o sanitário. Como todo o processo demorou muito, comecei a verificar onde eu poderia encontrar um desses ambientes no hall do hotel, e como os funcionários estavam ocupados eu não poderia contar com eles. Em um ato um tanto desesperado, vi que havia uma porta que para mim - o que não significa que de fato parecesse a todos - era semelhante a uma porta de banheiro. Entrei rápido pois a situação estava crítica, e em ato continuo fui já tomando "providencias iniciais" quando derepente percebi que entrei na cozinha e não no banheiro. Fui veloz em contornar o fato e solicitar que me indicassem o wc, usado a tempo, felizmente.
Outra vez, estava no restaurante do hotel e como sempre faço, perguntei se havia cardápio em braile - eu sei que não há mas sempre pergunto -, eis que quando perguntei ao garçom ele sai sem que eu possa continuar a conversa. Retorna rapidamente com uma expressão de regozijo e felicidade:
- O senhor vai ser o primeiro a usar nosso cardápio em braile.
Com uma certa dose de surpresa e achando a situação engraçada, disse:
- Desculpe, não vou não. Eu não sei ler em braile, eu só perguntei se tinha o cardápio adaptado, não disse que eu queria usar...
Cheguei a ficar com pena do sujeito quando vi seu semblante de frustração, mas fazer o que, eu tenho baixa visão e se ele tivesse um cardápio com fontes ampliadas eu usaria. Acabei fazendo como sempre e pedindo uma A la minuta, afinal como a gente não consegue ler os cardápios sempre pede os pratos que são comuns e existem em todos os lugares.
Bem, eu devo dizer que na maioria dos hotéis em que estive os funcionários foram sempre solicitos. Mas, nem sempre a solidariedade e o bom tratamento resolvem as coisas. Eu tenho a mania de querer fazer tudo que for possível sozinho, e por mais tempo que eu leve para conseguir algo, pelo menos terei feito de modo autonomo. Então, acessibilidade não é apenas ter um funcionário que faça as coisas por mim, mas ser um local em que eu possa fazer tudo por conta própria sem precisar de auxilio extra estando ao sabor da boa vontade ou da disponibilidade de um colaborador do hotel.
Assim, sempre dispenso ajuda para encontrar o quarto onde eu devo me hospedar, mesmo que seja no 19º andar como já ocorreu. Por mais que as normas tecnicas (NBR9050) estabeçam regras de sinalização acessível, a maioria delas é ignorada pelos hotéis. As sinalizações nos andares são precárias com letras pequenas e tão fora do campo visual adequado e sem contraste, que se essas informações não estivessem ali daria no mesmo.
A iluminação nos andares são sempre mais fracas que o ideal, o que dificulta ainda mais a leitura de informações importantes. Encontrar o próprio quarto é uma aventura muitas vezes estressante, pois na imensa maioria, a numeração dos quartos são em tamanho muito pequeno e sem contraste, ou como dito antes em uma altura que torna impossível a leitura. Eu sempre tento achar sozinho até o último instante de paciência e até hoje eu nunca deixei de encontrar, por mais tempo que demorasse.
Entrando no quarto...
Os quartos são outras "pérolas" em termos de acessibilidade. Muitos deles são pequenos o que até facilita encontrar as coisas pois o universo espacial é menor. Contudo, a dificuldade é grande em conseguir achar uma tomada, travesseiros e cobertas, o controle da TV ou mesmo a própria TV. Quando há ar-condicionado então... nem tente ligar. Primeiro porque não há instruções claras, segundo que as letras são muito pequenas e se você não deseja ficar em uma sauna ou em um frigorifico, é melhor deixar quieto.
A luminosidade de TODOS os quartos em que me hospedei me fizeram sentir como se estivesse em uma boate, pois a maioria delas é fraca e não são com foco direto. Ou seja, para quem tem baixa visão a iluminação que é fator fundamental, torna-se uma das maiores dificuldades, pois a simples atividade de usar o computador ou ler algo torna-se uma tarefa epopéica. É um pouco complicado para mim que lido justamente com a leitura como minha ferramenta de travalho ficar esse tempo sem estudar. Gostaria tanto de encontrar quartos mais iluminados e que me ajudasse e não me atrapalhassem em tarefas simples mas fundamentais como usar meu notebook, por exemplo.
Outra dificuldade agravada pela situação relatada acima, são os folhetos, cardápios e folders disponibilizados pelos hotéis. Sejam materiais de boas-vindas, de instrução de funcionamento do estabelecimento, cardápio do room service ou informações turísticas, todas elas escritas com fontes pequenas e sem muito contraste.
Isso significa que na maioria das vezes nós ficamos sem as informações que poderiamos e que gostariamos de ter por falta de acessibilidade. Não creio que seja tão dificil disponibilizar exemplares dos materiais em braile ou em fontes ampliadas. Sempre pergunto se existem, mas em nenhum local consegui encontrar.
Como poderei saber os pontos turísticos, telefones úteis ou se no meio da madrugada der fome, o que eu posso pedir? Mais que isso, estando a trabalho, se tiver que lavar ou passar roupa no hotel, como proceder? quanto pagar? Como usar o telefone para ligar para casa ou sabe-se lá para onde?. Seja como for, estamos mal nesse quesito.
Apesár disso tudo eu continuo gostando de viajar, mesmo sabendo que a hospedagem é sempre uma aventura com grande dificuldade na acessibilidade. Eu continuarei tentando até que eu consiga encontrar um hotel plenamente acessível, ou mesmo ajudar a colocar a questão para reflexão de gestores e proprietarios desse tipo de estabelecimento. Por fim eu proporia aqui uma reflexão: imaginem se  um hotel investisse maciçamente em acessibilidade de todos os modos, talvez fosse um "gasto" grande no principio, mas... se pensado a longo prazo, usando os instrumentos midiáticos e divulgando às pessoas com deficiência que em tal cidade existe um hotel acessível, será que deixariam de se hospedar em um hotel como esse? Será que se pensassem nas pessoas com deficiência visual como um grande público consumidor a ser conquistado e fidelizado a acessibilidade não seria entendida como custo, mas como investimento? Eis perguntas que carecem de respostas.


 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

sem sentidos

Em conversa derradeira com o amor,
percebi que não tê-lo é minha sina.
Decidi encerrá-lo em âmgulo e perspectiva.
Jogá-lo em uma masmorra fria e escura,
Tenho pena desse amor que era errante.
Que quanto mais erra,
mais se torna brilhante.

Dar lições ao amor é atitude lunática.
Pouco se importa com idioma, história ou matemática.
Amor não se aprende e nem se ensina,
se vive.

De que me vale olhar nos olhos do amor se ele é cego?
Me obrigo a conquistá-lo pelos outros sentidos.
Uma completa insensatez!
Amor não tem sentido algum.

O amor vive num eterno retorno constante.
De retumbante sofrimento.
Amar é matar a si mesmo.







quarta-feira, 3 de abril de 2013

Aplausos

O teatro quase vem abaixo ao som dos aplausos.
E como nossa primeira homenageada, a aluna Ligia Assumpção Amaral, escolhida pelos seus colegas formandos como um dos três melhores companheiros da classe.
Saio do meu lugar, desço alguns degraus e estou frente a frente com o carinhoso Lourenção, professor de Filosofia do Eduardo Prado.As palmas ecoam nun crescente de timidas a entusiasmadas, resultando num vibrante e ensurdecedor aplauso.
Compenetrados, o professor e eu apertamo-nos as mãos, e dele recebo um livro.
Volto para minha cadeira com esse som maravilhoso acompanhando meu caminhar. Os colegas aplaudem também, e percebo  com muita intensidade quando vou em direção a eles.
Sinto-me orgulhosa, feliz e muito amada.
Assim eu me recordava de minha noite de formatura do curso clássico, noite em que recebi - além do certificado - um prêmio de amiga. Aíás, recebemos: eu o Ruy e o Zé Eduardo.
Hoje indo para a PUC, vinte e cinco anos depois, é como se escutasse novamente as palmas e - espanto - surgem de forma completamente nova.
É como se um clarão iluminasse com luz desconhecida minhas lembranças. Pois eis que me dou conta quem éramos os três escolhidos: eu, um anão e um negro.

(Ligia Assumpção Amaral. Resgatando o passado: deficiência coo figura e vida como fundo. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2004)
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Esta é só uma das brilhantes e reflexivas crônicas de Ligia Amaral. Uma escritora brilhante, uma pesquisadora que soube como poucos juntar literatura e pesquisa acadêmica. Sua escrita é um exemplo para muitos, inclusive para mim.
Não por Ligia ter sido uma pessoa com deficiência física que fez carreira academica, mas também por isso, sou admirador de sua trajetória.
Por meio de relatos de amigos, pela leitura atenta de seus textos e por um sexto sentido, me sinto um pouco discipulo de Ligia no modo de escever, no modo de ser pesquisador com deficiência, e tambem do seu modo de agir provocador.
Toda vez que leio seus textos aprendo um pouco, por mais que já tenha lido dezenas de vezes.
Nunca a conheci pessoalmente, pois ela se foi antes de eu começar a trabalhar nessa área. Mesmo assim, sempre quis fazer uma homenagem a essa grande autora que sempre me inspira. Por isso transcrevi uma de suas crônicas, pois não há maior homenagem a um autor do que divulgar o seu trabalho com carinho e admiração, pois enquanto sua obra estiver viva, ela também estará!