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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Literatura e a liberdade cintilante.

As pessoas que me conhecem um pouco sabem o quanto eu gosto de literatura. Desde criança sempre li o quanto pude - e às vezes o que não  pude.  Depois da adolescência, cego de um olho e com catarata severa em outro, ainda assim segui sendo amante da leitura, mas jamais consegui ler na mesma velocidade e as mesmas quantidades de obras que eu gostaria ou poderia ler se enxergasse.
Depois vieram os compromissos profissionais, os livros, artigos e outros textos para estudos, e o espaço da literatura na minha vida foi diminuindo. Isso porque, além da falta de tempo meus olhos cansavam muito rapidamente e eu pouco conseguia aproveitar com conforto aquilo que lia. Não que me impeça completamente, mas dificulta consideravelmente.
Não foi fácil admitir que eu estava perdendo tantas e tantas obras sensacionais por ler mais lentamente, por enxergar menos do que o necessário para usar o papel. Mesmo com a lupa, com luz adequada, ainda assim eu demoro mais tempo, e se isso acontece, são menos obras que posso conhecer.
Se buscasse adaptar os livros para as especificações de fonte e tamanho que consigo ler em tinta, o tempo para que fique pronto é tão grande, que a espera parece interminável. O peso e o volume do que eu carregava era tão grande que era preciso uma logística toda especial, muitas dores nas costas tive por causa disso.
Mesmo o amor pela literatura não foi suficiente para que eu continuasse a ler uma quantidade considerável de obras devido a todas essas dificuldades que apareciam. Aos poucos, fui deixando tudo isso de lado, e me resignando a uma meiz dúzia de livros por ano, sabendo que outras centenas de títulos fantásticos estavam à minha espera, mas eu não poderia tê-los completamente ou de uma forma que pudesse aproveitá-los.
Já conhecia os leitores de tela, mas sempre achei que as vozes eram ruins no computador, e que dificilmente eu iria me adaptar. Logicamente, se eu fosse cego me acostumaria logo com as possibilidades que me fossem fornecidas. Resistia um pouco à ideia de usar os softwares ledores, pelo motivo prático e pelo fato de achar que sozinho minha visãomesmo muito ruim daria conta de ler em tinta.
Quando eu conheci a Fabiana e começamos a namorar, eu me encantei por um milhão de coisas nela, como o conhecimento e o amor pela leitura - até nisso somos almas afins. Acho que lendo em tinta, nem que eu passasse o resto da minha vida apenas lendo conseguiria ler a quantidade de livros que ela leu e releu, mais um fator que me faz admirá-la 
Em nosso convívio diário ela foi me mostrando que havia possibilidades para que eu conseguisse ler com sintetizadores de voz com um mínimo de perda de conforto. Depois de uns meses eu consegui adquirir um Iphone - com as seguidas insistências e incentivos da Fabi. Suas dicas foram e são muito preciosas para mim, agora eu consigo ouvir os livros mais rápido, estou ainda em fase de adaptação, mas já consigo me sentir livre para saber que poderei acessar quantas obras eu puder, em quantidade de tempo infinitamente menor. Poderei levar os livros para onde eu quiser, sem um peso muito grande a ser carregado.
Hoje, me sinto  duplamente livre. Primeiro por saber que estou de volta ao mundo da literatura, que eu imaginava já estar perdido. É como se a Fabiana tivesse me tomado pela mão e me guiado de volta à um paraíso de onde eu nunca devia ter saído. Agora eu sei que tenho novamente um universo de lugares, de acontecimentos, de histórias... 
Se isso já não fosse muito, também me sinto livre na medida em que eu admito que usar os auxílios dos softwares ledores me cansam menos os olhos, que eu devo usá-los como apoio, que quiçá, um dia serão uma das únicas formas de acessar os livros. Ter noção das limitações que tenho, por mais paradoxal que pareça, me faz sentir menos limitado e mais livre de certas amarras. 
Não acho que já esteja enxergando menos, embora saiba que isso um dia vai acontecer, mas eu consigo usar melhor meu tempo com a agilidade dos leitores de voz, otimizo o uso da visão, o que me causa menos cansaço físico e mental. Tudo isso tem implicações físicas evidentes, e emocionais também, pois ao contrário de alguns anos atrás hoje eu não preciso e nem quero mais fingir que não preciso de bengala ou de um leitor de tela para certas atividades.
Escrevo tudo isso até aqui para agradecer de todo meu coração à Fabiana, que além da pessoa mais importante na minha vida, tem me libertado cada dia mais de coisas que me deixavam angustiado e receoso. Obrigado por tudo e, principalmente, por me ajudar a encontrar os caminhos certos, a vencer as lutas diárias e a ser cada dia mais livre dos meus medos, inseguranças e pronto para viver um mundo repleto de possibilidades cintilantes.