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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Esmola" zero

Todos nós temos papeis individuais e coletivos a cumprir na sociedade, e como seres que vivem em comunidade, temos também responsabilidades perante os grupos a que pertencemos. Isso fica acentuado quando fazemos parte de uma minoria social, onde na maioria das vezes o comportamento de uma pessoa ou de uma entidade que representa essa parcela da população passa a representar um estereótipo ou a manutenção do mesmo.
Dentre tantos casos das chamadas minorias, me detenho aqui na das pessoas com deficiência visual, que é aquela na qual estou imerso. Não que eu não participe de outras, mas essa me toma de arrasto desde que nasci, e tenho conhecimento relevante para falar do tema. Não sei se o que irei tratar aqui se passa nos demais casos, mas o fato é que estou situando bem de onde falo e d=a qual contexto me refiro.
Muitos estereótipos são construidos a partir de uma percepção generalista equivocada sobre as pessoas com deficiência visual. Se você encontrar um cego bem humorado na rua, saiba que nem todos são assim, se trabalhar com uma pessoa com baixa visão qualificada, nem todas serão iguais. Cada pessoa tem seus próprios modos de ser e de agir, e não há ninguém exatamente do mesmo jeito, e por isso, dizer que "os deficientes visuais" agem da mesma maneira é um erro de origem.
Por muito tempo, as pessoas com deficiência tiveram como única alternativa de sobrevivência pedir esmolas nas ruas, pois a sociedade não proporcionava nada melhor, na medida em que fazia o possível para excluí-las da vida social. Num segundo momento, as doutrinas religiosas passaram a fazer da ajuda aos "deficientes" uma forma de alcançar o céu. Em ambos os casos, ficou cristalizada a ideia de assistencialismo e benevolência para com esses sujeitos.
Os séculos se passaram, a sociedade teve inúmeras transformações, mas como é comum ocorrer, certas práticas ainda continuam sendo corriqueiras, ainda que parecendo ultrapassadas. Temos políticas de inclusão consistentes, e ainda que não sejam as ideais, aumentaram o poder de renda das pessoas com deficiência, permitindo que grande parte delas alcance um poder aquisitivo que não possuíam outrora. É óbvio que muito ainda precisa ser feito para atingirmos o que é de direito para todos esses indivíduos, e para isso devemos nos mobilizar.
Por outro lado, é cada vez mais importante o papel que cada um de nós com deficiência visual tem com nossas atitudes. Temos que reivindicar nossos direitos seja numa sala de cinema sem audiodescrição ou em debates institucionais sobre políticas que nos proporcione direitos. No entanto, tais ações tomadas individualmente ainda não tem o mesmo peso do que aquelas tidas como coletivas, que tem maior exposição e circulam com maior facilidade.
Os movimentos sociais e entidades representativas das pessoas com deficiência visual ainda representam  - ou deveriam - a maioria das reivindicações de necessidades e parâmetros que se deve ter com relação a essas pessoas. muitas das mudanças para melhor com relação ao modo como os videntes nos percebem, na conquistas de direitos que temos conseguido e de outros pelos quais temos lutado têm grande influência dessas associações representativas. Todavia,temos também o Onus de que se uma instituição como essa age de uma determinada forma, ainda se pensa que esse é o pensamento de todos nós.
O que me preocupa nisso tudo, sendo o cerne dessa reflexão, é que muitas associações ainda agem como se estivessem no século passado, na contramão da história. Tenho conhecimento de alguns casos em que instituições pedem dinheiro para manter-se. Não julgo a necessidade e nem o mérito, mas os efeitos que isso causa. Fica evidente a manutenção da ideia assistencialista de "pedir uma esmola para o cego", o que sem dúvidas ainda é um estereótipo que nos afeta, causando embaraço e diversas dificuldades na tentativa de demonstrar que precisamos de oportunidade e não de caridade.
Talvez isso se deva por falta de criatividade ou mesmo incompetência daqueles que gerenciam a entidade que faz esse pedido, mas não posso julgar casos específicos, pois falo de modo geral. O que eu sei, é que essa atitude de pedir dinheiro é mais problemática do que o caminho para uma solução, se pensarmos a longo prazo, que pode salvar a saúde financeira de determinada entidade, mas põe em xeque todas as conquistas que tivemos até aqui, na medida em que reforça os estigmas já existentes.
No que me diz respeito, sei das dificuldades que uma parcela importante das pessoas com deficiência ainda tem para sua subsistência, bem como das peculiaridades da vida d cada um. Contudo, me irrita muito notar que o esforço que muitos de nós cegos e baixa visão fazemos para desconstruir a imagem de comiseração é colocada por "água abaixo" diante dessas campanhas de "esmolagem". 
Lutamos constantemente para provar que temos capacidade, que se nos forem dadas as condições somos competentes e podemos atingir os objetivos por nossos méritos e sem ajudas assistencialistas. Ao mesmo tempo, vemos que movimentos que deveriam incentivar essa consolidação da autonomia, preferem acentuar a sensação de dependência de outrem. Atos e instituições como essas não me representam,para usar um jargão atual. O que me deixa certa esperança, é que esses modos de gerir são feitos por pessoas, e essas pessoas um dia passam e as entidades ficam, de modo que tenho certeza que em algum momento dias melhores virão. Ainda assim, os efeitos causados podem ser dificeis de reparar.
Seja como for, simplesmente agir como séculos atrás e "pedir dinheiro" é um retrocesso, embora seja o trajeto "mais fácil". Porém, nós cegos e com baixa visão sabemos que nem sempre o caminho mais curto é o mais seguro, pois podem estar repletos de obstáculos que nos impedem de chegar ao destino sem problemas. Enquanto rumar pelo trajeto mais seguro, ainda que mais leve mais tempo e dispensa mais energia, certamente nos proporciona bem mais benefícios, com passos que nos farão avançar mais consistentemente. Basta usar dos conhecimentos de orientação e mobilidade e de um pouco de sabedoria para perceber isso. 
Enfim, espero que com o passar do tempo nossos movimentos sociais tenham pessoas bem intencionadas e que tenham competências e habilidades necessárias para levar adiante nossas lutas. Que não se queira tomar o poder apenas pelo regozijo que o mesmo proporciona à alguns. Que ao invés de reforçar, possamos ter a capacidade de dissolver estereótipos e estigmas que só atravancam o  nosso caminho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Eu não sou (só) um guerreiro



Seguidamente tenho visto muitas pessoas com deficiência se destacando em seus campos de estudo e/ou de trabalho. Isso é bom por demonstrar que estamos alcançando patamares que eram muito difíceis até poucas décadas atrás. Um fator que também explica esse aumento da circulação dessas histórias de vida são as redes sociais e a divulgação que a mesma pode fomentar.
No entanto, tenho percebido que nos comentários sobre esses casos de “sucesso”, há algo que tem me incomodado de uma maneira cada vez maior. Sem duvidar das boas intenções das pessoas que fazem certos comentários, incomoda ler a frase “você é um guerreiro”. Sei que há alguns amigos que compartilham dessa mesma insatisfação, já que essa frase e seus derivados trazem consigo uma série de estigmas e de inferiorizações que na maioria dos casos, quem diz nem percebe.
Com a emergência dos “casos de sucesso” de pessoas com deficiência tem se tornado comum o “discurso da superação”, onde qualquer coisa que façamos é porque superamos todas as nossas dificuldades para alcançarmos nossos objetivos. É preciso deixar claro que só supera-se aquele de quem se tem baixíssimas expectativas. Como sempre digo, nunca usarei o “discurso da superação”, pois sempre espero o máximo das pessoas, sejam quem elas forem, dentro das circunstancias em que vivem.
É evidente que temos muitas limitações, que a sociedade nos impõe dificuldades para atingirmos nossos desejos pessoais e profissionais. As dificuldades que temos são sim maiores que a dos demais, e isso não se pode negar. Ressalvando, contudo, que isso é culpa da sociedade em que vivemos, por ainda ser resistente a aplicar medidas que tornem a sociedade mais acessível.
Todavia, essas limitações que nos são impostas não são suficientes para me fazer aceitar o discurso de que somos vencedores apenas por termos perseverança. Vencer ou não as dificuldades que a vida nos impõe, não é uma questão de vontade, mas de circunstâncias e de oportunidades que recebemos. Se fosse assim, a maioria das pessoas com deficiência poderiam ser consideradas derrotadas e indolentes, oque não é o caso.
É muito desonesto, citar o caso de meia dúzia de pessoas com deficiência que são bem sucedidas, e usá-las para legitimar as atuais políticas de inclusão. Sabemos que essa não é a realidade da maioria das pessoas desse grupo, que ainda sofrem com a falta de acessibilidade e de estrutura para atingirem o patamar que seu potencial lhes permitiria alcançar.
Dizer que eu sou um “guerreiro” por ter tido determinada conquista é afirmar que os que vivem na mesma condição que eu não o são. Afinal, seguindo essa linha de raciocínio, basta desejar que podemos fazer acontecer, não sendo necessárias as condições adequadas para o desenvolvimento desses sujeitos. Pensar assim, além de equivocado, é injusto com tantas e tantas pessoas que tem potencial, mas carecem de meios para demonstrar isso. Essa é a lógica cruel da “meritocracia”, ver apenas o resultado e desconsiderar o resto, que é o mais importante.
Por outro lado, ser perseverante é uma característica que possuo, mas nem todas as pessoas são assim, e isso deve ser respeitado. Isso está no âmbito de minha personalidade – e de muitas outras pessoas – e não dos atributos fundamentais que todas as pessoas devem ter, pois se muita gente ainda não se deu conta, uma pessoa é diferente da outra.
Mais que isso, também me causa muita insatisfação quando me chamam de “guerreiro” pelo fato de que se conquistei algo é, sobretudo, pelas qualidades que tenho e por ter aproveitado as oportunidades que me foram proporcionadas. Tudo que tenho conseguido é fruto do que construí, dos conhecimentos que adquiri, do auxilio das pessoas que me cercam e outras situações, onde a perseverança é secundária.
É sempre muito incomodo viver em um mundo onde se tenho “fracassos” são atenuados e relevados por causa da deficiência, e se tenho “sucesso” isso ocorre apesar da deficiência. Dificilmente a maioria das pessoas avalia meu trabalho e minhas atitudes tomando como base quem eu sou, com todas as circunstâncias que me cercam. A deficiência será sempre protagonista e maior responsável por tudo que me acontece, quando isso não é verdade.
Isso significa estar toda a vida encarcerado pelos estigmas e pelos estereótipos da inferiorização. Não sou guerreiro, sou alguém com qualidades e defeitos, que busca melhorar a cada dia, e que acima de tudo ama o que faz e a vida que leva. Somos muito mais do que só lutadores. A deficiência é parte da gente, e não o contrário. Temos qualidades, e é por elas que sempre desejaremos ser conhecidos e avaliados.