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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

imagine e faça: Construindo o protagonismo do diferente

Imagine o dia em que todos sejam protagonistas e não platéia. Imagine o instante em que todos tenham sua diferença compartilhada e não apenas tolerada. Imagine o dia em que a diversidade dê lugar ao direito à diferença. Pois bem, imaginou? Então, que tal começarmos a parar de imaginar e fazer acontecer?
Assisti a um vídeo do seriado Glee (mais informações o Google responde), no qual os alunos do coral, cada qual com sua diferença da (utópica) normalidade cantam a música Imagine, do Jonh Lennon. É uma mensagem bem legal de fim de ano, de começo ou de meio de ano também, não importa o tempo. O que vale é perceber no vídeo o quão simples pode ser o compartilhar com o diferente.
É interessante notar também, que todos os “diferentes” do seriado estão no palco, protagonizando a cena. Isso reforça uma ideia que só de pensar me emociona e me motiva que é a do protagonismo do diferente, no qual não sejamos apenas aqueles que esperam as coisas acontecerem, nem sejam os que simplesmente assistem, mas sim, participam ativamente do processo.
Precisamos ser lembrados e chamados a participar, fazer parte dos planos principais das cenas da vida. Imaginar que todos estejam juntos é importante, mas pensar que nessa união não exista alguém superior ou inferior é ainda mais frutífero. Durante muito tempo os sujeitos com deficiência foram escondidos pelas suas famílias. Atualmente, esse processo começa a mudar, ainda que estejamos num momento em que a sociedade parece querer a todo momento “incluir por estar fazendo um favor”, quando na verdade este é um direito adquirido através de muita luta e do sofrimento de tanta gente que morreu esquecida num canto só por não enxergar, caminhar ou pensar como todos.
No entanto, acho que temos evoluído a passos largos nesse sentido, embora esteja a léguas do ideal. Porém, conquistar o direito a protagonismo social é mais fácil do que exercer este direito. Digo isso, porque existem diversas iniciativas no sentido de promover o acesso cultural, educacional, social e econômico de pessoas com deficiência, mas muitos desses sujeitos ainda relutam em participar e marcar sua posição no mundo.
Tão importante quanto protestar é agir. Pedir direitos é fácil, o difícil é correr atrás deles, ir aos eventos, exigir audiodescrição, rampas adequadas, cardápio em braile ou ônibus adaptados. Ninguém vai bater na campainha do meu apartamento e perguntar que recurso de acessibilidade ou especificidade me contempla,
Então, por mais que os locais não estejam preparados é preciso ir, reclamar, fazer barulho, prestigiar as boas iniciativas e eventos sobre e com essas tematicas. Exercer o direito a diferença requer esforço e uma dose grande de sacrifício de cada um de nós. E que por mais alto que seja o preço, sempre será recompensador diante dos bafejos de liberdade e autonomia.
Acho lindo o vídeo e ainda mais bela a canção do Lennon, mas sempre fui um sujeito de ações e não de imaginações. Mais do que imaginar, é preciso botar o bloco na rua e fazer acontecer. Eu imagino um mundo no qual o considerado diferente não necessite pedir permissão pra existir, mas além de imaginar, eu corro atrás.
Portanto, nesse porvir de um novo ano espero que sejamos não platéia, mas protagonistas. Que possamos fazer, e não só imaginar. Desejando que o prazer de ser diferente invada a alma de cada um de nós. Dizem que mudar o mundo é querer derrubar um muro com uma colherinha de sobremesa. Se assim for, eu sou o primeiro a começar a raspar o muro com tal utensílio. Posso demorar décadas, posso até não conseguir derrubar tudo, mas que eu irei conseguir provocar fendas nos muros das certezas, disso não tenho a menor dúvida. Como diz o poeta, um sonho que se sonha só, é só um sonho. Assim, deixemos de sonhar e passemos a agir.
Abaixo o link para assistir ao video referido nesta postagem:

domingo, 18 de dezembro de 2011

À melhor orientadora do mundo

É muito comum nessas épocas de final de ano nos pormos a pensar sobre nossas vidas, sobre as limitações, possibilidades e surpresas que nos reserva. Ainda assim, sou um tanto cético para crer em destino, sorte, azar ou algo do gênero. Prefiro atribuir o sucesso a outras características como esforço, competência, conhecimento, comprometimento e humildade. Há algum tempo atrás, também não acreditava que apenas uma pessoa poderia fazer toda diferença na trajetória de vida de outros sujeitos. Mas a cerca de 4 anos mudei de ideia com relação a este ponto.
Em 2007, retornei à universidade depois de um período difícil, do qual emanou um profundo desejo de estudar questões relativas à deficiência visual, e suas implicações culturais, não mais clínicas como é o normal. Porém, não sabia muito bem como e nem com quem estudar sobre essa temática.
Então, em meu primeiro dia de aula, coincidentemente comecei uma disciplina com uma professora que estreava na UFRGS. Desde o principio simpatizei com ela e no fim da aula já fui conversar – e enche-la de perguntas e pedidos de bibliografia – sobre o que eu pretendia estudar com o objetivo de chegar ao mestrado. Isso porque, Lodenir trabalhava questões semelhantes ao que eu imaginava, mas, ao invés de deficiência visual, pesquisava sobre surdez. Esse encontro mudaria a minha vida para muitíssimo melhor, mesmo que naquela época eu ainda nem imaginasse isso.
Aos poucos, fiz as leituras, estudei bastante e continuei em contato com a professora Lodenir até fazer o processo seletivo para o Mestrado em Educação. Aprovado que fui, tornei-me orientando da excelentíssima professora Lodenir Karnopp. Dali em diante passei a viver os melhores dias da minha vida – que duram até hoje. De minha orientadora, passou a ser cada dia mais uma amiga muito querida, dedicada e com quem aprendo cotidianamente.
O mundo de coisas que aprendi e de ideias que cultivei, me permitiram participar e ser aprovado mo processo seletivo para o doutorado, também orientado pela minha amiga/orientadora/professora. Graças aos seus ensinamentos, exigências de produtividade e qualidade me forjei como um bom pesquisador – creio eu.
Atualmente, está realizando seu pós-doc nos EUA, e não há um dia que eu não sinta saudades e que não me recorde da imensidão de coisas que com ela aprendi, como entender a pesquisa como um trabalho muito mais de transpiração que de inspiração, de ter consistência teórica e estar sempre corrigindo os erros e aprimorando as qualidades.
Além de ensinar a escrever, ler e fazer, creio que o grande diferencial da Lodenir é ensinar a todos a sua volta como SER. Seu comportamento ético, sereno, e de uma generosidade imensa.Me acho um privilegiado, pois é raríssimo de se ter um chefe tão bom assim, e de considerá-lo como se fosse da própria família.
Por isso, só me resta agradecer a ela por tudo que tenho vivido. Pois como diz uma música da Cidadão Quem: Se alguém já te deu a mão e não pediu mais nada em troca/ Pense bem, hoje é um dia especial. Pois desde que a conheci, todos os meus dias tem sido especiais.
Obrigado por me ensinar a ser uma pessoa e um pesquisador melhor. Obrigado por me proporcionar ter o que hoje tenho
. Obrigado pelas criticas que me fizeram crescer e pelos elogios que fizeram as horas de sono perdidas valerem a pena. Obrigado pelo apoio nos momentos mais doidos e pelos sorrisos matutinos. É de e pessoas como tu que nosso mundão precisa. Levarei sempre um pedaço de ti para toda vida, afinal, a orientação e o doutorado acabam, mas admiração e a amizade permanecem. Enfim, numa época em que todos pedem, eu apenas te agradeço por tudo que fizeste por mim e que me ensinaste, muito obrigado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Natal sem luz

Nunca fui um dos sujeitos mais entusiasmados com festas natalinas o dos famosos (in)amigos secretos. Sempre me sinto um tanto deslocado nesses lugares, sem saber o que dizer ou como agir. Porém, ano passado, em uma dessas ocasiões me senti plenamente a vontade, afinal, em locais escuros os cegos é que são os guias.
Participei de uma bela festa de fim de ano organizada pela querida amiga e professora Adriana Thoma, recebendo a todos com seu costumeiro afeto. Mas, havia um pequeno contratempo, afetando a recepção aos demais convidados, a organização do ambiente e a conservação dos alimentos e bebidas. Naquele momento, o bairro inteiro estava sem energia elétrica.
Enquanto isso, o tempo passava e o sol se despedia à francesa, ao mesmo tempo em que a lua chegava brilhante e cheia de si. Todos foram para fora do recinto ver se ao menos o luar conseguia iluminá-los, ainda que não estivesse adiantando de nada.
Os convidados ajudavam a procurar lanternas, velas, isqueiros ou qualquer outra quinquilharia que emanasse um pouco de luz. Definitivamente, muitas pessoas precisam mais de energia elétrica do que de oxigênio. Já os sujeitos com deficiência visual não sucumbem à luz do mesmo modo que Ulisses não se deixou levar pelo canto da sereia.
Porém, é preciso dizer que muitos dos convidados eram surdos, para quem a questão da visualidade e fundamental. Para eles, o fato de estarmos sem luz ocasionava certa dificuldade na comunicação em língua de sinais. Cabe lembrar que para eles aquele também poderia ser um momento de celebração, já que durante muito tempo, enquanto as línguas de sinais eram proibidas, a única forma de disseminar a cultura dos surdos ocorria nos quartos dos Institutos para surdos, onde à Liz de velas, mantinham acesa a chama da cultura surda.
Diante de todo esse quadro, creio que eu era o único que se sentia a vontade sem luz. Como cheguei ainda no horário de trabalho do sol, tive tempo de decorar a configuração do ambiente, onde ficavam as portas, mesas, cadeiras, sanitários e claro, onde estava a cerveja. Eu e minha baixa visão desfilávamos com desenvoltura pelo salão. Minhas mãos,ouvidos e memória fizeram um excelente trabalho naquele dia.
Aconteceu inclusive, uma situação pitoresca e irônica, em que algumas pessoas pediam para que eu as guiasse até os locais onde desejavam ir. Ou seja, se para todos foi uma situação embaraçosa, para mim foi uma noite agradável e divertida, pois me senti muito bem acolhido.
Quando a energia elétrica retornou, não nego ter sentido uma certa frustração. Assim, por mais que o Natal Luz faça sucesso, a minha festa de natal inesquecível foi exatamente aquela em que a própria Adriana denominou de Natal sem luz.
Não estou dizendo com isso que as pessoas com deficiência visual vivam nas trevas ou que prescindam das cores. O que digo é que não dependemos das imagens nem das cores para sentir o mundo.
Então, ter deficiência visual é libertador, por podermos utilizar de todos os outros sentidos para vivenciar e experimentar sensações que a vida nos proporciona para além da visualidade. Na contramão do usual e do tido como normal, Jorge Luis Borges diz que a cegueira é um dom, para poucos privilegiados.
Enfim, toda vez que me recordo daquele natal sem luz meu coração fica aos pulos. Ao invés das luzes artificiais seria bem melhor fazermos e deixarmos brilhar a luz que há dentro de cada um de nós. Muitos dos que tem deficiência visual veem mais o brilho das almas do que dos pinheirinhos, percebem a verdadeira luz muito mais do que aqueles que estejam presos à singeleza daquilo que enxergam.
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Felipe Leão Mianes

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Amigos "mesmo": cultivando relações

Dizem que a nossa sociedade está cada vez mais rápida, e que tudo acontece em uma velocidade que torna muitas sensações e relações quase imperceptíveis. Esse turbilhão, muitas vezes pasteuriza as relações e confunde as emoções. Como dizer quem é de fato nosso amigo e não um colega de trabalho ou alguém que adicionemos nas redes sociais e fiquem ali classificados como tal. Afinal, amizades não estão à venda em supermercados nem se dão por geração espontânea da noite para o dia.
Creio que amizades necessitam ser semeadas, cuidadas com carinho e zelo. É preciso tempo e dedicação para estabelecer relações para além da superficialidade, que sejam cotidianamente maturadas. Tal qual vinhos, elas vão se tornando melhores com o tempo. Cultivar um amigo é processo continuo e que demanda esforço. Então, não se ganha um amigo por chamá-lo assim, ou por adicionar um sujeito aos seus contatos de facebook, por exemplo.
Algum tempo atrás ouvi por ai um modo interessante de “classificar” no nível de relações com as pessoas. Segundo o critério que me foi apontado, se dividem em: conhecidos, amigos e amigos “mesmo”. Claro que podem existir variações entre esses tipos, mas mantenho-me apenas nesses três.
Os conhecidos são a maioria das pessoas com quem convivemos diariamente, ou seja, relações de trabalho que não chegam a configurar amizades, relações cotidianas de “conhecer de vista” (essa no meu caso não se aplica, afinal, eu não posso conhecer alguém de vista). Essas pessoas são as que raramente encontramos, ou encontramos diariamente e não temos tempo ou vontade de estabelecer um vinculo amistoso.
Enquanto isso, os amigos são a maior parte dos sujeitos que participam de nossas vidas (pelo menos para os que não são malas e que as pessoas não gostam de conviver). São os colegas de trabalho com quem temos alguma afinidade. Podem ser também, aqueles que desejamos conhecer melhor mas não temos oportunidades. Ou ainda, pessoas que convivemos durante algum tempo, que temos afinidades mas que não construímos vínculos maiores e se perdem pelos caminhos da vida. Contudo, um amigo pode se tornar com o tempo um amigo “mesmo”
E há os amigos “mesmo”. Esses sim são os mais raros, porém, os melhores amigos que se pode ter. Essas pessoas foram aquelas que passaram pelos dois estágios acima citados e continuaram gerando tanto interesse e afeto que se tornaram de fato amigos para todas as horas.
Amizades como essas são exceções, pois via de regra, são construídas aos poucos, com açúcar e com afeto. São aquelas que marcam as nossas vidas para sempre, subvertendo tempo e distância. Esses são aqueles que nos momentos de dor estão conosco, e não apenas na bonança. Os amigos “mesmo” podem passar uma vida toda sem se reencontrar, e mesmo assim, se gostam como se para eles o tempo não tivesse passado. Enfim, são amigos que ficam gravados para todo sempre em nossos corações.
Sou uma pessoa de relativa sorte nesse sentido por ter amigos “mesmo”. Há poucos meses, fiz uma postagem mencionando alguns desses amigos (que nem são tantos assim) e sinto necessidade de homenagear outras três pessoas que foram fundamentais para me ajudar em um dos momentos mais difíceis da minha vida.
Começo falando da Janete Muller, minha “maninha”, colega de orientação e uma pessoa fantástica com quem tenho o prazer de partilhar amizade e parceria acadêmica. Mesmo morando um pouco longe, tenho certeza de que nossa amizade será para todo sempre, pois construímos uma ótima relação e um afeto grande. Digo que ela é minha irmã, por quem eu zelo e luto para vê-la bem. Saibas que essas linhas são pequenas pra dizer tudo, mas fica aqui meu carinho e admiração.
Quero falar também da Mariana Baierle Soares, minha companheira de baixa visão e uma pessoa genial que conheci melhor esse semestre. Construímos aos poucos uma bela relação de amizade sólida, e que persistirá por longa data. Além de ceguinhos, temos em comum o bom humor e os comentários sarcásticos e irônicos. Além do que, é uma baita jornalista e escritora (vale acessar o: http://www.tresgotinhas.wordpress.com). É uma grande parceira de trabalho e amiga de trovas e tragos, com quem sempre aprendo e espero continuar sempre sendo amigo “mesmo”.
Portanto, posso dizer que essas duas pessoas e algumas outras são o maior valor que possuo, e que a sensação de afeto e forte amizade foi semeada com muito tempo e dedicação. Enfim, pode ser demorado e trabalhoso, mas nada se compara a beleza de se ter amigos - “para sempre” -“mesmo”.