Google+ Followers

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Pelo direito de reagir

Um dos fatos mais comentados dos últimos dias foi a cusparada dada pelo deputado Jean Wyllys no fascista e desprezível Jair Bolsonaro. Muitas pessoas saíram em defesa do legislador que defende torturadores, mas nenhum deles manifestou-se quando veio ao ar o vídeo que mostra o filho de jair cuspindo em Wyllys. Qual o motivo de condenarem uma cusparada e abafarem outra? Eu mesmo respondo: Jean pertence a uma minoria, e minorias devem apanhar caladas.
Trouxe aqui um exemplo público para mostrar uma situação que as minorias costumam viver quando se atrevem a reagir quando sofrem uma agressão seja de que nível for. Eu poderia aqui citar negros,mulheres, refugiados, indígenas, pobres, homossexuais e outros, mas pretendo me centrar basicamente nas pessoas com deficiência que também passam por essa situação que pode ser considerada opressiva.
A maioria das pessoas cegas e com baixa visão que tem certa autonomia para sair às ruas passam diariamente por situações bem complicadas. Por vezes as pessoas nos agarram como se tivessem o direito de nos tocar ou segurar, sendo que não sabemos de quem se trata e isso causa sobressaltos. Outras vezes, perguntam: "você sabe para onde vai?", e vamos ouvir calados?
As pessoas nos param na rua fazendo as perguntas mais imbecis possíveis, se intrometem nas nossas vidas de maneira desnecessária e mexeriqueira, tentam dar palpites na maioria das vezes furados e absurdos. Muitas delas usam paravas que ferem até mesmo aqueles que são bem resolvidos quanto a sua deficiência, que humilham ou nos tratam com desdém, mas nos temos que ouvir calados?
Quando você é uma criança com deficiência e seus colegas são preconceituosos e demonstram toda discriminação ensinada pelos pais - as crianças nunca nascem com o preconceito dentro de si - através dos pequenos e grandes atos, ou quando os professores agem errado e não atendem as necessidades específicas dessas crianças prejudicando seu cotidiano, elas devem ouvir caladas?
Pois eu respondo a plenos pulmões a todas essas perguntas com apenas uma palavra: NÃO, N-Ã-O! É preciso reagir, e se possível com a mesma intensidade do ato proferido. Eu entendo que muitas pessoas tem comportamentos mais passivos - ou pacíficos, como queiram -, mas nós devemos ter o direito legitimo de reagir, e quem desejar que o exerça, claro, sem ultrapassar qualquer limite constitucional.
No entanto, o que eu vejo em muitas ocasiões é que pessoas sem deficiência tentam desqualificar nossas reações mais incisivas, na medida em que dizem que nós devemos entender que tudo é um processo, que não se devolve ignorância com ato semelhante ou que nós devemos ter paciência. Muitos afirmam que nós devemos entender isso e relevar, tomar atitudes afáveis e de aceitar o que o outro nos faz mesmo que seja ofensivo. Para mim, o nome disso é subserviência, e isso eu nunca terei.
As pessoas dizem isso por não viverem diariamente a mesma coisa dque nós, pedem paciência mas duvido que a teriam passada uma semana vivendo em nossa condição e com a hostilidade do mundo à sua volta. O que também noto, é que essa é uma maneira dos "normais" seguirem sua dominação sobre os "anormais", na medida em que não podemos nos revoltar nem reagir a qualquer provocação que nos é feita, somos seres inferiores e, portanto, não temos esse direito.
Ao controlar a ira das minorias, essa "maioria" segue sua dominação, seus processos de opressão e mantém com tranquilidade a hegemonia sobre nós, ao menos elas acham isso. Querem que sejamos dóceis, que não reclamemos de nada, que sejamos apáticos e sem reação alguma. Isso manteria a tranquilidade da sociedade harmônica que eles sonham em viver, na qual nós estamos sempre sendo entreves inconvenientes. E, se você acha que isso é mania de perseguição e que nós não deveríamos reagir assim, saiba que a maioria de nós se sente assim, oprimido, desde o momento que põe o nariz para fora de casa até a hora de voltar para ela.
Eu apoio plenamente todo tipo de protesto legalmente aceito, e até alguns moralmente duvidáveis dependendo do nível de transgressão, como a cusparada em Bolsonaro por exemplo. Sou favorável, incentivo e ajo sem abaixar minha cabeça e reajo a essas provocações. E se o preço a pagar for ser considerado antipático, bravo, revoltado, mal educado, que seja. Mas, eu jamais aceitarei que me discriminem, eu nunca compactuarei com preconceitos, humilhações e tentativas de me inferiorizar.
Quando nós reagimos, somos taxados de intolerantes, mas será que é isso ou reação à falta dela para conosco? Temos o direito de lutar, de retribuir na mesma moeda e de fazer com que nos tratem como merecemos. Durante séculos demos a outra face, e o que aconteceu? É muito bonito dar a outra face e usar frases de autoajuda quando o espezinhado não é você.
Por fim, não quero dizer que devamos ser sempre impacientes, mas saber reagir quando a provocação for além do limite. Também não estou dizendo que é uma luta de todas as minorias contra o resto da sociedade, é uma luta contra a parcela que tenta nos inferiorizar seja de que modo for. Estou aqui usando as leis da física em que uma ação gera reação de mesma intensidade no sentido contrário. Eu sempre respeito as pessoas, cumpro as leis, faço minha parte por um mundo melhor, e o mínimo que exijo é respeito, que não é um mérito, mas uma obrigação de todos.