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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ambientes culturais acessíveis, quem sabe um dia...

Acho interessante quando a gente reivindica acessibilidade nos lugares e as pessoas dão respostas simplórias como: "não tem como" ou "tens que entender que tudo é um processo" ou pior ainda "estamos fazendo o possível". Seria bom ouvir isso se não estivesse sendo repetido a mais de uma década.
A feira do Livro de Porto Alegre é um exemplo disso, não o único e nem o pior de todos. Desde pequeno frequentava a feira, numa época em que de fato valia a pena ir e comprar livros mais baratos e com grande variedade. Hoje com o advento das grandes livrarias venderem a preços mais baratos via internet e por outros fatores, a feira é mais um evento turistico do que de fato um local para se comprar livros. É mais um símbolo cultural da cidade e que de fato concentra debates interessantes nos eventos paralelos do que os livros em sí.
É fato que as discussões sobre a temática da deficiência passaram a ter espaço, sendo possível encontrar um estande com audiolivros e uma que outra programação voltada a essa questão. mas será que é de migalhas que precisamos? será que: melhor isso do que nada? Que me disculpem aqueles que acham que sim, mas me nego a concordar com isso. Reconheço que os livros e debates sobre o assunto são qualificados - ainda que se possa contar nos dedos de uma das mãos. Mas, o espaço é completamente inacessível, então, como ir até esses eventos?
É muito representativo o fato de se colocar a parte da "inclusão" na área infantil, num espaço minusculo e sem visibilidade, será que a postura de incluir pondo lá num canto que ninguém usa é mesmo uma inclusão de fato? E que não me venham dizer que não há espaço na praça pois, existem muitos estandes comerciais na parte central, e por mais que eles tenham pago por isso, acho que devemos lembrar que a feira é financiada em sua maior parte por incentivo fiscal e por recursos públicos, inclusive com a grana das pessoas com deficiência que pagam impostos como as demais.
Digo isso, porque fui à feira do livro no domingo, e como de costume, tive problemas em meu acesso aos livros e na circulação pelo espaço, já que existem muitos cabos segurando  as tendas, as informações estão em letra grande, mas a uma altura impossível de enxergar. Nos balcões de informações cada funcionário dizia uma coisa e eu rodava como um pião em busca do lugar que eu procurava. Não há material em fontes ampliadas - em braile eu nem perguntei.
Os frequentadores também tem sua parcela de culpa, pois vendo que haviam pessoas usando bengala e outra com baixa visão, não saiam do caminho, parecia que tinham atração magnetica pela bengala da amiga que estava comigo.
Mesmo assim, o piso é irregular, não há piso tátil no local, e ainda que se diga que é um local histórico, eu perguntaria: será que a gente não tem direito á acessibilidade em locais históricos? Ainda que aceitando esse argumento, porque não existem guias preparados para as pessoas com deficiência visual ou pessoas com mobilidade reduzida ou outra necessidade específica?
Acho que sou diferente da maioria das pessoas, talvvez porque eu viva nessa condição - que muito me orgulha - de pessoa com deficiência, mas não acho que acessibilidade seja um assunto a ser deixado para depois, ou que já que sempre foi assim, continuará sendo tudo inacessível ad eternum. Não é uma questão superflua ou um capricho, nem mesmo uma bondade, é um DIREITO CONSTITUCIONAL.
Muita gente ainda acha que tornar um ambiente acessível está sempre em segundo plano - não que esse seja o caso da feira do livro - e esquecem que nós somos consumidores, pessoas que tem direito a frerquentar com segurança e autonomia os ambientes culturais da cidade. Porque as pessoas se preocupam em plantar uma folhagem na Praça da Alfandega mais do que em colocar ali um piso tátil?
Enfim, eu teria muito a dizer sobre o assunto, e se o leitor acha que eu estou sendo acido em demasia, experimente bater com a testa em um daqueles cabos de aço para ver que a dor que eu sinto também é física.
Mas o que de fato me incomoda é que ao mesmo tempo em que se diz que a acessibilidade é prioridade, na prática ela é a prioridade menos prioritária de todas, e os espaços que nos são dados ainda são lá num cantinho. Sei que a caminhada é longa e que tudo é um processo, mas pergunta pra minha testa com um baita galo se ela entende isso... 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O eterno retorno da bondade

       Não me vejo como sendo um sujeito perfeito, muito pelo contrário, tenho limitações e defeitos como toda e qualquer pessoa, e isso faz parte da vida de cada um de nós. Nem mesmo me acho o ser mais bondoso da face da Terra, pois talvez eu pudesse fazer bem mais pelos outros do que eu acho que faço.
        Procuro fazer o bem para muitas pessoas porque isso me deixa feliz, sem esperar um retorno material ou mesmo uma gratidão por parte de quem eu ajudo, simplesmente faço porque eu acho certo. Se pensarmos que se cada um de nós apenas fizesse a sua parte para agir com gentileza, solidariedade e generosidade para com o outro, quem sabe não demoraria tanto para que o mundo fosse um lugar melhor. Não é discursinho de escoteiro, é sim a percepção de que quanto mais bem fazemos ao outro sem esperar retorno, mais a bondade nos procura, como um ciclo, uma corrente do bem, que nem mesmo a imensidão do mal pode arrebentar.
        Tenho duas grandes amigas que até meio sem querer consegui ajudar com gestos que eu entendia muito simples, quase uma obrigação de um amigo que se preze, que no fim culminaram com a alegria e com o sucesso dessas pessoas. Isso não me fez sentir em momento algum responsável pelo sucesso delas, ou que elas me devam algo em troca.  Às vezes fico pensando qual seria a graça de estar no mundo se não a sensação indescritível de partilhar alegrias e dificuldades com nossos amigos.
        Não sei exatamente por qual motivo, e nem pretendo entender, mas o fato é que quanto mais eu ajudo alguém de maneira descompromissada com gratidão ou esperando retorno, mais as coisas passam a dar certo pra mim. Minha carreira acadêmica como pesquisador permanece em curva ascendente e em processo de constante evolução. Meus trabalhos como audiodescritor são cada vez maiores em importância e em quantidade. Tenho recebido inesperados – e emocionantes – reconhecimentos pelo meu trabalho como revisor de audiodescrição por parte de pessoas que eu sou fã e que sempre admirei o trabalho e as atitudes pessoais.
        Se tudo isso é um retorno do pouco que eu faço eu não sei, mas sei que essa alegria que eu sinto todos os dias desde o momento em que me levanto é fruto da certeza de que estou indo na direção certa, que vale a pena fazer a minha parte para que alguém que eu goste tenha essa mesma sensação que eu. Se cada um de nós der um sopro de bondade, quem sabe tenhamos um vendaval da felicidade.

domingo, 14 de outubro de 2012

Não somos todos iguais, felizmente!

          Os discursos do politicamente correto aliado aos encantos pelo desejo de inclusão no sentido de normalizar a todos tanto quanto possível, tem produzido uma série de frases que as pessoas repetem como se fossem dogmas sobre os quais não cabe questionamento. Pois bem, eu que sempre busquei não me iludir com esse canto da sereia, me dou o direito de pôr em xeque certas práticas e discursos.
          Uma das principais características da inclusão, ou daqueles que a defendem do modo como até aqui está posta, é a tentativa de borrar, eu diria inclusive de apagar com toda e qualquer diferença. Primeiro, porque muitos ainda acreditam que todos devem ser normais, estando dentro de suas caixinhas de comportamentos, posturas e corpos dóceis. Para essas pessoas todos devem ser brancos, homens, heterossexuais, sem deficiência, católicos, infelizes... Ou seja, de acordo com esses discursos, seriamos todos como seres produzidos em série, sem direito a ter qualquer nuance de diferença.
          Pois eu continuarei sempre bradando que me nego a ser igual a quem quer que seja, prefiro ser eu mesmo, ressaltando minha diferença ao invés de escondê-la. Estou muito bem como estou, tenho baixa visão, e dai? Sou gremista, e dai? O que importa é que eu sou uma PESSOA antes de qualquer coisa, e isso é o que importa.
          Quando falamos em diferença ela não pode ser categorizada e nem aprisionada, muito menos se deixa aprisionar, a diferença simplesmente É. Cada um de nós tem subjetividades, características e traços singulares que nos tornam diferentes uns dos outros, e quanto mais tentam nos igualar, mas parecemos distintos.
          Dizer que todos somos iguais é apagar o que os seres humanos tem de mais precioso, que é a riqueza e pluralidade de viver em sociedades, cujo maior bem é a diversidade. Por isso mesmo, acho que quanto mais nos colocarmos na posição de sujeitos singulares, mais rica ficará nossa convivência e relação com o mundo. Muito sábias as palavras do sociólogo Boaventura Souza Santos: “Temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza”, embora eu ache que quando a diferença nos inferioriza o que devemos fazer é lutar para fortalecer o direito de ser diferente.
          Também não se trata de uma questão de aceitar ou tolerar o outro, mas sim de dividir e compartilhar com ele. Não gosto da ideia de “trocar” com o outro, pois se cada um de nós pensa de um jeito e trocarmos, simplesmente pensarei como o outro e ele como eu. Prefiro então, compartilhar, pois nesse caso, cada um de nós sairá enriquecido com a experiência do outro, levando um pouquinho de cada pessoa dentro da gente.
           Por fim, eu diria que não me vejo sendo igual a quem quer que seja, nem por um minuto. Quand    o falamos que todos devem ter oportunidades e direitos, falamos na palavra equidade, o que não significa o mesmo que igualdade. Por isso, não estou defendendo a diferenciação, mas sim a diferença.
          Por mais que a sociedade e a inclusão queiram nos tornar normais, sujeitos sem “defeitos” e perfeitamente alinhados ao convencional, por mais que desejem que sejamos uma massa sem cor e sem forma, acho difícil que isso seja alcançado.
          Então, sempre que ouvir a frase que ser diferente é normal, ou que todos somos iguais, pense antes de se deixar levar. Ser diferente não é normal ou especial, mas sim é a condição humana que nos faz assim. E todos serem iguais talvez não seja um bom caminho, afinal, ser igual nos torna tão insignificante quanto um grão de areia no deserto. Eu prefiro sempre SER DIFERENTE!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

des-ama-dor

Fui marcado com ferro em brasa
Pelo olhar gelado que me dispendia..
Nem sequer cinismo eu via.
Na tua rejeição que me queria.
Seria ilusão demais pensar.
Que além de ti, poderia alguém amar.

Só depois entendi o que te extasiava.
Me deixar na sádica corda-bamba do incerto.
Tua boca me mandava sair de perto.
Enquanto teus olhos me juravam amor eterno.

Fazias com eu que te amasse cada vez mais.
Usava como arma que me prendia.
Teu desprezo que me atraia.
Fizeste de mim um ama-dor platônico.

Não tenho remorso nem arrependimento.
Sempre te amei com os melhores sentimentos.
Muito tempo depois entendi tua indiferença;
Meu desespero te fazia sublimar.
Sabias como ninguém, des-amar.

Duvido que tenha encontrado.
Alguém que tanto carinho te tenha devotado.
Encontrei o caminho certo pelo destino errado.
Sei que te dói muito esse meu estado.
De viver feliz.
Mesmo não estando ao teu lado

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Primeira jornalista com baixa visão a ter um quadro na TV aberta brasileira

É um pequeno passo para ela, e um gigantesco passo para todos nós. Minha estimada amiga Mariana Baierle é a primeira pessoa  com baixa visão a ter um quadro fixo na televisão aberta brasileira. Para muitos isso pode ser uma coisa simples, mas representa muito na luta pelo direito à acessibilidade e pelo compartilhar com as pessoas consideradas diferentes. Portanto, demonstrar a potencialidade dessas pessoas não é um ato de bondade, mas aconsolidação de um direito.
Não acho que Mariana mereceria um quadro só por ter baixa visão, mas por ser uma jornalista competente e bem articulada. Afinal, por conhecê-la, sei que ela é bem mais do que a baixa visão, já que conhece muito mais coisas do que questões relativas à acessibilidade. Por outro lado, é louvavel a atitude da TVE em colocar essa temática em sua programação, o fazendo de modo inovador e cumprindo com as funções da tv pública de proporcionar produtos de qualidade e levando em conta a diversidade.
As demais emissoras deveriam tomar a TVE como exemplo, não por simplesmente abrir espaço para uma pessoa com deficiência visual, mas sim, para uma jornalista que tem como uma de suas caracteristicas pessoal, a baixa visão. Acreditar no potencial dela foi um mérito para aqueles que fazem a programação da tv.
Não falo isso como amigo da Mariana, pois aqui quem se manifesta é o pesquisador na área da deficiência visual., que tem isenção suficiente para tecer esse tipo de comentário.
Outro fato interessante é que esse quadro da Mariana está no programa Cidadania (TVE RS canal 7), e não em algum programa relacionado com a medicina e reabilitação. Isso demonstra uma mudança de paradigmas, de não ver mais os direitos das pessoas com deficiência baseados na cura ou na medicalização, mas sim, na reivindicação de direito à diferença, formando cidadãos preparados para compartilhar com o diferente, ao invés de apenas tolerá-los.
Pelos programas que assisti - todos que foram ao ar - ter alguém com deficiência falando sobre acessibilidade, e sendo essa pessoa uma jornalista qualificada, as informações disponibilizadas ao público se dão de maneira clara e concisa, sob a perspectiva de quem vive na condição de usar a acessibilidade - embora quase nunca haja.
Eis um ponto muito importante: levar as informações e necessidades sobre acessibilidade, sobre diferentes modos de vida das pessoas com deficiência e outras questões relacionadas com a temática para além do público envolvido com essas temáticas. Ou seja, ultrapassar fronmteiras, transmitir essas ideias pessoas que nunca tenham refletido sobre esse assunto.
Creio que seja com muita e constante informação que poderemos concientizar a sociedade que acessibilidade não é um beneficio, mas é um DIREITO de todos. E mais que isso, os recursos e produtos de acessibilidade devem ser produzidos por pessoas que tenham formação e qualificação especifica para esse tipo de serviço, afinal, não é porque se fala em acessibilidade que nós iremos querer um serviço simples e sem qualidade.
Portanto, Mariana é uma pioneira na tv brasileira. Espero que depois dela venham mais e mais pessoas com deficiência que tenham qualificação para tal, com espaço na mídia e nas demais esferas sociais. Esse e outros tantos grandes passos estão sendo dados, e por isso acredito que estejamos evoluindo mais devagar do que gostariamos, e mais rápido do que poderiamos imaginar. Contudo, são iniciativas como essa que nos animam para continuar na batalha.
Parabéns Mariana e pessoal do Cidadania.