Google+ Followers

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Literatura e a liberdade cintilante.

As pessoas que me conhecem um pouco sabem o quanto eu gosto de literatura. Desde criança sempre li o quanto pude - e às vezes o que não  pude.  Depois da adolescência, cego de um olho e com catarata severa em outro, ainda assim segui sendo amante da leitura, mas jamais consegui ler na mesma velocidade e as mesmas quantidades de obras que eu gostaria ou poderia ler se enxergasse.
Depois vieram os compromissos profissionais, os livros, artigos e outros textos para estudos, e o espaço da literatura na minha vida foi diminuindo. Isso porque, além da falta de tempo meus olhos cansavam muito rapidamente e eu pouco conseguia aproveitar com conforto aquilo que lia. Não que me impeça completamente, mas dificulta consideravelmente.
Não foi fácil admitir que eu estava perdendo tantas e tantas obras sensacionais por ler mais lentamente, por enxergar menos do que o necessário para usar o papel. Mesmo com a lupa, com luz adequada, ainda assim eu demoro mais tempo, e se isso acontece, são menos obras que posso conhecer.
Se buscasse adaptar os livros para as especificações de fonte e tamanho que consigo ler em tinta, o tempo para que fique pronto é tão grande, que a espera parece interminável. O peso e o volume do que eu carregava era tão grande que era preciso uma logística toda especial, muitas dores nas costas tive por causa disso.
Mesmo o amor pela literatura não foi suficiente para que eu continuasse a ler uma quantidade considerável de obras devido a todas essas dificuldades que apareciam. Aos poucos, fui deixando tudo isso de lado, e me resignando a uma meiz dúzia de livros por ano, sabendo que outras centenas de títulos fantásticos estavam à minha espera, mas eu não poderia tê-los completamente ou de uma forma que pudesse aproveitá-los.
Já conhecia os leitores de tela, mas sempre achei que as vozes eram ruins no computador, e que dificilmente eu iria me adaptar. Logicamente, se eu fosse cego me acostumaria logo com as possibilidades que me fossem fornecidas. Resistia um pouco à ideia de usar os softwares ledores, pelo motivo prático e pelo fato de achar que sozinho minha visãomesmo muito ruim daria conta de ler em tinta.
Quando eu conheci a Fabiana e começamos a namorar, eu me encantei por um milhão de coisas nela, como o conhecimento e o amor pela leitura - até nisso somos almas afins. Acho que lendo em tinta, nem que eu passasse o resto da minha vida apenas lendo conseguiria ler a quantidade de livros que ela leu e releu, mais um fator que me faz admirá-la 
Em nosso convívio diário ela foi me mostrando que havia possibilidades para que eu conseguisse ler com sintetizadores de voz com um mínimo de perda de conforto. Depois de uns meses eu consegui adquirir um Iphone - com as seguidas insistências e incentivos da Fabi. Suas dicas foram e são muito preciosas para mim, agora eu consigo ouvir os livros mais rápido, estou ainda em fase de adaptação, mas já consigo me sentir livre para saber que poderei acessar quantas obras eu puder, em quantidade de tempo infinitamente menor. Poderei levar os livros para onde eu quiser, sem um peso muito grande a ser carregado.
Hoje, me sinto  duplamente livre. Primeiro por saber que estou de volta ao mundo da literatura, que eu imaginava já estar perdido. É como se a Fabiana tivesse me tomado pela mão e me guiado de volta à um paraíso de onde eu nunca devia ter saído. Agora eu sei que tenho novamente um universo de lugares, de acontecimentos, de histórias... 
Se isso já não fosse muito, também me sinto livre na medida em que eu admito que usar os auxílios dos softwares ledores me cansam menos os olhos, que eu devo usá-los como apoio, que quiçá, um dia serão uma das únicas formas de acessar os livros. Ter noção das limitações que tenho, por mais paradoxal que pareça, me faz sentir menos limitado e mais livre de certas amarras. 
Não acho que já esteja enxergando menos, embora saiba que isso um dia vai acontecer, mas eu consigo usar melhor meu tempo com a agilidade dos leitores de voz, otimizo o uso da visão, o que me causa menos cansaço físico e mental. Tudo isso tem implicações físicas evidentes, e emocionais também, pois ao contrário de alguns anos atrás hoje eu não preciso e nem quero mais fingir que não preciso de bengala ou de um leitor de tela para certas atividades.
Escrevo tudo isso até aqui para agradecer de todo meu coração à Fabiana, que além da pessoa mais importante na minha vida, tem me libertado cada dia mais de coisas que me deixavam angustiado e receoso. Obrigado por tudo e, principalmente, por me ajudar a encontrar os caminhos certos, a vencer as lutas diárias e a ser cada dia mais livre dos meus medos, inseguranças e pronto para viver um mundo repleto de possibilidades cintilantes.
 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Deficiência plural e singular



Normalmente, o pensamento mais corrente nas sociedades é de que todas as pessoas com deficiência são iguais, que tem as mesmas necessidades, que tem personalidades, gostos e desejos semelhantes. Muitos acham que se conhecem um cego, sabem do que todos os cegos precisam, e isso está muito longe de ser verdade. Felizmente para a humanidade, as pessoas são plurais e cada um de nós é um pequeno universo, somos diversos e até ao inverso.   
Sempre refleti sobre isso, mas dois fatos me chamaram a atenção ainda mais para a pluralidade dos sujeitos. Recentemente, assisti a uma palestra sobre as questões da homossexualidade e do corpo como forma de identidade. Também pude finalmente assistir ao filme “Eu quero voltar sozinho”, onde um adolescente descobre sua sexualidade e percebe estar apaixonado por outro rapaz, e o mais interessante foi a forma digna, afetuosa e emocionante como o tema foi tratado na obra. O detalhe é que o personagem é cego, e foi um dos melhores filmes sobre deficiência que eu já vi.
Recordo-me de uma situação ocorrida há seis anos, quando uma colega de mestrado estudava sobre “surdos com síndrome de down”. Em uma das aulas debatendo sobre seu projeto, a questionei da seguinte maneira: “por qual motivo tu usas surdos com down? Por que não usar dows surdos?”. Ainda que muitos acreditem que temos uma identidade que nos caracterize mais do que as outras, é preciso pensar diferente do usual, que somos muito mais do que “apenas” cegos, surdos, com down, negros, homossexuais ou outros.
Já faz algum tempo que como acadêmico e como sujeito com deficiência venho desejando estudar ou refletir mais sobre aquelas pessoas que vivem à margem, ou se preferirem, nas zonas de fronteiras entre algumas diferenças das chamadas minorias. E as mulheres, os negros, os pobres ou imigrantes com deficiência? E /se forem tudo isso ao mesmo tempo? E se forem tudo isso e mais algo que sequer eu citei aqui?
Tenho pesquisado bastante sobre as marcas culturais com as quais pessoas cegas e com baixa visão se identificam e que possibilitam a construção de certas identidades que nos acolhem. Mas, fico sempre desconfiado e atento para que essas identidades não formem um ideal de pessoa com deficiência visual, um modelo a ser seguido como uma identidade única.
Talvez, muitos podem dizer apressadamente que isso pareça quase que eu mesmo destruir os castelos de areia que “criei”, mas acredito que o que temos são possibilidades de identificação, e não modelos indenitários a serem seguidos como dogmas. Mesmo porque, se descartarmos aqueles diferentes dos modelos que se imaginam dos “cegos de verdade”, agiremos exatamente igual aos que condenamos por nos excluírem.
Quando fiz meu doutorado sanduíche em Barcelona, conheci um rapaz com baixa visão militante no movimento das pessoas com deficiência da Catalunha. Contou-me dentre tantas coisas interessantes, que fazia parte de uma comissão específica para tratar sobre os homossexuais cegos e com baixa visão. Foi a primeira pessoa com deficiência visual gay – ou vice versa, como preferirem – que eu conheci, não por vontade, mas por falta de oportunidade.
Além disso, ele relatou as dificuldades enfrentadas por estar em uma zona de fronteira, pois se tem a ideia de que sujeitos com deficiência são assexuados – e isso está bem longe da verdade -, e como um gay que tem uma diferença corporal, se via pouco aceito na “comunidade”. Assim, ele via-se excluído por ser cego, por ser gay, por ser um cego gay, por ser um gay cego, quando deveria era ser respeitado por ser ele mesmo.
Ultimamente, tenho ampliado minha rede de contatos com sujeitos cegos e baixa visão, e entre eles, conheci direta e indiretamente pessoas com deficiência visual com orientação homossexual. Tenho interesse em entender como e a vida dessas pessoas que muitas vezes são multiplamente mais excluídas do que normalmente já somos. Que estratégias utilizam para lidar com os desafios que essas situações lhes impõem?
Um exemplo, é que alguns homossexuais contam que “conhecem pelo olhar” quem é ou não “como eles”, mas e uma pessoa cega como faz? Uma alternativa muito usada tem sido os aplicativos de “paquera” para celular, sendo a visualidade o principal fator de contato entre os usuários, mas, como faz alguém que não enxerga?
Acredito que assim como mostrado em “eu quero voltar sozinho” as questões sentimentais sejam semelhantes para os homossexuais que enxergam ou não. O que pretendo trazer para o debate é que muitas vezes essas pessoas ficam um tanto de fora das discussões sobre os seus direitos, sobre as possibilidades de aceitação e respeito às suas singularidades. Como os movimentos de homossexuais e de pessoas com deficiência lidam com essas questões que estão cada dia mais latentes?
Utilizei esses exemplos para propor o debate sobre as diferentes características que pode ter uma pessoa cega ou com baixa visão, não sendo possível falarmos em um “cego modelo”. Também me interessa tratar sobre aqueles sujeitos que são excluídos por mais de uma característica, como no caso das pessoas com deficiência visual homossexuais, excluídas por terem deficiência e por serem gays ou lésbicas. Mais do que isso, excluídas também, por não se encaixarem em modelos estabelecidos pelas minorias a que pertencem.
Portanto, é necessário que exercitemos a hipercrítica e percebamos que pessoas com deficiência excluindo outras por serem “diferentes” é seguir a lógica da exclusão que tanto lutamos para que acabe. Devemos agir com o mesmo desprendimento do preconceito que pretendemos que façam conosco.
Assim, tenho certeza de que esses temas são muito mais profundos do que as discussões que trago nesse texto. Da mesma maneira, não tenho respostas para a maioria das perguntas que trouxe aqui. Convido o leitor para também seguir refletindo sobre essas questões, pois é subvertendo e dissolvendo a lógica excludente que faremos uma sociedade de fato inclusiva.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Especialização em audiodescrição - Minhas percepções

A audiodescrição no Brasil tem crescido com intensidade e a passos firmes, ainda que existam muitas dificuldades a serem superadas a cada dia. Percebo que a maioria dos audiodescritores tem se empenhado cada vez mais para fazer com que esse recurso de acessibilidade faça parte do cotidiano de todas as pessoas. Exceto aquela minoria que insiste em usar hífen na AD por conceitualmente preferir separar à agregar - os quais me permito dar-lhes o que merecem, a indiferença -, é no diálogo entre opiniões contrárias ou não que temos conseguido elevar o nível e o alcance da AD.
O Curso de Especialização em Audiodescrição da Universidade Federal de Juiz de Fora é um marco histórico para a audiodescrição em nosso país, não apenas por ter sido o primeiro, mas por proporcionar formação adequada na área, abrindo caminho para que tantos outros cursos como esses surjam e fomentem a qualidade desses profissionais, isso nos proporcionará produtos melhores e em maior quantidade. Assim, mais do que os méritos acadêmicos, o curso teve e terá influência direta na prática dos alunos, dado que a maioria deles de alguma forma já atua na cadeia produtiva da AD.
Também foi um momento de muita emoção para mim, pois desde o começo de minha trajetória acadêmica desejei participar de bancas examinadoras. Lia os textos dos meus colegas de mestrado e doutorado muito atentamente buscando me qualificar como avaliador, e além disso, aprendi bastante com meus professores e com minha orientadora sobre como ajudar a qualificar as pesquisas examinadas. Assim, tive a felicidade de participar de cinco bancas do curso de especialização, e chegar a mais esse objetivo que por si só me deixou honrado.
Tive sorte de avaliar trabalhos de diversas formas de utilização da AD, de museus à filmes com cenas eróticas. Passei por situações muito agradáveis de ler trabalhos que me fizeram pensar e ampliar meus conhecimentos. É verdade que li outros com menos coisas boas e com problemas graves, embora esses também tenham me proporcionado aprender sobre diversas peculiaridades de bancas examinadoras e das surpresas que elas podem nos reservar. Espero ter outras oportunidades como essas para avaliar trabalhos, produzir e compartilhar conhecimentos.
Não pude assistir a todos as bancas examinadoras dos alunos do curso,mas estive presente em boa parte delas, sendo possível verificar pesquisas importantes para os rumos da AD no Brasil. Quase todas as regiões estavam representadas, o que representa um considerável alcance dos conhecimentos produzidos, garantindo a possibilidade daquilo que tenho desejado e lutado muito para que aconteça, a interiorização da audiodescrição. Fazê-la apenas nas grandes e médias cidades ainda não é o ideal, pois todas as pessoas com deficiência  visual devem ter o direito a ter o recurso, se não for assim, ela não será plenamente inclusiva.
As temáticas investigadas demonstram a pluralidade da AD, seja nas obras de arte contemporânea, nos desenhos infantis, nos filmes eróticos, nas exposições em museus e outros tantos assuntos. Para mim, o principal e que parece mais interessante são as diferentes formas de utilização da audiodescrição nos processos educacionais, sobretudo, escolares. Atualmente pesquiso sobre essa questão, e ainda que não tenha chegado aos resultados, noto que essa é uma maneira de conscientizar as pessoas com e sem deficiência para a magnitude que possui a AD na vida das pessoas.
Entendo que além de um processo de tradução com seus parâmetros e conceitos ligados à essa área de conhecimento, a AD pode ser entendida também como um produto  cultural. ou seja, efetuada como parte de uma cultura e nela inserido. Isso porque, em cada trabalho  apresentado foi possível perceber as nuances regionais, dos contextos culturais em que viviam, e em minha opinião isso ajuda muito a aproximar a AD das pessoas, tendo ou não alguma deficiência. 
Faço questão de referir também o trabalho da Elisabeth Sá, que fez uma cuidadosa e eximia pesquisa sobre a consultoria na audiodescrição brasileira. Destaco-o para ressaltar a importância do protagonismo das pessoas com deficiência nas equipes de audiodescrição, bem como na produção de conhecimento desse campo de conhecimento. E mais do que um recurso de acessibilidade pode ser usada como uma maneira de reivindicar e exercitar o tão desejado empoderamento.
Também me deixou feliz o fato de encontrar outros colegas de profissão e amigos que dificilmente costumo ter contato mais direto. Honrou-me estar entre os diversos audiodescritores renomados, discutindo os rumos da nossa profissão e de como podemos empreender novos caminhos para a AD nacional. Esses debates semeiam possibilidades de solidificarmos nossas práticas e o campo teórico que também temos que fomentar.
Assim, as defesas de trabalhos de conclusão de curso foram semelhantes a um seminário em que compartilhamos ideias, entramos em contato com outras pesquisas, diferentes propostas de trabalhos e debates que seguirão dando frutos e qualificando os processos de audiodescrição no Brasil. Espero que outros adições do curso venham, que possamos ter mais momentos memoráveis como esses para que se torne uma doce rotina no campo da AD.
Por fim, agradeço a coordenadora Lívia Motta pelo convite, e através dela parabenizo a organização do curso, os professores e os alunos pelo excelente e exemplar trabalho realizado. Mencionando também meus companheiros de banca que muito ajudaram nas discussões em que participei, sobretudo, a Cristiana Cerchiari  e o Laércio Santana, que além de colegas de trabalho  nas bancas, são professores do curso, demonstrando que  a nossa "classe" também está muito bem representada. E, uma saudação ainda maior à audiodescrição brasileira que cresce e se consolida cada dia mais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Súplica ao tempo

Essa saudade me arrebata.
Ao viscejar tua distância.
O coração se despedaça.
Pensando em tua ausência.

Relógios correm inconstantes.
Eu perco a noção do tempo.
Os dias passam em branco e preto.
Querendo te ter com tanta pressa.
Rogo com ardor essa prece.

Noites em claro.
Amanhecer que segue escuro.
Quando teu brilho não está por perto.
Todo segundo parece incerto.

Não importando o que foi ou será vivido.
Só contigo minha vida faz sentido.
Em teus braços faço eterna morada.
Onde será para sempre amada.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Anestesiado



Eu vejo o homem deitado na laje fria.
Viro o rosto e disperso.
Com qualquer outra trivialidade me amorteço.
À base de felicidades via oral uma vez ao dia.

Compadeço-me com o drama alheio.
Até que eu fique de saco cheio.
E em menos de cinco minutos,
procuro uma injeção de reality show.

Faço campanhas e doo alimentos.
Curto e compartilho tanto sofrimento.
Não ofereço nenhum real alento.
No próximo clique tudo cai no esquecimento.

Mulher inocente espancada e morta,
Homens assassinados por amarem um ao outro.
Menino cego impedido de estudar.
Tanta gente que foge para ter paz.
Só o que temos para dar.
São as manchetes de jornal.
E no dia seguinte tudo se torna tão banal.

Vejo o pobre garoto.
Morto à beira-mar.
Uma lágrima sincera até pode despencar.
E como mais que isso não quero dar.
Mudo de canal e espero a novela me anestesiar.

Tento dormir para esquecer.
Sonho com tudo que quero e não posso ter.
Finjo que eu nada posso fazer.
No dia seguinte outras brutalidades virão.
Enquanto eu sigo,
Agarrado ao acaso pela mão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Esmola" zero

Todos nós temos papeis individuais e coletivos a cumprir na sociedade, e como seres que vivem em comunidade, temos também responsabilidades perante os grupos a que pertencemos. Isso fica acentuado quando fazemos parte de uma minoria social, onde na maioria das vezes o comportamento de uma pessoa ou de uma entidade que representa essa parcela da população passa a representar um estereótipo ou a manutenção do mesmo.
Dentre tantos casos das chamadas minorias, me detenho aqui na das pessoas com deficiência visual, que é aquela na qual estou imerso. Não que eu não participe de outras, mas essa me toma de arrasto desde que nasci, e tenho conhecimento relevante para falar do tema. Não sei se o que irei tratar aqui se passa nos demais casos, mas o fato é que estou situando bem de onde falo e d=a qual contexto me refiro.
Muitos estereótipos são construidos a partir de uma percepção generalista equivocada sobre as pessoas com deficiência visual. Se você encontrar um cego bem humorado na rua, saiba que nem todos são assim, se trabalhar com uma pessoa com baixa visão qualificada, nem todas serão iguais. Cada pessoa tem seus próprios modos de ser e de agir, e não há ninguém exatamente do mesmo jeito, e por isso, dizer que "os deficientes visuais" agem da mesma maneira é um erro de origem.
Por muito tempo, as pessoas com deficiência tiveram como única alternativa de sobrevivência pedir esmolas nas ruas, pois a sociedade não proporcionava nada melhor, na medida em que fazia o possível para excluí-las da vida social. Num segundo momento, as doutrinas religiosas passaram a fazer da ajuda aos "deficientes" uma forma de alcançar o céu. Em ambos os casos, ficou cristalizada a ideia de assistencialismo e benevolência para com esses sujeitos.
Os séculos se passaram, a sociedade teve inúmeras transformações, mas como é comum ocorrer, certas práticas ainda continuam sendo corriqueiras, ainda que parecendo ultrapassadas. Temos políticas de inclusão consistentes, e ainda que não sejam as ideais, aumentaram o poder de renda das pessoas com deficiência, permitindo que grande parte delas alcance um poder aquisitivo que não possuíam outrora. É óbvio que muito ainda precisa ser feito para atingirmos o que é de direito para todos esses indivíduos, e para isso devemos nos mobilizar.
Por outro lado, é cada vez mais importante o papel que cada um de nós com deficiência visual tem com nossas atitudes. Temos que reivindicar nossos direitos seja numa sala de cinema sem audiodescrição ou em debates institucionais sobre políticas que nos proporcione direitos. No entanto, tais ações tomadas individualmente ainda não tem o mesmo peso do que aquelas tidas como coletivas, que tem maior exposição e circulam com maior facilidade.
Os movimentos sociais e entidades representativas das pessoas com deficiência visual ainda representam  - ou deveriam - a maioria das reivindicações de necessidades e parâmetros que se deve ter com relação a essas pessoas. muitas das mudanças para melhor com relação ao modo como os videntes nos percebem, na conquistas de direitos que temos conseguido e de outros pelos quais temos lutado têm grande influência dessas associações representativas. Todavia,temos também o Onus de que se uma instituição como essa age de uma determinada forma, ainda se pensa que esse é o pensamento de todos nós.
O que me preocupa nisso tudo, sendo o cerne dessa reflexão, é que muitas associações ainda agem como se estivessem no século passado, na contramão da história. Tenho conhecimento de alguns casos em que instituições pedem dinheiro para manter-se. Não julgo a necessidade e nem o mérito, mas os efeitos que isso causa. Fica evidente a manutenção da ideia assistencialista de "pedir uma esmola para o cego", o que sem dúvidas ainda é um estereótipo que nos afeta, causando embaraço e diversas dificuldades na tentativa de demonstrar que precisamos de oportunidade e não de caridade.
Talvez isso se deva por falta de criatividade ou mesmo incompetência daqueles que gerenciam a entidade que faz esse pedido, mas não posso julgar casos específicos, pois falo de modo geral. O que eu sei, é que essa atitude de pedir dinheiro é mais problemática do que o caminho para uma solução, se pensarmos a longo prazo, que pode salvar a saúde financeira de determinada entidade, mas põe em xeque todas as conquistas que tivemos até aqui, na medida em que reforça os estigmas já existentes.
No que me diz respeito, sei das dificuldades que uma parcela importante das pessoas com deficiência ainda tem para sua subsistência, bem como das peculiaridades da vida d cada um. Contudo, me irrita muito notar que o esforço que muitos de nós cegos e baixa visão fazemos para desconstruir a imagem de comiseração é colocada por "água abaixo" diante dessas campanhas de "esmolagem". 
Lutamos constantemente para provar que temos capacidade, que se nos forem dadas as condições somos competentes e podemos atingir os objetivos por nossos méritos e sem ajudas assistencialistas. Ao mesmo tempo, vemos que movimentos que deveriam incentivar essa consolidação da autonomia, preferem acentuar a sensação de dependência de outrem. Atos e instituições como essas não me representam,para usar um jargão atual. O que me deixa certa esperança, é que esses modos de gerir são feitos por pessoas, e essas pessoas um dia passam e as entidades ficam, de modo que tenho certeza que em algum momento dias melhores virão. Ainda assim, os efeitos causados podem ser dificeis de reparar.
Seja como for, simplesmente agir como séculos atrás e "pedir dinheiro" é um retrocesso, embora seja o trajeto "mais fácil". Porém, nós cegos e com baixa visão sabemos que nem sempre o caminho mais curto é o mais seguro, pois podem estar repletos de obstáculos que nos impedem de chegar ao destino sem problemas. Enquanto rumar pelo trajeto mais seguro, ainda que mais leve mais tempo e dispensa mais energia, certamente nos proporciona bem mais benefícios, com passos que nos farão avançar mais consistentemente. Basta usar dos conhecimentos de orientação e mobilidade e de um pouco de sabedoria para perceber isso. 
Enfim, espero que com o passar do tempo nossos movimentos sociais tenham pessoas bem intencionadas e que tenham competências e habilidades necessárias para levar adiante nossas lutas. Que não se queira tomar o poder apenas pelo regozijo que o mesmo proporciona à alguns. Que ao invés de reforçar, possamos ter a capacidade de dissolver estereótipos e estigmas que só atravancam o  nosso caminho.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Eu não sou (só) um guerreiro



Seguidamente tenho visto muitas pessoas com deficiência se destacando em seus campos de estudo e/ou de trabalho. Isso é bom por demonstrar que estamos alcançando patamares que eram muito difíceis até poucas décadas atrás. Um fator que também explica esse aumento da circulação dessas histórias de vida são as redes sociais e a divulgação que a mesma pode fomentar.
No entanto, tenho percebido que nos comentários sobre esses casos de “sucesso”, há algo que tem me incomodado de uma maneira cada vez maior. Sem duvidar das boas intenções das pessoas que fazem certos comentários, incomoda ler a frase “você é um guerreiro”. Sei que há alguns amigos que compartilham dessa mesma insatisfação, já que essa frase e seus derivados trazem consigo uma série de estigmas e de inferiorizações que na maioria dos casos, quem diz nem percebe.
Com a emergência dos “casos de sucesso” de pessoas com deficiência tem se tornado comum o “discurso da superação”, onde qualquer coisa que façamos é porque superamos todas as nossas dificuldades para alcançarmos nossos objetivos. É preciso deixar claro que só supera-se aquele de quem se tem baixíssimas expectativas. Como sempre digo, nunca usarei o “discurso da superação”, pois sempre espero o máximo das pessoas, sejam quem elas forem, dentro das circunstancias em que vivem.
É evidente que temos muitas limitações, que a sociedade nos impõe dificuldades para atingirmos nossos desejos pessoais e profissionais. As dificuldades que temos são sim maiores que a dos demais, e isso não se pode negar. Ressalvando, contudo, que isso é culpa da sociedade em que vivemos, por ainda ser resistente a aplicar medidas que tornem a sociedade mais acessível.
Todavia, essas limitações que nos são impostas não são suficientes para me fazer aceitar o discurso de que somos vencedores apenas por termos perseverança. Vencer ou não as dificuldades que a vida nos impõe, não é uma questão de vontade, mas de circunstâncias e de oportunidades que recebemos. Se fosse assim, a maioria das pessoas com deficiência poderiam ser consideradas derrotadas e indolentes, oque não é o caso.
É muito desonesto, citar o caso de meia dúzia de pessoas com deficiência que são bem sucedidas, e usá-las para legitimar as atuais políticas de inclusão. Sabemos que essa não é a realidade da maioria das pessoas desse grupo, que ainda sofrem com a falta de acessibilidade e de estrutura para atingirem o patamar que seu potencial lhes permitiria alcançar.
Dizer que eu sou um “guerreiro” por ter tido determinada conquista é afirmar que os que vivem na mesma condição que eu não o são. Afinal, seguindo essa linha de raciocínio, basta desejar que podemos fazer acontecer, não sendo necessárias as condições adequadas para o desenvolvimento desses sujeitos. Pensar assim, além de equivocado, é injusto com tantas e tantas pessoas que tem potencial, mas carecem de meios para demonstrar isso. Essa é a lógica cruel da “meritocracia”, ver apenas o resultado e desconsiderar o resto, que é o mais importante.
Por outro lado, ser perseverante é uma característica que possuo, mas nem todas as pessoas são assim, e isso deve ser respeitado. Isso está no âmbito de minha personalidade – e de muitas outras pessoas – e não dos atributos fundamentais que todas as pessoas devem ter, pois se muita gente ainda não se deu conta, uma pessoa é diferente da outra.
Mais que isso, também me causa muita insatisfação quando me chamam de “guerreiro” pelo fato de que se conquistei algo é, sobretudo, pelas qualidades que tenho e por ter aproveitado as oportunidades que me foram proporcionadas. Tudo que tenho conseguido é fruto do que construí, dos conhecimentos que adquiri, do auxilio das pessoas que me cercam e outras situações, onde a perseverança é secundária.
É sempre muito incomodo viver em um mundo onde se tenho “fracassos” são atenuados e relevados por causa da deficiência, e se tenho “sucesso” isso ocorre apesar da deficiência. Dificilmente a maioria das pessoas avalia meu trabalho e minhas atitudes tomando como base quem eu sou, com todas as circunstâncias que me cercam. A deficiência será sempre protagonista e maior responsável por tudo que me acontece, quando isso não é verdade.
Isso significa estar toda a vida encarcerado pelos estigmas e pelos estereótipos da inferiorização. Não sou guerreiro, sou alguém com qualidades e defeitos, que busca melhorar a cada dia, e que acima de tudo ama o que faz e a vida que leva. Somos muito mais do que só lutadores. A deficiência é parte da gente, e não o contrário. Temos qualidades, e é por elas que sempre desejaremos ser conhecidos e avaliados.  

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Inclusão sempre. Retroceder, nunca

Tenho profundo respeito pelo papel que as APAEs desenvolveram ao longo da história com o objetivo de incluir pessoas com deficiência - sobretudo intelectual - na sociedade. Durante muito tempo, essas foram as únicas instituições onde os indivíduos com alguma deficiência podiam recorrer em termos de educação, ou de socialização. Porém, com o passar do tempo outras possibilidades surgiram e seus modelos de atuação foram ficando para trás.
Até o advento das novas políticas de inclusão educacional no Brasil, as APAES foram muito importantes para socializar os alunos com deficiência. Como as escolas comuns não eram obrigadas a aceitar essas pessoas, ou contavam com a boa vontade das instituições de ensino, ou conseguiam vaga em alguma escola especial, muitas delas gerenciadas pela referida entidade.
Não foram poucas as ocasiões em que me manifestei em defesa da existência escolas especiais, não por concordar com seus métodos ou suas finalidades, mas por uma questão democrática. Entendo que os conteúdos, as práticas e os espaços das escolas especiais estão um tanto ultrapassados. Não se pode mais fazer com que os alunos passem a vida escolar toda aprendendo a fazer trabalhos de colagem, de desenhos com fios de lã ou outras práticas ainda recorrentes nesses locais.
As escolas especiais esqueceram de se reinventar e foram ficando para trás em suas práticas, sem pensar nas potencialidades e nas infinitas possibilidades de aprendizagens dos mesmos. Em um tempo onde era essa a única alternativa educacional, essas escolas cumpriram seu papel, mas com tantas e salutares conquistas atuais, já não podemos mais retroceder. Contudo, não estou afirmando que todas as escolas são desse modo, existem as que conseguiram melhorar.
São os pais e responsáveis pelos alunos com deficiência que devem escolher o que é melhor para seus filhos, estudarem em uma escola especial ou não, por isso defendo que ambas devem seguir existindo. Há também casos muito específicos como deficiências intelectuais graves ou deficiência multipla em que na maioria dos casos se opta por uma educação especializada, e acredito que isso deva ser mantido.
Foi árdua e longa a luta para que conseguissemos que as pessoas com deficiência tivessem o direito de serem matriculadas nas classes comuns sem possibilidades de restrições. Existem muitos interesses, sobretudo economicos, agindo na contramão tentando impedir que alunso com deficiência frequentem as escolas comuns.
Sabemos das dificuldades que as escolas comuns têm para incluir essas pessoas, mais ainda em acolhê-las com o atual contexto que temos. Ainda assim, essa realidade é melhor do que aquela que tinhamos anteriormente. Não há estrutura necessária, não há preparo adequado para lidar com os alunos com deficiência, às vezes não há nem boa vontade. Porém, a escola comum representa um incremento de qualidade de conteúdo e na variedade de socialização dessas pessoas, uma conquista que pode parecer pequena, mas é imensa para nós.
A escola comum tem muito a evoluir, e seus passos rumo a uma inclusão mais acolhedora e menos instrumental ainda são curtos e vagarosos. No entanto, cada passo dado é firmemente conquistado e temos a certeza de que não podemos mais voltar. Conheço dezenas de casos que comprovam isso, coisas que as atuais estatisticas ainda não mostram como a quantidade de alunos com deficiência concluindo a educação Básica, conheço na prática e no contato cada vez maior com essa parcela da população.
Há alguns anos o Conselho Nacional de Educação nos proporcionou uma grande conquista que foi a obrigatoriedade de matriculas de alunos com deficiência nas escolas comuns, ou seja, nenhum aluno poderia ter sua matrícula negada. Essa foi uma conquista colossal como dissera antes, da qual devemos nos orgulhar e lutar para manter. Isso porque, mesmo com a promulgação do Estatuto da Pessoa com Deficiência, existem pessoas agindo no sentido contrário.
O deputado federal Eduardo barbosa do PSDB - mesmo partido da deputada Mara Gabrilli, relatora na câmara do Estatuto da Pessoa com Deficiência - foi autor de um decreto legislativo sustando a obrigatoriedade das escolas comuns de aceitarem alunos com deficiência. O surpreendente não foi alguém desse partido protocolar esse decreto, mas sim, que a Comissão de Educação aprovasse essa aberração.
A grande mídia sequer toca no assunto, pois muitas delas são patrocinadas por instituições de ensino que se beneficiariam com essa nova normativa. Porém, temos que nos mobilizar e não permitir que seja aprovada na Comissão de Constituição e Justiça, que se for ao plenário seja rejeitada fortemente. Tal decreto retira uma das principais conquistas que tivemos nos últimos anos, e não podemos mais retroceder ao estágio anterior.
Não sejamos hipócritas, sabemos que no dia seguinte de sua promulgação as escolas irão começar a recusar todos os alunos com deficiência nas suas escolas, dessa vez sem sequer as justificativas estapafúrdias de outrora. As instituições terão direito a escolha, que será sempre negativa, ou seja, os sujeitos com deficiência nem direito à escolha terão. Esse duro golpe pode fazer com que os alunos com deficiência voltem todos para as escolas especiais, que já não tem mais nem vagas suficientes para absorver a quantidade de alunos que serão rejeitados pelas escolas comuns.
O processo de incremento qualitativo que os alunos com deficiência tiveram ao cursar as escolas comuns serão sustados, assim como seus sonhos e suas possibilidades de inserção social balizadas em contextos inclusivos e não mais segregadores, como nas escolas especiais. Haverá a médio e longo prazo um grave retrocesso em todas as instancias da vida das pessoas com deficiência, mas nisso o parlamentar e seu partido não pensam.
Coincidentemente ou não, Eduardo Barbosa é ligado às APAEs - inclusive já foi acusado de desviar dinheiro a ser utilizado por essas entidades para seu próprio bolso e de assessores. Com a obrigatoriedade das matriculas de alunos com deficiências em escolas comuns, essas entidades têm cada vez menos alunos - e cada vez menos repasses de verba. Sustar as matriculas nas escolas comuns seria um modo de fazer com que os alunos retornassem às APAEs - assim como as verbas. 
Respeito as boas intenções da maioria dos integrantes do movimento das APAEs, mas tomar essas instituições como a base educacional dos alunos com deficiência não faz mais sentido. Creio que essas entidades seguem sendo importantes como complemento à educação nas escolas comuns. Sua atuação segue ajudando muitas pessoas, mas não há mais espaço para que sejam protagonistas dessas mudanças, inclusive por suas diretrizes e metodos de ação. Atualmente, precisamos é melhorar as práticas e diretrizes das escolas comuns para torná-las inclusivas plenamente.
Por fim, o que quero dizer é que precisamos lutar de todos os modos possíveis para que esse retrocesso não siga adiante. Temos que fazer com que as escolas comuns sejam obrigadas sim a aceitar alunos com deficiência. Ninguém toma remédio amargo por vontade própria, mas se não toma, a cura não vem. O principio deve ser o mesmo e não devemos deixar com que nossas conquistas sejam solapadas por pessoas com interesses que não são o bem-estar das pessoas com deficiência.
Resumidamente, creio que TODAS as escolas devem ser obrigadas a aceitar alunos com deficiência. Por outro lado, os responsáveis por esses alunos devem ter o direito de escolher se querem ou não que seus pupilos estudem nessa modalidade de ensino. Nós passamos muito tempo fazendo apenas o que as pessoas sem deficiência permitiam que fizessemos, mas agora os tempos mudaram e temos a possibilidade de fazermos nossas próprias escolhas. Autonomia e direito à educação não se relativizam, se fazem cumprir e se luta para garantir. Façamos a nossa parte contra esse golpe nas conquistas das pessoas com deficiência, não por mim ou por você leitor, mas pelas milhões de crianças com deficiência que nesse momento têm sua educação e sua inclusão seriamente ameaçadas.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A oposição é contra a inclusão - Sobre a tentativa de solapar o direito à escola comum

No dia 6 de Julho de 2015, foi aprovado o Estatuto da Pessoa com deficiência (Lei 13.146), uma grande conquista para todos nós pessoas com deficiência, nos garantindo muitos direitos e perspectivas futuras muito venturosas. Alguns acreditaram que a aprovação da lei seria o ponto final da luta, mas como fiz questão de ressaltar em diversas ocasiões, sua sanção seria apenas o começo da batalha. Isso se pode notar menos de uma semana depois, quando deputados do PSDB e do DEM tentam resgar a lei aprovada, a constituição e algumas de nossas conquistas mais fundamentais.
Sempre foi público e notório que o PSDB e o DEM (tendo como coadjuvantes o PPS, parte do PMDB, PRB, PSC e outros partidos de direita), estão a serviço dos empresários e dos interesses econômicos, pouco ligando para o bem estar da população, para os direitos das minorias sociais ou da emergência de uma sociedade mais igualitária; Suas pretensões são, sobretudo, promover o máximo de deveres e o mínimo de direito aos cidadãos.
Fiquei até espantado ao saber que a deputada Mara Gabrilli era do PSDB, pois parecia ser uma parlamentar bem intencionada. Em 2013, foi nomeada relatora do Estatuto da Pessoa com deficiência - que ela tentou mudar para Lei Brasileira de Inclusão, escondendo que o projeto era do senador Paulo Paim, do PT. Acreditei como muitos, que a deputada tinha boas ideias e que sua atuação seria importante.
Nos últimos tempos, passei a perceber que a nobre legisladora usa sua deficiência como cabo eleitoral, como uma forma de se promover, o que para mim é um despautério, para dizer o mínimo. Muito preocupada com seu nicho de eleitores - as pessoas com deficiência física - nunca fez nada de produtivo ou teve atuação de destaque em temas relacionados a outras deficiências, como a visual por exemplo. Nunca encampou de fato como sua a luta pela audiodescrição e por outras reivindicações de pessoas cegas e com baixa visão. Mesmo assim, ser arvora como representante de todos com deficiência. 
Para piorar, foi uma das que mudaram de voto com relação diminuição a maioridade penal para 16 anos após a manobra escusa e rasteira do presidente da Cãmara dos deputados, demonstrando fraqueza de ideias e ser uma parlamentar volúvel - para dizer o mínimo. Fez parte de um grupo de pessoas que solapou direitos adquiridos pela juventude brasileira. Desculpe, mas a mim, alguém assim não representa.
Digo isso, pois a deputada sequer consegue convencer seus colegas de partido de que a inclusão veio para ficar havendo ou não interesses contrários. O deputado Eduardo Barbosa do PSDB foi autor do decreto parlamentar aprovado na Comissão de Educação da Cãmara dos Deputados, suspendendo a obrigatoriedade das instituições de ensino aceitarem alunos com deficiência nas escolas comuns. Sendo que, a relatora do projeto foi Dorinha Rezende, do DEM;
Fiz consulta para essa postagem, e notei que na comissão referida, a maioria dos deputados são dos partidos de oposição - incluo o PMDB - e talvez por isso a matéria tenha sido aprovada sem qualquer dificuldade. O interessante é que essa situação ficaria apagada, não fossem algumas instituições darem divulgação ao tema. A grande mídia sequer se importa com isso, ou pior, como muitas delas são patrocinadas por grandes grupos de educação, provavelmente até sejam a favor desse projeto. Se pensa na pessoa com deficiência como um estorvo e não como um sujeito de direitos, no entanto, esses partidos pensam assim de todas as minorias, não sendo um privilégio "nosso".
A custo de muita luta das pessoas com deficiência temos a garantia constitucional e o direito de frequentar as escolas comuns. Os partidos de oposição viram-se de costas para os desejos, necessidades e reivindicações de grande parte da população, afinal, temos 23,9% de pessoas com deficiência, e mesmo assim, os setores conservadores da sociedade acreditam que podem ser hegemônicos e fazer de seus interesses financeiros um valor maior do que as necessidades do povo.
Historicamente, lutamos por mais de meio século para que as pessoas com deficiência tivessem o direito de estudar em escolas comuns, o que foi conquistado apenas nos primeiros anos da década passada. Os resultados das políticas de inclusão escolar - que tem sim graves problemas a serem resolvidos -  serão vistos a médio e longo prazo, como a inserção de pessoas com deficiência nas instituições de Ensino Superior, em colocações melhores nos postos de trabalho, incremento do poder aquisitivo e de qualidade de vida desses sujeitos.
Contudo, já podemos verificar no cotidiano esses resultados aparecendo, como uma inserção social mais efetiva dos membros desses grupos, que passam a circular mais em todas as esferas da vida social, a participar de ações que outrora eram tidas como impossíveis. Grande parte dessas conquistas se devem ao fato de crianças e jovens não ficarem mais reféns da boa vontade e da qualidade fraca das escolas especiais. Desde que foi implantada a inclusão nas escolas comuns, temos os mesmos direitos a ter condições de aprendizagens, de ensino de qualidade e de um currículo igual a todos os demais alunos, minimizando as desigualdades materiais e de ensino existentes no processo educacional de alunos com deficiência.
Os passos que damos são curtos e vagarosos, mas ainda assim, seguimos em frente. O que o bloco de oposição está tentando articular é um duro golpe em direitos já adquiridos, em conquistas conseguidas com suor e sangue de muitas pessoas com deficiência que deram a vida toda para que chegássemos até aqui. O que o PSDB e o DEM querem é arrancar de nossos corações a esperança de que nós e as próximas gerações de crianças com deficiência tenham uma educação igualitária e de um merecido respeito e protagonismo social que já passou da hora de termos.
Temos que nos mobilizar para evitar que as grandes empresas e os interesses econômicos personificados na pessoa do deputado Eduardo Barbosa do PSDB soterrem os nossos sonhos. Temos que ter força para atuar no sentido de não permitir que esse parlamentar - e outros que se escondem - ajam contra o interesse da sociedade, para que não retornemos aos tempos em que pais de crianças com deficiência levavam anos para encontrar uma instituição que aceitasse seus filhos.
É preciso fazer algo antes que os sorrisos de nossos jovens e crianças com deficiência que estão nas escolas comuns, sejam substituídos pelas lágrimas da exclusão e da discriminação, e tudo isso, para atender a interesses financeiros. Ainda há tempo de evitarmos que esse retrocesso aconteça, ainda que saibamos que a luta é árdua e repleta de dificuldades.
É muito estranho que o deputado Barbosa e sua colega Dorinha desconheçam o Estatuto da pessoa com deficiência, dado que Mara Gabrilli sua colega de base oposicionista foi a relatora do projeto na Cãmara dos deputados. Porém, nenhum deles percebeu ou ignoraram o fato de que a lei 13,146 que institui o Estatuto da Pessoa com Deficiência foi aprovado dois dias antes. Nessa lei pertencente à Constituição Federal, em seu artigo 28 determina que TODAS as instituições de ensino aceitem alunos com deficiência e assegurem aos mesmos todas as condições de aprendizagens e acessibilidade aos mesmos, não sendo permitido qualquer valor adicional por esse atendimento.
Logo, além de imoral e um retrocesso social absurdo, esse projeto é inconstitucional, pois está na contramão da legislação brasileira. Tal lei teve artigos vetados pela presidenta, o que é lamentável ter acontecido. No entanto, nenhum desses vetos atingem direitos já adquiridos e de tamanha importância como o acesso à educação. Creio que não há como comparar situações tão diferentes, pois a tentativa de sustar o direito de crianças e jovens com deficiência à estudader em em escolas comuns é muito mais grave e nociva.
Assim, diante dessas e de outras atitudes anteriores fica claro que os partidos da atual oposição, ou da direita, como preferirem, são contra a inclusão de pessoas com deficiência. Seus discursos podem ser em outro sentido, mas o que importa são os seus atos, e esses são evidentemente discriminatórios, preconceituosos e representam um retrocesso no processo de respeito aos direitos das pessoas com deficiência.
Os integrantes desse bloco representam uma parcela da sociedade que prefere pensar em seus lucros, nas vantagens que irão obter com a minimização de seus deveres e a ampliação de seu domínio sobre os grupos minoritários. Sabemos que é grande a quantidade de pessoas que se incomodam com a emergência dos direitos das pessoas tidas como diferentes, por terem seus interesses confrontados. No entanto, a maioria da sociedade está do nosso lado, precisamos mobilizar essa maioria para derrubar esse pensamento retrogrado de alguns políticos brasileiros, garantir nossos direitos e ampliá-los.
Nenhum balanço financeiro de qualquer escola, nenhum interesse monetário de seja qual for a ordem, será maior e mais importante do que a alegria de uma criança acolhida no ambiente escolar. O mais modesto sonho de um jovem com deficiência tem mais valor do que o patrimônio de todas as instituições de ensino somadas.
Por isso, sigamos batalhando para que não seja aprovado o projeto que desobriga as escolas de aceitarem alunos com deficiência, não permitamos que apaguem o desejo de milhares de crianças em nosso país, e que todos possam entender que não fazem um favor, mas sim, atendem a um direito. Por maiores que sejam os obstáculos, juntos teremos força para suplantá-los e não perimir que setores conservadores da sociedade consigam tirar o sorriso de nosso rosto.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Lei Brasileira de inclusão - é apenas o começo


O dia 10 de Junho de 2015 vai entrar para a história dos movimentos de luta pelos direitos das pessoas com deficiência no Brasil. Nesse dia, foi aprovado o Estatuto da Pessoa com Deficiência – Lei Brasileira de inclusão, após mais de doze longos anos de tramitação no poder legislativo sem que a matéria fosse votada. Sem dúvidas, é a lei mais avançada e o passo mais importante dado até hoje pela sociedade brasileira no que tange aos direitos das pessoas com deficiência.
Durante todo esse tempo o projeto ficou engavetado esperando a boa vontade do Congresso Nacional, ainda que os movimentos sociais e alguns parlamentares pressionassem para que fosse apreciado e votado pelas casas legislativas. É evidente que a causa das pessoas com deficiência nunca foi prioridade para a maioria dos legisladores - nos bastidores muitos fizeram forte oposição. Afinal, acarretaria mais atribuições ao poder público e privado, e como muitos pensam apenas em seus interesses e não no bem comum seria melhor soterrar a ideia antes de germinar.
O senador Paulo Paim lutou durante anos para ver o estatuto aprovado, porém, isolado não pôde fazer muita coisa. Foi então que entraram em cena os outros dois protagonistas desse processo. A deputada Mara Gabrilli trabalhou intensa e competentemente liderando a articulação para análise e construção de um projeto de lei com viabilidade de aprovação na Câmara dos deputados.
Outro protagonista desse processo foi o senador Romário, que desde a legislatura passada quando foi deputado tinha como uma de suas principais frente de trabalho a aprovação do Estatuto, chamado também de Lei Brasileira de Inclusão. Colocou a disposição da causa todo seu poder político e o fato de ser uma carismática figura pública para transitar nos movimentos das pessoas com deficiência e agir para que fosse colocado em votação. No senado, seguiu trabalhando para que o estatuto fosse aprimorado e aprovado.
Depois de dezenas de reuniões com os movimentos sociais, de ajustes e modificações no texto final a deputada Mara Gabrilli relatou o projeto de lei na Câmara dos deputados, e depois de aprovado foi enviado ao senado. Sob relatoria de Romário, a Lei Brasileira de Inclusão foi a votação e por unanimidade foi aprovada no plenário do Senado Federal e agora segue para a sanção da Presidência da República.
           
Lei aprovada, e agora?
Ter o projeto de lei aprovado foi apenas o primeiro dos passos rumo à efetivação dos direitos. É preciso encontrar instrumentos que garantam o cumprimento do documento, desde sanções legais até a construção de uma cultura de acessibilidade que conscientize as pessoas da importância dessas e de outras medidas. Os problemas não se resolvem de uma hora para outra, mas agora temos instrumentos mais potentes e consistentes de luta.
São diversas conquistas e falar de todas aqui tomaria muito tempo, mas a principal delas reside no conceito de deficiência empregado. Antes a deficiência era entendida a partir do paradigma biomédico, e agora é compreendida como um impedimento físico de longo prazo, e as barreiras arquitetônicas e atitudinais obstruem a plena participação social das pessoas com deficiência.
Essa mudança de paradigma é muito representativa no sentido de retirar os estigmas e posições negativas quanto aos sujeitos e transferem-nas para os ambientes. Essa nova percepção sociocultural sobre a questão possibilita diferentes formas de pensar e minimizar a inferiorização dos sujeitos com alguma deficiência.
Há também a conquista de direitos muito importantes para a vida das pessoas com deficiência, como o aumento da abrangência da reserva de vagas no mercado de trabalho e ao Ensino Superior, na concessão de benefícios àqueles que necessitam dos mesmos e na ampliação da obrigatoriedade dos recursos de acessibilidade e tecnólogas assistivas no acesso à cultura, como à audiodescrição, por exemplo. 
Fortalece o direito de escolha do aluno com deficiência e/ou de sua família quanto a modalidade de educação que deseja cursar, se frequentar a escola comum ou especial, por exemplo. Tem como meta uma escola inclusiva que atenda a diferença de cada sujeito sem descaracterizar suas particularidades Além disso, as escolas públicas e privadas ficam proibidas de cobrar qualquer valor adicional dos alunos com deficiência por atendê-los.     Uma das coisas que particularmente me tocou bastante no discurso consistente e emocionado do senador Romário ao defender o projeto no plenário do Senado, foi a afirmação de que sabia que sua filha com Down tinha todos os cuidados e a estrutura necessária para seu pleno desenvolvimento diante de suas peculiaridades, mas que aquela não era a realidade da maioria.
Disse ainda, desejar que todos tivessem acesso às mesmas possibilidades que sua filha teve, pois todas as crianças com deficiência têm potencial e os mesmos direitos, que poderão ser desenvolvido com as novas conquistas proporcionadas pela lei.
Eu sempre faço questão de afirmar algo nesse sentido, de que muitas das conquistas que a mídia exalta como superação, não o são, mas sim, se trata de alguém que teve as condições adequadas de desenvolver suas habilidades. Não se pode tratar a exceção como regra, já que a maioria das pessoas com deficiência não detém os meios e a estrutura necessária para participar plenamente da vida social, e esperamos que a lei venha a mudar essa realidade.
Outra questão importante foi ver a sessão repleta de pessoas com deficiência assistindo a votação, mais do que isso, muitas pessoas com deficiência foram convidadas a participar do processo de concepção da lei, apontando os pontos de vista de boa parte das pessoas com deficiência. Esse protagonismo foi fundamental para termos uma redação que garante os inúmeros direitos contidos no Estatuto
Certamente temos muito a comemorar com esse enorme passo dado rumo a uma sociedade que respeite a diferença, no entanto, é preciso ter em conta que a batalha não acaba aqui, muito antes pelo contrário. Temos uma luta ainda mais difícil e demorada que será fazer com que a lei seja cumprida por todas as instâncias e em todas as esferas da sociedade. Serão atitudes diárias, que demandarão esforços e embates, com retrocessos e avanços. 
Seja como for, temos que batalhar para que nós e as próximas gerações de pessoas com deficiência desfrutem dessas conquistas e que possamos fazer um mundo que respeite a diferença e que ao invés de fomentar a desigualdade, opte por compartilhar com o diferente e não por inferioriza-lo. Vicejo o dia em que as lágrimas de sofrimento pela exclusão e isolamento darão lugar ao sorriso daquele que se sente respeitado e acolhido