sábado, 27 de abril de 2013

Uma dúvida azul

Desde criança não gostava de ser fotografado, seja pela minha timidez, seja por algum outro fator que a adultez me obrigou a esquecer. Hoje eu acho que essa minha aversão se devia muito mais a um desejo de ter algo que eu julgava impossível, o talento para fotografar. Só agora entendo que preciso mais de sentimento do que técnica para meus registros fotográficos. Também não gostava de ficar vendo fotografias, já que pelo fato de não enxergá-las nitidamente, precisava sempre que alguém me contasse o que estava vendo, e tivesse boa vontade em me descrever a foto.
Através dos textos de Evgen Bavcar, um grande fotografo cuja cegueira lhe confere uma percepção estética diferente, percebi que a imagem não é só aquilo que se vê, mas a intersecção entre como vejo o mundo e que sensações uma fotografia pode me motivar a registrar um determinado instante em imagem. Passei a achar que a fotografia é muito mais um retrato do que tenho dentro de mim do que algo que capture do exterior.
Comecei a ter tais ideias depois de algumas conversas, projetos e parcerias com a minha estimada amiga Daniele Noal, uma pessoa muito antenada, criativa e que tem o dom de nos fazer pensar de outros modos. Para muitos, cegos e pessoas com baixa visão fotografar é um contra-senso. Mas, como pesquisador que busca sempre expor aquilo que pode ser perturbador, me dei conta de que tinha um venturoso caminho pela frente.
Não digo que passei a tirar fotos constantemente daquilo que não fossem paisagens ou com pessoas marcantes para mim. Ainda assim, tenho aos poucos me arriscado a fazer fotografias baseado na ideia de construção da imagem como sentimento e não como primor estético, mas como cristalização de momentos e imagens que são mais reminiscências de minhas narrativas pessoais do que aquilo que se pode enxergar.
Apresento aqui uma das fotografias que fiz, que para mim representa muito.
Descrição da imagem
 Em quase doir terços da imagem, o mar azul escuro com alguns raios de sol refletidos e uma pequena marola. Acima, separado pela linha do horizonte, está o céu azul mais claro, onde também se podem ver algumas nuvens cobrindo quase toda borda superior da figura. A imagem está um pouco desfocada e inclinada para a esquerda.
Numa das minhas noites de insônia perguntei a mim mesmo: Que cor teria a dúvida? Qual o limite de nossos horizontes? Meu horizonte tem uma cor? Seria ele tão borrado e desfocado que não vejo seu fim?
A primeira imagem que se formou em meus pensamentos foi o azul, seja o azul do céu como o do mar, que se complementam e se delimitam durante o dia, e se unem ao anoitecer. Fitando o mar em uma manhã ensolarada percebi o contraste de azuis produzidos pelo horizonte. O azul que pode ser falso e enganar os olhos daqueles que enxergam.
A imensidão azul do mar, nos faz crer que sua cor é inquestionável, mas basta colocar sob as mãos um punhado de água que logo o azul se dissipa como uma leve bruma que leva sua cor e seu sentido azulado. Já o céu, quando não é visitado por nuvens ou quando não está visto no horário de trabalho da lua, parece um azul tido como celestial, que pode variar o tom, mas nunca perde a melodia de seus contornos.
Mas, experimente tentar tocar no céu, se para ti isso é impossível, saibas que se não o fosse também te decepcionaria, pois não é o céu que se veste de azul, mas a luz do sol que engana aos olhos daqueles que são iludidos pela visão.
Acho que às vezes a vida é meio azul como o mar e o céu. Seja como for, fiz a fotografia dos contrastes do horizonte, lá onde o mar banha a imensidão do céu e onde este, esconde por trás de si os mistérios marinhos. A imagem sempre é capaz de pregar peças se as pensamos como única fonte de reflexão e pensamento. Para quem tem deficiência visual como eu, desconfiar das imagens que nos é descrita é muito comum, pois somos produtores e consumidores de nossas próprias figuras, formas e cores.
Por isso, não creio no azul que vejo, mas sim no azul que sinto. Fotografar mar e céu juntos é construir a possibilidade de unir aquilo que poderia parecer impensável. Ser bem que, deve ser sempre bom manter viva uma reflexão e uma dúvida azul...

Um comentário:

  1. não creio no azul que vejo, mas sim no azul que sinto.
    Perfeita sua frase, Felipe.

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