domingo, 2 de dezembro de 2012

Obrigado deficiência!

No dia 3 de dezembro é comemorado o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, e sem dúvida me sinto muito honrado em pertencer a esse grupo, pois se tenho a vida feliz que levo hoje é muito graças a ela. Sei que há muito ainda o que ser melhorado em nossas vidas seja na derrubada das barreiras arquitetônicas ou atitudinais. Mas também é preciso lembrar que temos muito a celebrar, afinal, muito já foi conquistado e ainda estamos construindo um mundo melhor a cada dia.
Se formos pensar no quanto a sociedade ainda precisa evoluir para que contemplem todas as especificidades e extingam todos os preconceitos e discriminações existentes, poderemos até esmorecer por ver que o caminho é longo e sem uma perspectiva de atingir os resultados esperados. As dificuldades que temos ainda são evidentes, e se apresentam cotidianamente.
Mas e se ao invés de mirar o horizonte cada um de nós se fixasse em dar um passo de cada vez? Que tal se a gente lutasse fazendo as pequenas mudanças, colocando um tijolinho por vez? E que tal se a gente fizesse as mudanças pensando no que nós podemos fazer de concreto e não naquilo que podem fazer por nós? Enfim, acho que são boas pautas de reflexão.
Para mim, hoje não é só um dia de reflexões quanto ao futuro e o que temos a reivindicar. Penso no nosso dia como uma celebração que deve ser levada a diante, mostrada a todos para que vejam que grupo grandioso e potente nós somos. Já temos algumas conquistas importantes e bastante a comemorar em termos das diminuições de barreiras que nos são impostas.
É preciso celebrar e reverenciar tantas pessoas que lutara até o fim da vida – ou morreram por tentar – para que um dia tivéssemos nossos direitos assegurados e que a vida de nós com deficiência fosse melhor. Pessoas que estudaram e que batalharam em todas as esferas sociais para que estivéssemos no patamar que hoje estamos.
Sei que há muitas pessoas a mencionar, mas reverencio aqui a memória de Ligia Assumção Amaral, grande professora e ativista nos direitos das pessoas com deficiência, em quem me inspiro cotidianamente para prosseguir produzindo e lutando, Foi uma pena que ela tivesse nos deixado a 10 anos, mas sua obra estará sempre viva. Onde estiveres, saibas que sou seu fã.
Por mais que muitas vezes eu seja pessimista, nesse caso eu me vejo pensando no copo meio cheio, pois se temos muito a conquistar, um longo caminho já foi percorrido, e por isso, acho que devemos lembrar de tudo que já conseguimos adquirir como direitos e em termos de diminuição dos preconceitos. Hoje prefiro pensar em um dia feito para comemorar as conquistas e celebrar as alegrias que a deficiência me traz.
Eu sempre convivi com a deficiência desde que me entendo por gente, e até meus vinte e poucos anos levei-a um pouco a tiracolo ao mesmo tempo em que tentava tangenciá-la. Isso fez com que eu perdesse muita coisa na minha vida, mas ganhasse outras tantas o que não permite que eu me arrependa de ter “descoberto” tão tarde que eu sou como sou graças a baixa visão. Há uns sete anos eu me vi diretamente de frente com o preconceito e com a discriminação de uma forma muito brutal e que marcou a minha vida para sempre. Como não é de tristezas que pretendo falar, deixo isso pra lá.
Foi então que uma luz se fez presente nos meus olhos quase fechados e na minha mente totalmente aberta, era o orgulho de ter baixa visão. Sempre soube que queria ser professor, mas a História – minha graduação – não era exatamente o que eu procurava, e sabia que eu queria trabalhar com pesquisas na área da cultura. O mundo deu muitas voltas e fiz da minha deficiência objeto de pesquisa, e fui crescendo como sujeito e como pesquisador, realizando esse sonho indescritível que é ser mestre e fazer doutorado em Educação.
Obrigado a minha orientadora Lodenir Karnopp por ter acreditado em mim, e obrigado aos meus olhos cheios de catarata por terem me mostrado esse caminho de tantas alegrias. Hoje sei que a felicidade mora em mim, e não estou aqui apesar da deficiência, mas sim por causa dela. Como dizia Borges “ter cegueira é um dom”, e sei que eu tenho usado esse dom com relativa sabedoria para ajudar a tantas pessoas, e mais que isso, ajudar a mim mesmo.
É por causa da deficiência que eu conheci pessoas muito estimadas como as amigonas Mariana Baierle, Janete Múller, Márcia Caspary e o Rafael Guiger. A Mariana é minha colega de direção do filme Olhares, outra conquista, pois até “cineasta” estou me tornando por conta da baixa visão, além de parceira em outros tantos projetos passados e futuros. Além disso, é uma pessoa especial, uma irmãzinha mais nova que faz lembrar eu mesmo a uns anos atrás.
Ter conhecido a audiodescrição foi uma das coisas mais felizes de toda minha vida, e me tornar audiodescritor é como o sol de todos os meus dias. Consegui isso porque tenho estudo, mas também porque tenho baixa visão. Ser consultor de Ad e consumidor do produto é algo fantástico e que eu agradeço diariamente por ter deficiência e poder participar como produtor dessa arte de audiodescrever.
Dou valor a tudo aquilo que tenho e que sou, mas tenho certeza que nada na minha vida seria tão lindo se eu não tivesse baixa visão, e não visse a vida de um jeito tão alto. Obrigado papai e mamãe por não me tratarem como um coitadinho, e me darem a educação e o melhor tratamento que alguém poderia querer.
Portanto, sei que existem ainda muitas dificuldades na vida de quem tem deficiência, mas às vezes é mais fácil fazer do obstáculo um degrau para continuar subindo do que sucumbir a ele. Lembrar com ternura e gratidão da baixa visão que trago comigo é um ato de amar a mim mesmo e a tudo que tenho e sou. Nesse dia especial para todos nós. Penso na deficiência não como um entrave, mas como um dom, um presente que eu aprendi a usufruir. Obrigado baixa visão, por ter a chance de perceber isso!

Um comentário:

  1. Oi Felipe!
    Só paara dizer que o texto está muito bom. E agradeceder pela citação tão carinhosa!!! Obrigada. E parabéns spelo blog!!
    abraço, Mariana Baierle

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