domingo, 25 de maio de 2014

O cavaleiro cego



O cavaleiro cego.
Viu que o mundo era maior,
Do que sua prosaica província.
Decidiu que era hora de ultrapassar fronteiras.
Fez da bengala sua espada,
Agarrou sua princesa,
E galopou rumo ao desconhecido.

Queria desbravar cada canto do universo.
Encontrar para tudo um novo sentido.
Que não fosse um dos quatro que ainda lhe restavam.
Sentido que se procura em tantos lugares.
Mas está dentro de cada um.

O cavaleiro cego.
Fez o caminho inverso de seus antepassados.
Munido de perseverança e bravura.
Chegou a terras da Catalunha.

Pedido por las calles, se encontrou de verdade.
Tocou e abraçou a felicidade.
Descobriu que a igualdade é uma quimera.
No lugar onde o amor a diferença impera.

O cavaleiro cego
Tido como o Quixote do escuro,
Com ideias utópicas e absurdas.
Teve a redenção no eldorado.
Vivendo onde era acolhido e respeitado.

Por mais venturosa que fosse a jornada.
Tinha que voltar para casa.
Ainda precisava cumprir a nobre missão.
De contar à nação bengalante
Que após a luta sempre há um futuro cintilante.

O cavaleiro cego.
Notou que chegara a hora de voltar.
Celebrar aventuras e lembranças.
E toda saudade trazida na carruagem.
Porque voltar é sempre a melhor parte da viagem.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

A importância da audiodescrição na inclusão das pessoas com deficiência visual

A Organização Nacional de Cegos do Brasil - ONCB, em atendimento a uma constante demanda apresentada pelas associações afiliadas, promoverá, por meio de uma ação conjunta entre suas secretarias de comunicação e acessibilidade e ajudas técnicas, no dia 24 de maio próximo, das 19:00 às 21:30, o Seminário online: A Importância da Audiodescrição na Inclusão das Pessoas com Deficiência Visual. O evento ainda conta com a parceria do Mundo Cegal que irá fornecer a estrutura técnica para a sua realização, bem como transmiti-lo na íntegra por meio de sua web rádio ( para ouvir acesse: http://www.mundocegal.com.br/radio).
O objetivo desse primeiro evento de uma série que ocorrerá em espaço virtual, é difundir conhecimentos e trocar experiências, além de promover um debate sobre o assunto em tela, no afã de concorrer para formação de maior consciência acerca dos direitos e deveres da pessoa com deficiência visual, para além de ampliar a atuação desse seguimento nos espaços de participação social, em condições de intervir com qualidade, apresentando defesas consistentes no exercício da construção coletiva de uma sociedade mais inclusiva.

Programação
Sábado, 24 de maio de 2014
  • 19h00 - Breves instruções de como ocorrerão os trabalhos;
  • 19h05 - Abertura solene com o presidente Moisés Bauer Luís;
  • 19h20 - Início dos trabalhos, que serão coordenados pelo Secretário da Secretaria de Acessibilidade e Ajudas Técnicas, Beto Pereira;
  • 19h30 - Palestra: Projeto de lei do estado de Santa Catarina para garantir a audiodescrição em todos os eventos estaduais realizados por aquele ente da federação. Palestrante: Jairo da Silva, presidente da Federação Catarinense de Entidades de e para Cegos e da Associação Catarinense para a Integração do Cego;
  • 20h00 - Palestra: Audiodescrição - Histórico, legislação e perspectivas. Palestrante: Paulo Romeu Filho, assessor da Secretaria de Acessibilidade e Ajudas Técnicas da Organização Nacional de Cegos do Brasil;
  • 20h30 - Palestra: Por quê e para quem fazer audiodescrição. Uma ferramenta de inclusão indispensável em diversos contextos. Palestrante: Felipe Mianes, audiodescritor consultor, mestre e doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e sócio da Tagarellas Audiodescrição;
  • 21h00 - Espaço para perguntas;
  • 21h30 - Encerramento dos trabalhos.

Fonte: Mundo Cegal

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Redes sociais e as (in)verdades absolutas



Nós últimos dez anos o Brasil – e o mundo – tem vivido a febre das redes sociais. Tudo começou com o “falecido” Orkut, e dai em diante outras tantas foram surgindo. Apesar de todos os benefícios, muitas coisas ruins vieram junto, como a crença de que tudo que está postado representa a verdade inequívoca, o que na maioria das vezes não condiz com os fatos, como no lamentável caso em que uma moça inocente foi linchada e morta brutalmente por ser confundida com uma sequestradora de crianças.

Não é de hoje que me interesso pelos estudos sobre as redes sociais, já que minha dissertação de mestrado foi sobre as narrativas de pessoas com deficiência visual no Orkut. Durante dois anos entrava quase diariamente no site para abastecer minhas pesquisas e para meu uso pessoal, afinal em 2009 e 2010 era um dos mais populares sites de relacionamentos. Lá podíamos encontrar velhos amigos, ampliar contatos profissionais e fazer novas amizades.

Para mim, era mais do que divertimento, era meu trabalho e isso me fazia mais do que participar, refletir e estudar sobre aquele novo fenômeno de interatividade. Naquela época – a nem tanto tempo assim – Era mais comuns que as comunidades criadas fossem mais claras e objetivas quanto a suas ideias, que eram muitas vezes odiar ou amar a algo, mesmo que sem motivo aparente.

De maneira geral, não parecia haver a tentativa de tornar uma postagem uma verdade absoluta dos fatos, já que de algum modo as pessoas ainda não haviam incorporado uma ideia de que vida e rede social era a mesma coisa. O Orkut se foi e surgiram outras redes mais abrangentes em seu lugar, como Facebook e Twitter. Coincidência ou não, enquanto essas redes emergiam, os modos como os brasileiros lidavam com esses sites foram se transformando até chegar ao quadro que temos atualmente.

De ambientes onde se priorizava a interação entre as pessoas e o entretenimento dos usuários, pouco a pouco, já na “Era Facebook” começaram a surgir um número cada vez maior de usuários cujo intuito principal é a exposição de suas ideias e conceitos políticos e sociais, por exemplo. A parte boa disso tudo é que muitos jovens tem reaprendido a articular e a participar de movimentos sociais, vide os protestos de Julho de 2013, que para o bem ou para o mal, mexeram um pouco com a acomodação nacional.

O lado ruim disso tudo, é que a imensa maioria desses “novos militantes” passaram a ter uma ideia um tanto distorcida da realidade. Para essas pessoas basta “curtir” ou “compartilhar” uma postagem de protesto e em um passe de mágica tudo vai se resolver. Mais ainda, acham que criar ou participar de eventos virtuais, disseminar conteúdo e ideias de contrariedade ao sistema vão por si só dar conta de todos os problemas.

Em minha opinião, isso não resolve muita coisa, já que tudo aquilo que se diz em um dia, no outro virou mera poeira cibernética, e ninguém mais se recorda do que aconteceu, em tempos onde o efêmero predomina, o mais difícil não é pôr fogo, é mantê-lo aceso. É tolice achar que você vai mudar o mundo só escrevendo algo sentado em uma cadeira confortável em frente ao computador, é preciso bem mais do que isso. .

Não estou querendo ser o dono da verdade, mesmo porque durante algum tempo eu mesmo tomava essas atitudes. Logo que passei a utilizar o facebook, reivindicava e reclama de tudo aquilo que eu entendia problemático, desde a desigualdade social, até o buraco na calçada da minha rua. Obviamente, o mundo não ficou melhor por conta das minhas reclamações, a única coisa que aconteceu, foi que eu me tornei igual a todo mundo, só criticando tudo e ganhando a fama de resmungão.

Ficar postando conteúdo de protesto e bradando contra o que está errado ou reclamando de qualquer coisa do cotidiano virou moda, e como sempre preferi mais a contracultura e o lado contrário do fluxo, achei que estava na hora de tentar outras alternativas. Não que hoje eu não reclame, mas penso umas mil vezes antes de fazer isso. Não só posto coisas, mas tomo atitudes concretas para viabilizar as coisas nas quais eu acredito. Enfim, eu deixei o conforto de casa e fui a luta.

Por tudo isso, as pessoas acham que as redes sociais são como “realidades paralelas” onde você pode dizer o que quiser, no momento que achar a adequado e sem se importar se irá atingir diretamente os sentimentos ou o patrimônio de alguém.

É cada vez maior a quantidade de xingamentos, de linchamentos morais, de manifestações racistas e preconceituosas, feitas na maioria das vezes por quem sempre teve essa opinião e encontrou no pretenso anonimato das redes um cenário ideal para proliferar suas imbecilidades.

Muitos desaprenderam ou nunca souberam o que é discordar de outra pessoa apenas utilizando argumentos concretos e sem partir para o lado pessoal, discutir ideias e não pessoas, debater conceitos sem atingir a honra de outrem sem que haja provas. Talvez porque mais fácil do que ter ideias qualificadas seja desqualificar o outro.

Contudo, por mais que doa na alma esses tipos de xingamentos e de mentiras ditas a seu respeito, tudo é tão passageiro que em menos de uma semana tudo é esquecido e a ferida cicatriza. O pior é quando tudo isso transborda o terreno virtual e apunhala em cheio a integridade física de alguém, como já ocorreu tantas vezes.

Como disse antes, algumas pessoas leem um notícia na internet e a disseminam nas redes sociais como se fosse a maior de todas as verdades. Nisso, outra pessoa que te segue compartilha de sua ideia e reproduz o conteúdo e assim a coisa se espalha com uma rapidez incontrolável.

Muitos sabem que a informação não é verídica, mas como querem se tornar populares por motivos comerciais ou de vaidade mesmo, postam sem se importar com as consequências que um ato impensado pode ter na vida daquele que está em questão.  Afinal, a popularidade nas redes sociais é um fator tão almejado que muitas vezes supera qualquer limite ou princípios de valores éticos que uma pessoa possa ter – ou não.

Você se torna mais popular quando xinga alguém ou algo, quando compartilha conteúdo onde a violência está explicita seja a favor ou contra, do que quando escreve um texto literário ou compartilha um poema ou evento cultural, por exemplo. Sendo claro, muitas pessoas querem mesmo é ver sangue, e o pior, é que cada vez mais elas conseguem.

Embora esse não seja um fenômeno exclusivamente das redes sociais, a ideia de fazer justiça com as próprias mãos encontrou nelas o terreno ideal para se proliferar descontroladamente. Cada vez é maior a quantidade de denúncias e da criminalização de pessoas através desses meios. Muitos têm consequências menos graves, mas é assustador o aumento daqueles que acabam consumando as ameaças.

Ano passado, aconteceu um fato que me deixou perplexo e reflexivo por um longo tempo. Uma página do Facebook apresentou o retrato falado de uma  mulher que estaria sequestrando crianças. Quase instantaneamente alguém “identificou” de quem se tratava, e logo espalhou a notícia sobre quem seria a criminosa.

Um grupo se juntou, e como um conselho de sentença arbitrário, julgou e condenou sumariamente a moça. Entraram em sua casa e as agressões começaram de modo abrupto e intenso, sem que ela tivesse a mínima chance de dizer sequer uma palavra ou saber porque estava apanhando. Foi arrancada da residência e arrastada pelas ruas enquanto a violência brutal continuava sob aplausos e com o aumento de agressores. Depois de tanto cansarem de bater e vendo que a mulher parecia morta, ainda a jogaram em um córrego.

Se é verdade que eu reclamava de tudo pelo Facebook, uma atenuante tenho, jamais fui atrás de notícias perigosas como essa, jamais achincalhei alguém sem ter provas, e nunca estimulei a violência de qualquer tipo. Também era a favor da pena de morte, desde que antes da execução houvesse um julgamento justo, com direito a defesa e com a necessidade de provas cabais.

Como falar em justiça em um país com o judiciário que temos? Como confiar em justiça com uma sociedade doente que temos? Não, acho que ainda não podemos fazer isso, embora eu ainda ache que uma pessoa que comete crime hediondo deve ser isolada para sempre do convívio social.

Mas o que essas pessoas fizeram foi de tamanha estupidez, que sequer deixaram a vítima se defender, sequer perguntaram ou tentaram ver se a informação era correta, e antes disso já saíram batendo. Eu confesso ter ficado triste, perplexo e refletindo: E se fosse a minha mãe? A que ponto chegou a nossa sociedade? Onde vamos chegar com tudo isso? O que me angustia é não ter respostas para nenhuma das perguntas.

Seja como for, a vida dessa pessoa e de outras que se foram por conta da exposição e das mentiras contadas nas redes sociais. É preciso que alguém seja responsabilizado quando posta uma informação desse tipo, mas em minha opinião, quem “curte” e/ou “compartilha” deveria ser responsabilizado na mesma medida, por ter aceitado e disseminado passivamente informações que podem atentar contra a moral e a integridade física de outrem.

Não é mais aceitável que as redes sociais sejam usadas como espaços em que tudo é possível, principalmente, quanto a divulgação de informações e ideias que afrontem os Direitos Humanos, e isso não é censura, mas respeito ao outro. Enfim, algo precisa ser feito e eu comecei fazendo a minha parte, repensando a minha vida e os meus conceitos, sugiro ao leitor fazer o mesmo, pois um dia, de estilingue você pode passar a ser a vidraça.

domingo, 4 de maio de 2014

Felipe Mianes fará conferência sobre audiodescrição na Universidade Autonôma de Barcelona

O audiodescritor e sócio da Tagarellas Audiodescrição, Felipe Mianes, conduzirá a conferência Pessoas com deficiência visual e a audiodescrição: perspectivas e possibilidades na Faculdade de Tradução Visual da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, na tarde da próxima quarta-feira, dia 7.
A proposta é abordar o universo das pessoas cegas e com baixa visão, suas diferenças, modos de vida e particularidades. Ao longo da conferência, Felipe pretende promover o debate sobre a importância da audiodescrição para esse público e defender seu papel na equipe de audiodescrição. Também tratará das perspectivas de prática e pesquisa, como a possibilidade de protagonismo das pessoas com deficiência visual na produção e no estudo da AD e a ampliação das áreas de conhecimento que investigam a temática. 

Felipe, 31 anos, é graduado em História pela PUC-RS, mestre e doutorando em Educação pela UFRGS. Desde setembro do ano passado realiza intercâmbio acadêmico na UAB e deve retornar ao Brasil no final de maio.

Serviço:
Onde: Salão 2 da Faculdade de Tradução da Universidade Autônoma de Barcelona
Quando: Quarta-feira, 7 de Maio
Horário: 16h15min
Entrada Franca

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Respeitem o nosso tempo



Já passei por muita coisa na minha vida, já li muita coisa em minha trajetória acadêmica, mas ainda me assusto e fico indignado com certas coisas, e felizmente, acho que jamais irei perder essa capacidade. Verificar que certos estigmas e desrespeitos às pessoas com baixa visão são parte do combustível que move para a luta. Li um artigo e soube certas coisas nos últimos dias que me fazem ver o longo caminho que há pela frente.
Li um trabalho que relatava as percepções de alguns professores sobre seus alunos com deficiência visual, e o resultado foi assustador. Pior que isso é que essas opiniões não se restringem a esses docentes, há outras tantas pessoas que trabalham com esse público e comungam de maneira velada ou até mesmo explicitamente com esses deploráveis estigmas.
Especificamente, estou me referindo ao que certas pessoas pensam sobre os processos de aprendizagem das pessoas cegas e com baixa visão. Muitas ainda acreditam que somos mais lerdos, indolentes, desconcentrados e coisas até piores. Tudo isso, simplesmente pelo fato de nosso tempo de aprendizagem não ser o mesmo que as demais pessoas que enxergam. Não vejo nada de errado nisso, afinal, conforme aprendemos estudando o tema, não há sequer uma pessoa que viva do mesmo jeito e na mesma velocidade que a outra.
As condições de estudos que temos atualmente são precárias, o acesso que temos a materiais adaptados ainda é muito restrito, mas nem todo mundo entende isso. Se eu tivesse que fazer uma comparação, diria que precisamos de no mínimo 30% a mais de tempo – e estou sendo generoso – de estudos para equiparar nosso patamar de aprendizagem ao das pessoas que enxergam.
Por exemplo, se um vidente leva uma hora para ler um material, nós teríamos a necessidade de mais uns vinte minutos para fazer o mesmo, isso se ele estiver em braile ou em fontes ampliadas, porque se não estiver adaptado eu diria que esse tempo dobra. Isso pode parecer pouco isoladamente, mas para mim que escolhi a pesquisa como profissão, para outros amigos que estudam para concursos públicos ou trabalham diretamente com a docência, a somatória desse tempo acaba sendo enorme.
Só quem vivencia isso sabe o quanto é difícil ler um livro com uma lupa, ler um material ampliado que é pesado e requer que passemos o tempo inteiro folheando as páginas e que precisa de intensa concentração para não nos perder, como nos materiais em braile, por exemplo. Para quem faz isso o dia todo, gastamos muito mais tempo do que as demais pessoas para fazer as mesmas coisas, mas infelizmente pouca gente quer entender isso.
São incontáveis as vezes em que nós precisamos dar uma dose a mais de tempo das nossas vidas para tentar nos equiparar, mas o dia continua tendo vinte e quatro horas. Assim, não sei se os insensíveis de plantão sabem disso, mas esse tempo a mais de estudos é o tempo a menos de convívio com a família, de diversão, de exercício físico ou de simplesmente descansar. E mesmo assim, professores e outros profissionais nos taxam de “lerdos” ou “desorganizados”, como se eu fosse culpado pelo mundo não contemplar minha diferença e minhas necessidades.
Não estou dizendo que somos heróis, vilões ou vítimas da sociedade, pois não acho que esses papeis me sirvam, só estou dizendo que seria muito bom que as pessoas tivessem uns 30% a mais de respeito pela nossa diferença, e acho que isso não é algo inatingível. Claro, que há pessoas com deficiência visual que só querem sombra e água fresca, mas elas não são assim por terem deficiência, são como são por serem pessoas.
Tenho amigos com outras deficiências que também precisam desses 30% a mais de respeito diante de suas particularidades, e nós não estamos pedindo um favor, estamos sim reivindicando um direito que nós temos. O problema não está em mim que tenho uma diferença corporal, mas na deficiência da sociedade em contemplar as minhas necessidades. Sei que tudo é um processo, mas vá dizer isso para quem passou a vida toda ouvindo esses julgamentos rasos e absurdos, principalmente de quem convive com pessoas com deficiência.
Também não sou tolo o suficiente para analisar a questão em termos de achar que nós somos os oprimidos e as pessoas que enxergam são opressoras, isso seria reducionista demais, porque eu não vejo o mundo com os lhos do binarismo e da intolerância. Não sofro de infantilidade crônica para achar que eu sou o dono da verdade e os outros estão sempre errados, e por isso, me nego achar que haja uma “cruzada” contra as pessoas com deficiência. Mas que ainda há incompreensão das consequências de se ter uma deficiência, disso eu não tenho dúvida.
Ao invés de julgar o outro, quem sabe seja mais interessante se colocar no lugar dele. Afinal, quando estamos diante de uma paisagem que nos embevece queremos vê-la por todos os ângulos possíveis, e o que é a vida e o convívio com nossos semelhantes senão uma bela paisagem a ser vista, tocada e sentida? Acho que uma das causas dos atuais males do mundo seja exatamente a perda da capacidade de se pôr no lugar de outrem, acreditando sermos o centro do universo.
Obviamente, eu viro “uma fera” quando leio e ouço tantas bobagens e tantos julgamentos inconsequentes, pois por mais que eu seja um investigador, também há sangue correndo nas minhas veias, e quem me conhece sabe que ele é bem quente. Mas, o tempo me ensinou que simplesmente esbravejar contra essas pessoas seria inócuo já que há outros modos mais elegantes de mudar as coisas. Esses pensamentos de alguns ao invés de me acabrunharem ou revoltarem me motivam. Conhecendo essas coisas e sabendo o quanto elas doem, tenho ainda mais gana de fazer a minha parte e trabalhar na área da educação, pois é só com ela que a gente muda essas coisas.
Portanto, sei que tentar mudar as coisas pelo diálogo e pela educação pode demorar mais tempo do que pelas vias mais radicais, mas não quero me igualar a quem me julga. Além disso, a educação pode ser um processo longo, porém, é mais profundo e duradouro do que outros modos de fazer. Até porque, a diferença é um sol que brilha mais forte e sempre vence a bruma do preconceito.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Bengalando em barcelona (Visita ao Museu Blau)



O Blau é o museu de Ciências Naturais mais conhecido e importante da Catalunha, onde há um imenso acervo de todos os campos de conhecimentos vinculados a essa parte da ciência. Ao contrário dos demais, fica localizado ao norte de Barcelona, e o acesso mais fácil até lá é uma linha de bonde elétrico que deixa exatamente em frente ao local.
Caminhar até a entrada é relativamente seguro por haver uma grande área livre de obstáculos e de ruas ao redor. Ao passar pela porta de entrada foi possível notar que havia piso tátil em todos os ambientes até as bilheterias, elevadores, sanitários e ao começo da exposição permanente. A sinalização também é boa e ajuda qualquer pessoa a encontrar a bilheteria, mesmo sendo cega pode chegar até lá com autonomia.
Se fosse sozinha, uma pessoa cega conseguiria ter acesso a muitas informações disponíveis, enquanto uma com baixa visão iria conhecer a praticamente tudo como uma pessoa que enxerga, dada a excelente qualidade dos audioguias e das sinalizações. O espaço físico é completamente adaptado para pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida, desde os elevadores, passando pelos sanitários, e incluindo rampas entre as salas e cadeiras de descanso, principalmente para pessoas com mobilidade reduzida que delas necessitem, já que as exposições são extensas.
Logo na recepção recebemos um audioguia e as instruções para seu uso. Há um grande mapa da exposição em alto-relevo e com legendas em letras grandes e em braile. É possível tatear cada canto do museu e conhecer um pouco do ambiente e das disposições das peças principais.
As sinalizações de acesso às diferentes salas são muito adequadas e condizentes com as necessidades. As indicações sobre o nome da sala onde estamos entrando está escrita em letras brancas no piso preto, o que proporciona um contraste quase perfeito para ser visto por pessoas com baixa visão, ainda mais que o tamanho das letras era grande o suficiente para serem vistos a uma distancia considerável, com a ajuda de iluminação clara e centralizada. Sendo assim, se estivesse sozinho, teria todas as condições de saber por onde estava me deslocando, facilitando a utilização do audioguia e o cumprimento do percurso proposto.
Em cada uma das 16 seções do museu, existem no mínimo dez peças feitas para serem tocadas. Ou seja, replicas em tamanho natural (ou, no caso de reproduções dos micro-organismos cerca de um metro) que procuram representar aquilo que está sendo exposto. Existem também muitos itens originais que podem ser tocados, como pedras, fósseis, minerais e alguns outros que são fundamentais para nosso entendimento daquilo que estamos vivenciando.
Esses objetos táteis permitem que possamos ter conhecimento e acesso a sensações que são fundamentais para termos os conhecimentos sobre os mesmos. Mais do que isso, nos totens em que estão colocadas as peças que podem ser tocadas existe informações escritas sobre elas. Todas estão em braile, em alto-relevo e com fundo preto com letras brancas em tamanho grande. Ao lado dos objetos que não podem ser tocados, ou quando há projeções visuais, encontramos totens explicando do que se tratam os itens que não podemos tocar ou ver, e assim como os demais, estão em fundo branco, com letras grandes em branco, sendo possível ler com conforto.
Cerca de metade dos totens onde se pode tocar nos objetos contam ainda com um recurso de acessibilidade que ainda não tinha encontrado, e que são muito importantes para contemplar ainda mais as necessidades dos sujeitos cegos e com baixa visão que queiram conhecer mais sobre a exposição. Uma espécie de tela presa em uma haste que pode ser movida lateralmente. Trata-se de uma tela grande com a função de lupa que ao ser colocada na frente dos objetos que tocamos, ampliam o tamanho das peças e nos proporcionam enxergar até os menores detalhes, como um fio de cabelo ficando do tamanho de uma linha de lã.
Para finalizar, o audioguia com audiodescrição tem 43 faixas e conta com dois narradores (um para a exposição permanente e outra para a temporária). Começa com duas faixas de auxilio espacial para o ouvinte, informando onde estão os banheiros, as saídas de emergência e a ordem da disposição das peças. Há comentários sobre a história do prédio e uma detalhada descrição sobre sua fachada e sobre seus espaços internos. A única dificuldade é que o audioguia está em catalão e pode causar alguns problemas de compreensão de quem não conhece o idioma.
Sobre a descrição das exposições, é muito clara e repleta de detalhes que ajudam muito na formação das imagens por parte daquele que ouve. Não a descrição de cada peça, mas referência a quais estão expostas no lugar indicado, até porque nem mesmo quem enxerga consegue ver tudo. Cada faixa tinha duração razoável de tempo, o suficiente para compreender tudo sem cansar o ouvinte. Sendo assim, além da quantidade de detalhes é preciso pensar na qualidade.
Portanto, entendo que esse tenha sido o museu mais completo e qualificado em termos de acessibilidade que conheci até o momento. É possível acessar e compreender a tudo que está exposto, onde a limitação física ou sensorial não se constitui um problema mais grave para que se possa usufruir das informações e sensações que se buscou transmitir.
Espero que um dia essa ideia de acessibilidade plena se espalhe pelo mundo todo, principalmente para o Brasil, que ainda tem muito a aprender nesse campo fundamental de conhecimento que é a acessibilidade cultural, valorizando iniciativas e pessoas verdadeiramente preparadas para pensar e executar essas ações tão importantes.