sábado, 30 de março de 2013

Os sonhos nunca fenecem

Confesso que durante algum tempo achei que estava sendo em vão todo o trabalho que eu desenvolvia como acadêmico e como ativista na luta pela acessibilidade e dos direitos das pessoas com deficiência visual. Como o meio acadêmico é um tanto restrito e os estudos sobre as temáticas que investigo mais ainda, me sentia como se tudo que eu fizesse não chegasse e nem tocasse aqueles que eu gostaria que fossem contemplados pela minha luta.
Lembro que não foi uma ou duas vezes em que pensei em desistir desses estudos e seguir outros caminhos. Mas como cabeça dura que eu sou, persisti. Depois que conheci a audiodescrição em 2010, descobri que talvez estivesse ali uma chance de me aproximar do público com deficiência visual e tentar fazer a vide de muita gente um pouquinho melhor.
As coisas foram acontecendo, acabei me tornando audiodescritor além de pesquisador. Passei a ver que a audiodescrição poderia ser esse elo que eu tanto procurava e passei a realizar projetos que dessem voz às pessoas cegas e com baixa visão.
Eu e minha amiga, Mariana Baierle além dos projetos em AD, fizemos o documentário Olhares em 2012, retratando o acesso – ou a falta dele - a cultura por pessoas com deficiência visual..
O Olhares foi uma das coisas mais importantes que eu já fiz na vida. Por mais que as condições do filme não sejam as melhores, nós conseguimos tocar o coração de muita gente, pais de crianças com deficiência que nos procuram e dizem que não mais irão ver seus filhos com as lentes da comiseração e da culpa, por exemplo. Nos fez conhecer gente bacana de Salvador a Porto Alegre.
Por conta do nosso trabalho no Olhares e na Tagarellas Audiodescrição fomos chamados a participar de alguns eventos no Rio Grande do Sul. Um deles, em um município da região metropolitana de Porto Alegre, em que debatemos sobre AD em um seminário de acessibilidade.
Eu sempre gosto desses eventos por conhecer gente legal e interessada no tema, além de fazer amigos cegos e com baixa visão. Por isso mesmo, nós sempre procuramos conversar o máximo que podemos com os colegas de evento, passar um pouco da nossa vida, dividir experiências e levar uma mensagem de otimismo para todos.
Poucas semanas depois, fomos convidados desse mesmo município para apresentar o Olhares num evento literário na cidade. Muitos amigos que estiveram no seminário dias antes, também estavam presentes, e fizemos questão de chegar bem antes da exibição do filme para compartilhar ideias, conversar e conviver um pouco com nossos novos amigos.
O que sempre procuramos levar de bom é a experiência de fazer da acessibilidade uma possibilidade de acolher e aproximar pessoas. Mais que construir rampas e pisos táteis, nosso objetivo sempre é fazer as pessoas serem tocadas, e fazer com que esses encontros sejam momentos felizes e de congraçamento. Afinal, não há inclusão sem acolhimento! E isso eu direi sempre.
Essa semana soube de uma história que fez valer a pena toda minha persistência, todas as vezes em que fui adiante mesmo sofrendo com aquela sensação de desalento que contei no inicio. Conhecemos um jovem nesses dois eventos na cidade referida antes, muito simpático e interessado pelo nosso trabalho.
Também pelo fato de ser cego teve dificuldades no acesso à cultura – exatamente como nós – e ficou encantado com a AD e suas possibilidades, além de ficar muito entusiasmado em conhecer eu e Mariana que - às vezes contra nossa vontade – somos tidos como exemplos de conduta diante da deficiência, por termos mestrado, profissões consolidadas e levarmos adiante muitos projetos, e não tratarmos a baixa visão como um impeditivo, mas como mais uma característica que nos constitui.
Por mais que não desejemos ser exemplos, muitas vezes, as pessoas se dão conta de que se a gente conseguiu elas também podem tentar. 
Conheci os detalhes que relato a seguir através de uma amiga que temos em comum e que me contou essa história, que confesso ter dificuldade em escrever de tanto que me tocou.
Seja como for, uma chama se acendeu no coração desse nosso amigo, e durante alguns meses ele pode desfrutar de uma alegria ainda maior, se interessou por muito mais coisas, viu a vida com muito mais beleza e felicidade. Passou a buscar novas possibilidades de conhecimento e de entretenimento. Saiu mais de casa, conheceu outras pessoas. Enfim, se tornou um cara ainda mais feliz.
Ele se interessou por audiodescrição e começou a assistir a filmes, ir a eventos e a ter vontade de trabalhar com esse recurso também. Mas o que importa aqui é que esse amigo mudou sua vida, ampliou seus horizontes e isso lhe fez muito bem. Sempre falou em mim e na Mariana com afeto, o que sempre é uma alegria para nós dois quando as pessoas se sentem bem com o que a gente tenta transmitir.
A parte mais chata da história foi quando a minha amiga que relatou esses fatos, disse que o rapaz em questão teve um problema sério de saúde e estava no hospital em condições bem complicadas e em quadro considerado irreversível. Enquanto escrevia a primeira versão desse texto, soube que ele nos deixou sem que tivesse a chance de pelo menos ouvir o que eu escrevi. Coisas da vida... 
Confesso que no dia em que tomei conhecimento da história, tive dificuldade em continuar a aula que estava ministrando naquele dia, pois aquilo me tocou muito, muito fundo mesmo.
Pelo que a minha amiga continuou contando, ele estava vivendo os melhores dias de sua vida, os mais alegres pelo menos, depois que teve contato com a audiodescrição, com nosso trabalho e com nossa amizade. Por isso, digo a ele, amigos e familiares que esse caso representou muito na minha vida, pois foi a sensação de recompensa por todo o esforço e dificuldades que eu tive. Eu sempre disse que se eu conseguisse ajudar uma pessoa que fosse tudo já teria valido a pena. E valeu! O que vier daqui em diante é lucro.
Claro que eu sou profissional e gostaria que a acessibilidade me desse mais do que satisfação pessoal. Mas, nenhum cachê que eu receba será maior do que saber que alguém ficou um pouco mais feliz e que de alguma forma refez uma parte de sua vida por nossa causa. Foi pensando nisso que entrei no mundo da acessibilidade, tentar melhorar a vida das pessoas com deficiência. Ao descobrir que consegui um pouco disso, me sinto com a missão cumprida, e com desejo e força para seguir adiante e lutar para que mais e mais pessoas se sintam como eu.
Muitos poderão achar que seis meses de vida alegre é muito pouco, mas tem gente que vive mais de cem e nunca esteve frente a frente com a felicidade. Mesmo um segundo vivido com sorriso é melhor que uma existência fria. Não me sinto herói por ter ajudado esse amigo e de alguma forma contribuir para que ele tenha partido em paz, mas sei que fiz a minha parte colocando um tijolinho na ponte da felicidade.
Não quero terminar esse texto com tristeza, embora seja assim que eu me sinta ao escreve-lo. Gostaria de propor a troca da tristeza pela esperança, de que a acessibilidade possa chegar a muito mais gente, que ela possa fazer a vida de outras tantas pessoas um pouquinho melhor. Tenho esperanças que ao invés de muros, construiremos pontes, ao invés de olhares enviesados e de preconceito, trocaremos olhares fraternos e abraços acolhedores.
Tenho a plena certeza de que com muita luta e alegria em fazer as coisas a gente atinge esse objetivo. Até porque, quando um dia eu reencontrar esse meu amigo, eu possa abraçá-lo e dizer: cara nossa luta não foi em vão, ela valeu muito a pena!

quarta-feira, 27 de março de 2013

Superação, não obrigado!

Não estou aqui para julgar comportamentos individualizados, ou mesmo para determinar o que é ou não o correto. Não me considero dono da verdade, mas um sujeito que procura ver as coisas sempre por um ponto de vista diferente. Mas, não sou dos que esconde as próprias opiniões, sou dos que se responsabiliza por todas elas. Começo dizendo isso por saber que muita gente vai discordar do que escreverei abaixo, inclusive pessoas muito próximas a mim, mas... estamos aqui é para provocar e não para concordar.
Muito por conta do políticamente correto e de suas nocivas influências na sociedade, associado a uma inegável boa vontade da maioria das pessoas em exaltar um ato considerado grandioso de alguém com deficiência - pode ocorrer em outras minorias também, mas me refiro a esse grupo em específico -, lançammão do surrado clichê da superação.
O principal significado da palavra remete a uma ideia de ir além daquilo que se espera, de ultrapassar limites impostos por uma ou mais condições, de inferioridade, que acabam por ser vencidas. Assim temos um desenho mais ou menos claro do que significa a tão decantada superação. Permitndo-nos ter uma noção daquilo que se atribui aos que são "premiados" com esse sentimento e com esse termo.
Estou aqui refletindo sobre algo que vivencio cotidianamente, poderia mesmo falar sobre outras pessoas, pois como pesquisador me vejo com propriedade para tecer comentários sobre um panorama mais ou menos estabelecido como padrão. Contudo, permanecerei usando exemplos que me dizem respeito ou que são comuns para a maioria das pessoas com deficiência.
Quando conseguimos coisas até corriqueiras ou tidas como nem tão dificeis para pessoas consideradas normais, tais como ter um emprego, passar no vestibular, ser aprovado numa seleção de mestrado ou doutorado, ter sucesso profissional, ser um sujeito talentoso naquilo que faz e outras tantas coisas. Seja como for, o sucesso de cada um de nós é sempre motivo de alegria e satisfação acima da média para muitas pessoas.
Muita, mas muita gente, ao invés de elogiar alguém com deficiência por sua capacidade, por seu talento, por sua dedicação, disciplina e outras caracteristicas que de fato são dignas de menção com honra, preferem privilegiar a "superação do problema". Fazem isso como se a deficiência fosse um impeditivo ou um impecilio para muitos de nós. De fato é, mas será que a defici~encia deve sempre estar a frente do sujeito?
Eu por exemplo, só estudo doutorado em Educação, não apesar da deficiência visual, mas sim, por causa dela. Ou seja a baixa visão me fez ter vontade, estimulo e interesse pelos estudos nesse campo, e por isso não a vejo como inimiga mas como principal responsável pelo patamar que ocupo.
Dificuldades e mazelas que tornam nossas trajetórias sempre mais dificeis do que se poderia desejar são parte de todas as pessoas, cada uma com as suas situações que devem ultrapassar ou os fardos que tem a carregar. Oras, se a vida fosse fácil seria muito chata e careta. Ninguém alcança o cume de uma montanha  sem esbarrar nas pedras no meio do caminho. E, por caso, a maior parte dessas pessoas recebem o "troféu Superação"? Não.
Para muitas pessoas com deficiência essa história de ser exaltado como alguém que superou seus limites é algo benéfico, que aumenta a autoestima e traz uma agradável sensação de inclusão e aceitação. O que fico me perguntando é se tanto as pessoas com deficiência quanto aquelas que "exaltam" a superação já pararam para pensar a questão por outra perspectiva, essa bem menos doce e "polianica".
A maioria das representações e estereótipos que circulam sobre as pessoas com deficiência dizem respeito a sua incapacidade, ou a um "problema" que limita a expectativa de muita gente sobre nós. Será que as pessoas acham que a gente tem que ficar em casa trancado esperando a banda passar? Ou será que duvidam que possamos conseguir coisas maiores do que saber ler e escrever? Fato é que ainda existe uma expectativa muito baixa diante dos resultados que podemos atingir, e isso faz com que até uma mínima conquista de objetivo se torne motivo para um desmedido carnaval da superação.
Lembrem-se de uma coisa singela, supera-se aquele que vai além dos limites esperados, de quem se considera que pode fazer pouco ou nada. A superação está no olhar daquele que faz a afirmação e não na percepção daquele que o fez. Eu nunca direi que uma pessoa com deficiência se superou, seja lá o que ela tenha feito, sabem por qual motivo? É que eu nunca espero menos ou sou descrente do potencial que nós podemos ter. Eu nunca duvido que alguém com deficiência possa chegar onde deseja, afinal, eu sempre acredito no talento e na qualidade desses individuos.
Por outro lado, a superação é também uma retórica da pseudoinclusão que temos por ai...  eu digo que alguém se supera pois não espero nada da pessoa, por consequência, estou dizendo também que a deficiência é um obstáculo a ser vencido e não uma caracteristica do sujeito, é algo que deve ser escamoteado ao máximo, para que pareça normal.
Quando as pessoas dizem que eu me superei por estar fazendo doutorado, conscientemente ou não, o que estão dizendo é que APESAR da deficiência eu consegui, e que a minha baixa visão é algo ruim, uma coisa que dificulta minha vida, o que é uma inverdade. Mais ainda, pelo fato de fazer o doutorado, eu "venci" a deficiência e ATÉ  tenho direito de ser considerado um pouco mais perto da normalidade.
Mesmo assim, por mais que possamos nos "superar" sempre ficará impregnada a marca da falta, da incapacidade e da anormalidade em todos nós. Digo isso, pois embora não se admita a superação é também uma forma de dizer que chegamos perto da normalidade fazendo sempre o máximo esforço para tal, mas... nunca chegaremos lá. Seremos sempre os "quase", que quase se tronaram normais de tão bons, os que quase são perfeitos, os que quase são como nós... Eu gosto sempre de usar a figura do café com leite, que é mas não é, que está mas não está. É assim que me sinto em relação a superação.
Não quero des desculpado ou isentado dos meus erros por causa da deficiência, mas quando tiver algum êxito quero que seja pelo meu próprio talento e não que se diga que a baixa visão faz de mim um herói. Não sou um fênomeno, apenas aproveitei as oportunidades que com meu esforço - e alguma qualidade - tive competência para aproveitar.
Não acho que me superei, pois eu sempre acreditei no meu potencial, e sei que posso ir ainda muito mais longe. Mais do que isso, é assim que penso sobre todas as pessoas com deficiência, que elas podem ir muito mais além do que elas mesmas imaginem, afinal, nós temos um pequeno universo a nossa disposição.
 
  

quarta-feira, 20 de março de 2013

saudade, o combustível do amor

Não sei se eu sou como todo mundo, mas sou um saudosista de carteirinha. Não sou do tipo fundamentalista da saudade, que acredita na perenidade daquilo que passou e acha que tudo de antigamente era melhor. Tendo 30 anos, nem sei se meu tempo de vida é suficiente para sentir essa falta de coisas do "antigamente". Muitos amam compulsivamente a saudade e vivem grudados a ela, estragando a relação. Outros se fazem de difícil e lhe dão as costas, esperando aquele abraço apertado por trás... sim, ela adora nos atingir pela retaguarda.
A relação que mantenho com ela é estável e madura, não a sufoco e nem a deixo livre demais, afinal, eu também tenho ciúmes da saudade que sinto, mesmo que ela seja de fato intransferivelmente minha. Dias nublados como esse em que escrevo, me fazem dar mais atenção a ela, pois é nesses momentos em que aparece mais vistosa e arrebatadora.
Lembro das milhares de vidas que não vivi, das situações que deixei para trás sem ter tentado ou mesmo das vezes em que desejei viver a vida de outrem. Às vezes fico pensando como seria se eu fosse um caretão? e se eu fosse hippie? e se eu fosse mulher? como seria minha vida se eu vivesse no Turcomenistão? eu escreveria melhor se fosse infeliz? Sinto saudade das pessoas com quem nunca me relacionei diretamente ou dos amigos que poderia ter feito.
Sinto uma profunda saudade da minha adolescência onde o objetivo principal é que o dia de amanha fosse mais divertido que o de hoje, e que o de ontem tivesse sido irrelevante perto do atual. Dessa época sinto falta do guaraná - via de regra batizado com caninha - com Milhopan que a gente comia nos dias em que ia jogar bola e botar conversa fora por ai. Sinto falta dos planos que tracei o único que atingi - e por caminhos diferentes do que imaginei - foi a felicidade. Lembro exatamente a sensação de desejar que o mundo parasse nos instantes em que eu me divertia com os meus amigos como se não houvesse amanhã.
Sinto muita saudade dos amigos que ficaram pelo caminho, alguns que já viraram estrelas e que brilham lá no céu como que me afagando e aplacando a dor da ausência ou confortando nos momentos difíceis. Perdura em mim a saudade dos abraços que a timidez me impediu, dos beijos que não roubei e das vezes em que calei quando devia ter dito que amava.
Nos momentos mais difíceis é que o passado nos inunda, no meu caso, não como melancolia, mas como uma mola propulsora em que ao me lembrar de tudo que passei e hoje estou aqui lépido e faceiro, logo me dou conta de que nada que me aconteça pode ser pior. Seja como for, as coisas sempre acabam se resolvendo da melhor forma. Devo agradecer a saudade por ter me proporcionado a grande maioria dos contos e poesias que escrevi, sejam os já publicados aqui no blog ou aqueles que queimei quando tinha 15 anos achando que nenhum deles fazia sentido.
A ausência nos faz ver o quão importante determinada pessoa é em nossa vida, e por mais que tenha defeitos, sua presença é absolutamente indispensável. Assim,  descobri que a saudade é o mais potente e eficaz combustível para o amor.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Audiodescritor em Foco - Entrevista com Josélia Neves


Josélia Neves é licenciada em Línguas e Literaturas modernas (português-inglês) pela Universidade do Porto; tem um mestrado em Estudos Ingleses pela Universidade de Aveiro; doutora em Estudos de Tradução, pela Universidade de Surrey Roehampton, em Londres.
É professora convidada na Universidade de Coimbra, nos Cursos de Mestrado e de Doutorado em Estudos de Tradução. Atua tanbém em cursos de Mestrado e de Doutorado em várias universidades estrangeiras.
Desde 2000, desenvolve projetos na área da comunicação acessível. Assumindo as soluções para públicos de pessoas com deficiência e surdos numa perspectiva inclusiva.
Publicou dois guias práticos para a criação de materiais acessíveis: Vozes que se Vêem: guia de legendagem para surdos e  Imagens que se ouvem: guia de Audiodescrição 



1 - Como você se tornou audiodescritor? Que importância a audiodescrição tem na sua vida?
Josélia - Conheci a audiodescrição (AD) numa conferência em Londres em 2004. Nesse mesmo ano fiz o primeiro de 6 cursos sobre Audiodescrição, todos com profissionais diferentes em diferentes países do mundo. Em Portugal, a AD era novidade, então propus-me trazê-la para o país. Simultanemante apareciam na televisão por cabo em Portugal e na Rádio Telvisão Portuguesa (RTP) os primeiros ensaios em território português pela mão de profissionais do teatro e guionismo convencional. Passei então a trabalhar com AD em DVD, espetáculos ao vivo e museus.
Hoje a AD faz parte da minha vida enquanto professora de tradução audiovisual, enquanto investigadora em comunicação inclusiva e enquanto cidadã empenhada em criar condições de acesso para pessoas com deficiência sensorial.
 
2 – Na sua opinião, o que a AD representa para seus usuários? O que pode provocar na vida dessas pessoas?
Josélia - A AD é absolutamente fundamental para quem é cego; é muito útil para quem tem baixa visão; e é estimulante para quem vê. Em suma, interessa a todos. O grau de importância varia consoante as vivências de cada um, pois mesmo para fruir de AD é preciso aprender a “ouvir”.
 
3 – Quais as maiores dificuldades e quais as maiores alegrias em ser audiodescritor?
Josélia - Em Portugal a maior dificuldade está na pouca oferta, ou pouca requisição de serviços. Seria bom poder trabalhar mais na área.
As maiores alegrias: sempre que vejo pessoas a fruir do meu trabalho, a alegria é imensa. Fico particularmente feliz quando são os jovens a “ver” através das minhas palavras. Aí, dou graças ao universo por fazer parte deste mundo admirável em que se consegue ver através das palavras ditas.
 
4 - Você concorda com a ideia de que a AD, mais do que informar, deve proporcionar que o usuário usufrua e sinta as sensações do que é descrito?Você acredita que a audiodescrição além de um recurso de acessibilidade seja também uma produção cultural?
Josélia - Sou totalmente a favor da audiodescrição expressiva. Aliás, procuro sempre adequar a minha AD ao estilo do original… se o produto é informativo, procuro criar uma AD meramente informativa, mas é na AD expressiva que eu me revejo, na partilha do ato criativo com o autor da obra original, proporcionando à pessoa cega um momento de deleite estético se é esse o objetivo do original. Isto é particularmente verdade na descrição de obras de arte – sejam elas pintura, fotografia, teatro, bailado, ou filmes de autor.
 
5 – O mundo está cada vez mais visual, e se levarmos em conta que a visualidade é a matéria-prima da audiodescrição, ainda há muito a ser explorado nesse campo. Junto a isso, temos a ampliação e difusão dos produtos e políticas culturais para acessibilidade por parte dos governos e da sociedade civil. Diante desse cenário, quais desafios você acha que devem ser enfrentados para expandir a audiodescrição, tanto em quantidade como em qualidade?
Josélia - A fim de melhorar a oferta há que trabalhar em vários domínios:
1)    Na formação dos audiodescritores. Para ser audiodescritor não basta ter jeito. Há que adquirir conhecimentos sobre composição fílima, a semiótica da imagem estática e em movimento; há que desenvolver competências de escrita criativa; há que trabalhar noções musicais e de ritmo; e no caso da AD ao vivo há que trabalhar a colocação de voz, o ritmo, cadência e dicção. Para além desta formação técnica o audiodescritor tem de compreender a psicofisiologia da cegueira e da baixa visão para poder servir efetivamente este grupo de pessoas.
2)    Há também necessidade de sensibilizar os promotores/a oferta. Os promotores de ações culturais ainda não estão sensibilizados para a oferta sistemática e generalizada deste serviço em todas as esferas da vida quotidiana, e particularmente em contexto educacional e cultural.
3)    Finalmente, há que educação a população em geral, e as pessoas cegas ou com baixa visão em particular. Há muitas pessoas que ainda desconhecem a existência da AD e tantas outras que têm dificuldade em acompanhar o serviço. Como em tudo é preciso conhecer para fruir e para exigir mais quantidade e melhor qualidade. Para conhecer é preciso usar.
 
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Entrevista: Felipe Leão Mianes
 

domingo, 3 de março de 2013

O fabuloso milagre da audiodescrição

Há quem tenha um sonho e não corra atras dele. Há quem tenha um sonho e passe uma vida inteira perseguindo-o e não alcance. Outros ainda, o realizam apenas no fim da vida. Pois é, eu posso dizer que sou um sujeito de sorte, pois antes de chegar na metade da minha trajetória eu realizei um dos meus tantos sonhos,
Quando eu era adolescente a parte mais chata do fim de semana era ir ao cinema. Meus amigos gostavam disso, assistir aos lançamentos, aos filmes que todos falavam ou apenas para ter um pretexto e sair. Essas eram as ocasiões que mais me causavam tédio e sofrimento. Acho que até agora muito pouca gente sabe disso, mas eu sofria muito quanto tinha que ir ao cinema. Dizer que não entendeu o filme porque não enxergou nada, "fora de cogitação", então eu era obrigado a fingir que tinha entendido, fazer de conta que eu compreendera tudinho, a quem eu iludia?
Isso me causava uma profunda sensação de exclusão, me sentia como se o mundo estivesse virado de costas para mim, ainda mais que eu gosto muito da arte cinematográfica. Sofrer calado talvez doa mais do que contar a todos, mas fato é que sempre que o pessoal decidia ir, eu me divertia sempre antes e depois do filme, mas durante, era um imenso poço sem fundo em que eu caia.
Depois de meus vinte e poucos anos, me inseri na pesquisa sobre deficiência visual e passei a notar que eu deveria era mostrar que o cinema é uma arte que exclui, que nós não temos acesso e que algo deveria mudar para que eu e outras tantas pessoas tivessem a chance de ter acessibilidade. Minha mudança de postura e de encarar a deficiência de frente me deu força para tentar fazer com que nenhuma criança, jovem ou idoso com deficiência visual derramasse as mesmas lágrimas que eu diante daquela tristeza excludente, mas, por onde começar?
Sempre achei que um dia, quem sabe, acontecesse algo que não me deixasse mais sentir isso, alguma tecnologia, alguma forma difeente ou mesmo que um milagre ocorresse. Eu comecei a acreditar em milagres quando conheci a audiodescrição. Descobri que havia uma saida e que era sim possível se divertir e se emocionar no cinema.
Como todos sabem, a audiodescrição mudou a minha vida para melhor, já falei muito disso. mais ainda, me tornar audiodescritor é como fazer a minha parte ativamente para processar essas mudança e dar esse acesso que antes eu não tinha. Eu sou fascinado por essa função que exerço, eu sou até uma pessoa mil vezes melhor devido a audiodescrição. Mais ainda, trabalhar na Tagarellas é um presente que a vida me deu, pois além de colegas, eu ganhei amigos.
Mas o que eu gostaria de comentar aqui é que toda a tristeza que sentia outrora, pude transformar em alegria ontem na sessão com audiodescrição de Colegas - o Filme. Eu sonhava que isso um dia pudesse acontecer, ir assistir a um filme no fim de semana de estreia, com muitos amigos e ainda entender e me emocionar com tudo. Esse é o fabuloso milagre da audiodescrição.
A sala estava lotada com umas 200 pessoas, a maioria com alguma deficiência e usando os fones de ouvido através dos quais se podia ouvir a audiodescrição. Antes do filme, começamos a conversar com as pessoas e notar que elas estavam muito empolgadas e ansiosas antes da sessão, nesse caso sabiam que poderiam entender e se emocionar com tudo.
E foi o que aconteceu!! Embora eu conhecesse cada diálogo do Colegas, pois junto com a Mariana Baierle fiz a consultoria da AD, fui me sentar e aproveitar o filme. Perto de mim, alguns adolescentes com suas bengalas e fones de ouvido. Quando a projeção começou e aquela galera começou a vibrar com a AD, além daquela profunda alegria pelo dever cumprido, eu me lembrei do meu passado. Deixar as lágrimas correrem foi a única alternativa, pois eu percebi que milagres acontecem, sonhos se realizam e que aquele choro - o mesmo que está molhando o teclado agora enquanto escrevo - eram de uma doce sensação de redenção, de saber que daqui a um tempo ninguém mais vai passar por essas dificuldades e exclusões.
NUNCA em Porto Alegre houve tanta gente com deficiência desfrutando de AD. Além disso, tivemos a chance de contar com a presença do diretor de Colegas, Marcelo Galvão, do produtor Marçal Souza e dos queridos atores Ariel Goldenberg e Rita Pokk. Além de tudo, a audiodescrição se tornou um ponto de encontro para novos e antigos amigos com deficiência, que juntos se divertiram e se emocionaram tanto com o filme quanto com o papo com a equipe de Colegas. Muitos deles puderam perceber que ao contrário do que poderiam imaginar, sempre é possível chegar mais longe.
Mais que isso, ter audiodescrição num fim de semana de estreia é lindo, agora, numa sala comercial de um shopping muito conhecido da cidade é mesmo a realização de um sonho. A sessão não foi numa sala escondida, e sim no coração da cidade, para que todo mundo veja que a gente existe, que a AD existe, e que a gente vai ao shopping, basta ser acessível. Aqui devo mencionar o Shopping Bourbon, que nos cedeu o espaço e um grande apoio para a realização desse grande evento.
Iremos trabalhar com muito afinco e dedicação para que essa seja a primeira de tantas sessões com audiodescrição em salas comerciais. Cabe a cada um de nós cobrar para que mais ocasiões como essa aconteçam.
Tenho que mencionar quem tornou isso possível: Bourbon Shopping (e sua equipe competentissíma), Itaú Cinemas, Gatacine, Europa Filmes, Óptica Luis Henrique, Tesch Transporte Executivo, Dado Bier Bourbon Country,  Fernando Waschburger, A2 Sistemas Audiovisuais, Guilherme Oliveira Silva, O Som da Luz, Acergs e Radioativa Produtora
Por fim, gostaria de dizer que as vezes a gente acha que a revolução está muito longe do nosso alcance, ou que seja impossível de fazer algo. Mas, se a gente se der conta de que pequenos atos simples podem processar revoluções seculares, talvez note que a revolução está sendo feita. A audiodescrição é mais do que tradução visual, mais do que recurso de acessibilidade, ela é sim, o instrumento pelo qual fazemos essa revolução cujos resultados são os sorrisos e as lágrimas de quem pela primeira vez foi ao cinema e se emocionou com o que ouviu. Hei de estar firme e forte para ver que isso se tornará parte de nosso cotidiano!

Foto com parte do elenco do filme (Marcelo Galvão, Rita Pokk, Ariel Goldenberg e Marçal Souza), com o pessoal do Bourbon, com a turma da Tagarellas e com minha sempre amada esposa Pátrícia. (Não, não está na ordem da foto).

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

INÉDITO: Filme Colegas tem estreia com audiodescrição em Porto Alegre/RS


INÉDITO: Filme Colegas tem estreia com audiodescrição em Porto Alegre/RS
Pessoas cegas ou com baixa visão assistirão ao longa-metragem no dia 2 de março, no Espaço Itaú do Bourbon Country, com entrada franca e presença do elenco e equipe
O multipremiado longa-metragem Colegas, que estreia dia 1º de março, terá sessão acessível a pessoas com deficiência visual em Porto Alegre/RS, no dia 2, sábado, com entrada franca e presença de parte do elenco. A exibição está marcada para as 9h30, na Sala 2 do Espaço Itaú, no Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80 – atrás do Shopping Iguatemi), com distribuição gratuita de combos com pipoca e refrigerante. A produção é da Tagarellas Audiodescrição, com patrocínio da Óptica LH e apoio do Bourbon Shopping, Espaço Itaú, Europa Filmes, Radioativa Produtora, Som da Luz e Gatacine. Os ingressos são limitados e a reserva deve ser feita antecipadamente pelo e-mail tagarellasproducoes@gmail.com ou pelos fones (51) 3384 1851 e (51) 8451 2115. A preferência é para pessoas com deficiência visual e acompanhantes. Demais interessados terão seu ingresso condicionado à lotação da sala.
Porto Alegre é a única capital que ganhará uma sessão acessível de Colegas no final de semana da estreia do filme. E, pela primeira vez no Rio Grande do Sul, um longa-metragem estreante será exibido em uma sala comercial com audiodescrição. O recurso permite o acesso às informações visuais a pessoas cegas e com baixa visão, além de beneficiar idosos e pessoas com Síndrome de Down, deficiência intelectual, problemas neurológicos e dificuldade de memorização. Os fones de ouvido serão distribuídos a partir das 9h30 e a audiodescrição inicia-se às 9h45, para detalhar antecipadamente as características da sala de exibição, personagens e cenários. Depois do filme, que dura aproximadamente 90 minutos, o diretor e roteirista Marcelo Galvão, o produtor Marçal Souza e os atores Ariel Goldenberg e Rita Pokk conversarão com o público até as 12h.
Colegas, produzido pela paulistana Gatacine, conta de modo poético e divertido a história de três personagens com Síndrome de Down. Inspirados pelo filme Thelma & Louise, eles fogem do instituto onde vivem, em busca de seus sonhos: Stallone deseja ver o mar, Aninha quer casar e Márcio precisa voar. Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola e boa parte do elenco de apoio têm Síndrome de Down. Colegas foi premiado nos festivais de Gramado, Paulínia e Trieste, na Itália, e também na Mostra Internacional de São Paulo e no Greaking Down Barriers Moscow, na Rússia. Integrou, como hors-concours, a Mostra do Rio e foi escolhido como filme de abertura do Amazonas Film Festival e do Annual Red Rock Film Festival Utah.
#VemSeanPenn
Lançada no início de fevereiro, a campanha #VemSeanPenn faz o maior sucesso nas redes sociais, graças às milhares de pessoas que aderiram à causa de ajudar Ariel Goldenberg a realizar um sonho: conhecer seu ídolo, o ator Sean Penn, na estreia do filme Colegas, em 1º de março, no dia anterior à sessão acessível em Porto Alegre/RS. Aconteça o que acontecer, o vídeo já soma mais de 1,3 milhão de visualizações, entrou para os trending topics do Twitter no Brasil e é fenômeno de compartilhamentos no Facebook.
 
FICHA TÉCNICA DA ESTREIA DE COLEGAS COM AUDIODESCRIÇÃO EM PORTO ALEGRE/RS
Produção: Tagarellas Audiodescrição.
Roteiro: Kemi Oshiro, Marcia Caspary e Mimi Aragón.
Consultoria: Felipe Mianes e Mariana Baierle.
Narração: Marcia Caspary.
Supervisão: Lívia Motta.
Equipamento: A2 Sistemas Audiovisuais.
Montagem do trailler com audiodescrição: Bernardo Garcez.
Patrocínio: Óptica LH | (51) 3221 8605 e (51) 9814 0854 |
luisbasso@terra.com.br (mais informações: http://www.portoalegrequemdiria.com.br/2012/09/19/consultoria-de-oculos-com-hora-marcada/ e http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/donna/noticia/2013/02/o-que-ha-por-tras-da-paixao-em-usar-oculos-de-grau-4031057.html)
Apoio: Bourbon Shopping, Espaço Itaú, Europa Filmes, Radioativa Produtora, Som da Luz e Gatacine.


SERVIÇO
. Estreia do filme Colegas com audiodescrição ao vivo em Porto Alegre/RS.
. 2 de março (sábado), a partir das 9h30, com ingresso e combo (pipoca e refrigerante) grátis.
. Sala 2 do Espaço Itaú, no Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80 – atrás do Shopping Iguatemi).
. Ingressos limitados. É indispensável a reserva antecipada pelo e-mail
tagarellasproducoes@gmail.com ou pelos fones (51) 3384 1851 e (51) 8451.2115.
. Trailler com audiodescrição:
http://youtu.be/M3c1joyTWgc
. #vemseanpenn (sem audiodescrição):
http://youtu.be/bHNTPdy0CIM

CONTATO
Tagarellas Audiodescrição
tagarellasproducoes@gmail.com
(51) 8451.2115 e (51) 8118 9814

 (início da descrição do poster)
O poster do filme é vertical e foi criado sobre uma fotografia colorida. O texto, em letras brancas, está centralizado na metade superior da imagem, toda preenchida pelo céu azul turquesa de um dia ensolarado. Na metade de baixo, três jovens com Síndrome de Down – uma garota e dois garotos – viajam, sorridentes e livres, de braços abertos, em um conversível vermelho visto de frente. Atrás deles, ao fundo, a estrada faz uma curva em meio à vegetação. Mais ao longe, montanhas escuras contrastam com uma camada de nuvens azuladas. À esquerda, na carona do conversível, a garota olha para a frente. Ela usa chapéu dourado e blusa lilás. A seu lado, à direita da foto, o motorista tem só a mão direita no volante. Ele usa turbante brilhoso com penacho e um colete dourado. No encosto do banco traseiro, o terceiro jovem olha para cima de olhos fechados. Ele veste roupa azul, capacete, luvas, sunga e botas amarelas. Um cão preto e peludo viaja junto dele. Logo abaixo da foto, em uma barra preta, as logomarcas dos realizadores e os endereços de dois sites sobre o filme.
Gatacine, Petrobras, Invest Image, Caixa Seguros, Sabesp, Polo Cinematográfico de Paulínia, AkzoNobel, Neoenergia e Europa Filmes apresentam:
Colegas. A comédia mais divertida do ano.

. Melhor Filme – Melhor Direção de Arte – Prêmio Especial do Júri – 40º Festival de Gramado 2012.
. Melhor Filme Brasileiro – Prêmio da Juventude – Prêmio do Público – 36ª Mostra Internacional de São Paulo.
. Premio Del Pubblico – XXVII Festival de Cinema Latino Americano di Trieste (Itália) 2012.
. Melhor Filme 6th Greaking Down Barriers Moscow (Rússia) 2012.
. Melhor Roteiro – 1º Festival de Paulínia – 2008.
. Seleção Oficial Festival do Rio Hors-Concours 2012.
. Filme de Abertura 9º Amazonas Film Festival 2012.
. Opening Night Film 6th Annual red Rock Film Festival Utah (USA) 2012.


Um filme de Marcelo Galvão. Estrelando: Ariel Goldenberg, Rita Pokk, Breno Viola, Lima Duarte, Leonardo Miggiorin, Deto Montenegro, Rui Unas, Juliana Didone, Marco Luque, Maytê Piragibe, Nill Marcondes, Otávio Mesquita, Theo Werneck, Christiano Cochrane, Daniele Valente, Daniela Galli, Oswaldo Lot, Anna Ludmila, Germano Pereira, Theodoro Cochrane, J. Peron, Amélia Bittencourt, Giulia Merigo, Carlos Miola, Thogun. Trilha Sonora: Ed Côrtes. Direção de Som: Martin Grignaschi. Direção de Arte: Zenor Ribas. Figurino: Kiki Orona. Direção de Fotografia: Rodrigo Tavares. Montagem: Marcelo Galvão. Finalização de Som: La Burbuja Sonido. Produção: Gatacine. Produtor: Marcelo Galvão. Produtor Associado: Otávio Mesquita. Produção Executiva: Marçal Souza. Distribuição: Europa Filmes. Roteiro e direção: Marcelo Galvão.

Apresentadores: Lei do Audiovisual Ancine – Agência Nacional do Cinema, Lei de Incentivo à Cultura Ancine – Agência Nacional do Cinema, Governo do Estado de São Paulo – Secretaria da Cultura, ProAc – Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, Governo Federal – Brasil – País Rico é País Sem Pobreza, BR Petrobras, Investimage 1 Funcine, Caixa Seguros, Sabesp, Polo Cinematográfico de Paulínia, AkzoNobel – Tomorrow’s Answers Today, Neoenergia, Gatacine Produções. Patrocínio: Net – O Mundo é dos Nets, KSB, CVC. Distribuição: Europa Filmes. Apoio: Docol Metais Sanitários, EATON – Powering Business Worldwide, Libbs, Locaweb, Ferro+, DaTerra Sustainable Coffe, Senac São Paulo, ArtCenter – Tecnologia em Impressão, Burti.

http://www.gatacine.com.br – http://www.facebook.com

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Infelicidades entrelaçadas

         Sempre detestei viagens de negócios, pois tenho alguma dificuldade em lidar com ambientes desconhecidos. Pior que isso, é ter que passar a noite trancafiado em um quarto de hotel. Ainda mais para um homem solteiro e bem apessoado como eu, que poderia estar em tantos outros lugares e em companhias mais interessantes.
         Naquela noite eu estava especialmente inquieto e resolvi descer até a recepção, onde prontamente uma moça muito gentil veio me atender, mas pedi para conversar com um funcionário homem, já que só assim eu poderia obter as informações que desejava sem qual quer tipo de constrangimento. Então, perguntei a ele onde eu poderia sair e ouvir boa música e se possível até, ter uma “companhia”. O sujeito foi muito prestativo e me indicou em detalhes como fazer para chegar ao local recomendado, parecendo ser um frequentador assíduo do estabelecimento.
         O trajeto foi rápido e por isso acho que o taxista foi honesto comigo – o que no meu caso não costuma ser comum. Inclusive fez questão de me deixar na porta da casa noturna sem fazer questionamentos estapafúrdios, o que é ainda melhor. Dali já se podia ouvir o barulho e o odor estimulante da diversão sem limites.
         Quando entrei no recinto, percebi que não estava lotado, e também era como se todas as pessoas estivessem olhando para mim, talvez porque não fosse muito comum ver alguém como eu por ali. Entre uma dose e outra de whisky, um garçom me ajudou a encontrar aquela companhia que eu tanto queria.
         Dentre tantas possibilidades, me apresentou uma mulher que parecia ser jovem, embora fora um pouco reticente quando apresentada a mim. Fiz a minha parte e lhe ofereci uma bebida enquanto me contava que se chamava Carla e que tinha 31 anos. Exceto pela idade, sabia que estava contando uma série de pequenas e grandes mentiras, parecendo cada vez mais embaraçada com uma situação que para ela deveria ser corriqueira.
         Então, paguei para ver – literalmente – onde iria dar tudo aquilo, que também me deixava um pouco assustado, aturdido e excitado. Era como se eu estivesse em meio a uma enxurrada de lembranças agridoces. Resolvi fazer um teste final, e lhe ofereci um cigarro com sabor de cereja, que era o seu preferido. Aceitou minha oferta e logo me levou para o quarto demonstrando docilidade e bastante timidez.
        Como sei tudo isso sobre ela? No caminho fui me lembrando com lancinante intensidade de todo amor que devotei a Manuela durante os dez anos em que não tive sequer uma notícia sua. Sim, seu nome verdadeiro era Manuela, e por um bom tempo fomos colegas de faculdade. Mais que isso, éramos muito amigos, e eu seu namorado, mesmo que ela não soubesse. Quando o curso acabou, cada um de nós foi trilhar seu caminho e acabamos perdendo contato, ainda que meu amor crescesse exponencialmente com a saudade. Eu sei que deveria tê-la procurado, mas na época não tive coragem suficiente para sofrer uma rejeição iminente.
         Desde que a conheci me apaixonei por sua bela e sedutora voz, e por uma mulher que parecia ser forte, independente, que dizia e fazia o que tinha vontade, sem se preocupar com as opiniões alheias. Cada semana tinha uma paquera diferente, empilhando relacionamentos na mesma proporção com que me frustrava por nunca ter sido um dos escolhidos.
         Como uma vitrola que arranha o disco, lembrava insistente e cotidianamente das longas conversas que tínhamos sobre as nossas vidas e planejamentos futuros, lembro de sua risada hipnotizante e de suas palavras sempre amargamente doces e de suas mãos pequenas e frias, que muitas vezes mostraram o caminho que eu deveria seguir.
         Fui despertado de meus pensamentos com o barulho da porta se abrindo e da delicada voz de Manuela me pedindo para entrar. O quarto parecia ser bem pequeno embora fosse climatizado e exalasse um perfume de jasmim. Ela me levou até a cama, fechou a porta e foi então que eu não aguentando mais de ansiedade resolvi abrir o jogo e dizer que eu sabia de quem se tratava:
- Agora que estamos só nós dois não precisa mais fingir, Manuela, ou não lembra mais de mim?
- Não sou paga para lembrar, e sim para ajudar a esquecer. Mas não Paulo, eu nunca esqueceria de você.
         Não sei se falava a verdade ou mentia por oficio da profissão. Sentou-se ao meu lado, acariciando a minha coxa e em seguida passou a desabotoar a minha camisa até que eu lhe disse:
- Eu senti muito a tua falta, nem imagina quanto... Não entendo o que te levou a sumir repentinamente. Como você entrou nessa vida?
- Quando a gente se formou eu resolvi dar um tempo em tudo, até em mim mesma. Queria mudar a minha vida, trocar de amigos, de cidade, de profissão até de existência se possível fosse. Infelizmente, como sempre, foi tudo uma sucessão de fracassos ininterruptos, e a uns três anos estou por aqui, pelo menos grana eu tenho.
- Com o valor que eu paguei, tenho certeza que sim... talvez, ganha bem mais do que eu até.
- Você continua o mesmo engraçadinho de sempre. Sabe, às vezes acho que jamais tomei uma decisão acertada, em momento algum sinto essa vida como se fosse realmente minha, e quando eu penso que o sofrimento chegou ao limite, sempre piora um pouco mais.
        Ela começou a chorar como se tivesse represado as palavras e as lágrimas durante os dez anos que ficamos sem nos ver. Também deixei as lágrimas serpentearem o meu rosto, lembrando de todos os dias, meses e anos de intensa solidão, angústia e rejeição que vivi, prendendo em mim um amor que mal cabia no infinito.
        Não importava o que fizesse ou como ela fosse, eu continuava amando-a como quem adora o sol mesmo sem poder tocá-lo. Não houve sequer um dia que não tivesse devotado amor a Manuela, afinal, o amor se alimenta de renúncia e de saudade. Quanto mais falta ela me fazia, mais os sentimentos se intensificavam. Amar é ser mesmo um pouco adorador da tristeza. Quem ama olha nos olhos da dor e sucumbe a ela. Não há quem ame e não sinta prazer no sofrimento que esse sentimento provoca.
         Quando me dei conta, fazia um silencio ensurdecedor no quarto. Enxuguei suas lágrimas, e recordava o bem que me fazia ser apaixonado por ela, mesmo sem nunca ter sido notado. Apesar disso, sempre me ajudou muito a superar os momentos de dificuldade na faculdade, e não foram raros. Durante todo esse tempo, Manuela foi meu ombro amigo e minha estrela-guia.
         Sempre me sentia excluído pelo mundo todo, o que piorava ainda mais cada vez que ela me apresentava um “namorado” novo, e eu sempre ali a disposição para quando e como quisesse, mas talvez por isso mesmo, jamais tive essa oportunidade. Acho que não me declarei por saber que adiar a felicidade e viver de expectativas é mais regozijante do que consumá-las.
         Resolvi romper o silêncio, e como quem tenta curar uma ferida colocando álcool, perguntei:
- Só queria entender porque na época você ficou com quase todos da turma, menos eu?
- Eu sempre tentei encontrar em alguém aquilo que nunca tive, e quanto mais eu tentava pior eu me sentia. E sai com outro, e outro...
- Menos comigo ...
- Eu sempre gostei tanto de você, mas nunca imaginei que gostasse de mim desse jeito, achei que era só uma grande amizade, eu acreditava que ninguém pudesse ter um afeto tão forte assim por mim, ainda mais alguém como você?
          Em um só movimento me levantei e fiquei de costas para ela, dizendo:
- Como assim, alguém como eu?
- Pensando bem, você é a única pessoa que gosta de mim pelo que eu sou e não pelo meu corpo, pelo que eu visto, a única pessoa que pode me dar o que eu preciso, que é amor verdadeiro.
- Não é possível, era algo que parecia tão evidente.
- Eu acho que desconfiava, mas não quis dar um passo em falso e abalar nossa amizade, pois eu não amava nem a mim mesma. Além disso, eu ficava um pouco embaraçada em como lidar contigo e com toda a situação. Mesmo assim, você nunca sequer tentou algo comigo.
           Como eu não havia tentado nada? Pelo jeito ela não reparava bem em mim. Às vezes, até o amor pode fazer emergirem os sentimentos mais cruéis, e as verdades que não deveriam ser ditas, e por isso eu retruquei:
- É claro que eu não podia ter chance, você nem deixava a cama esfriar.
          Manuela levantou com fúria, e depois de um suspiro, em um tom de voz mais alto, repleto de cólera e desolação, disse ao meu ouvido:
- Se isso te deixa mais feliz, eu odeio dar, sempre achei  que seria como me libertar, como me sentir amada e desejada. Mas no fim eu sentia uma insuportável sensação de estar sempre suja. Foi nessa época que aprendi a fingir.
           Juro que tentei não dizer o que eu estava pensando, mas não consegui esconder o sorriso sarcástico, e menos ainda as palavras:
- Como é? Uma puta que não gosta de trepar? Eu pensei que isso não existisse.
          Agora chorando, mais por raiva do que por tristeza, Manuela me agarrou com força pelo colarinho da camisa, encostou o nariz dela no meu, como se quisesse que eu engolisse as palavras que iria me dizer:
- Você pensa que a minha vida é uma merda? Pois ela é mesmo! Só não é pior do que a sua, que vive aprisionada na masmorra do passado, que precisa pagar para ter o que outros tantos conseguiram de graça. E agora, quem é o fodido aqui?
          Competir em crueldade com uma mulher nunca é bom negócio, a gente sempre acaba humilhantemente derrotado. Com alguma dificuldade, ainda me recuperando com a surra de verdades, tirei do bolso um maço de cigarros, pegando um para mim e outro para Manuela. Era um pedido de desculpas que eu prometi que não materializaria em palavras. Acendemos os vagalumes de nicotina sabor cereja, e depois de uma tragada em silêncio eu disse:
- Tá, me desculpa... esqueça o que eu disse, pois não me importa o que te aconteceu esse tempo todo, ainda te amo da mesma maneira. Todos os dias dos namorados, eu comprava uma flor, tirava as pétalas e soprava-a ao vento, para que chegassem até você. Nos dias tristes eu escutava aqueles poemas que gravou para mim. No meio da multidão, meu coração enchia de esperança ao ouvir uma voz parecida com a tua, e logo meu mundo caia na decepção de uma falsa impressão.
          Encontrei um copo cheio de whisky sobre a mesa, e tomei de uma só vez. Dei dois passos para trás, mais aliviado do que tenso. Eu havia ensaiado por dez anos como dizer tudo isso a ela, e de repente foi bem diferente do que imaginei. Na medida em que eu me sentia mais leve, o ambiente foi se tornando até mais acolhedor. Me dei conta que Manuela me fazia cafuné e dizia ter sentido saudade. Por um instante, cheguei a achar que aquelas eram típicas palavras de Carla fazendo seu trabalho. Logo percebi que tudo aquilo não era mecânico ou ensaiado de parte dela, o que me deixou mais tranquilo e confiante.
          Instaurou-se uma atmosfera diferente no recinto, pois embora muitos anos antes Manuela me afagara diversas vezes, naquela hora tudo me pareceu diferente, uma sensação de ternura partilhada por nós dois. Afinal, nossas vidas são entrelaçadas por um tácito pacto de infelicidade, baseado no medo da rejeição e, principalmente, no prazer clandestino de manter viva a chama de um passado que esqueceu de acontecer. Lembranças muito vivas que corroem a carne e nos matam um pouco a cada dia.
          Há coisas que não necessitam ser ditas para serem partilhadas.  Manuela segurou as minhas mãos e me puxou para que também ficasse em pé, me deu um longo e afetuoso abraço. Parecia estar pensando o mesmo que eu, vivendo a dor e o deleite daqueles que sucumbem a si mesmos. Naquele momentos finalmente éramos um casal, unidos pela existência que fenecia ainda em vida.
          Senti algo novo, como se uma sensação estranha de esperança me dominasse, como se no teatro da vida eu tivesse a chance de refazer os roteiros soturnos que marcaram o passado e prescreviam nosso futuro. Era uma oportunidade de fazer tudo de outro modo, dizer o que deveria ser dito, ter coragem de tentar sem temer o fracasso ou esperar reciprocidade, afinal, amar é um ato individual e independente de quem quer que seja.
          Imbuído desse novo espirito que me arrebatava, ao ouvido de Manuela pedi-lhe um beijo, e disse que eu esperava por aquilo diariamente por mais de uma década. Seu longo suspiro e respiração ofegante deixavam claro não só que tudo daria certo, mas que as labaredas do desejo nos consumiam. Com suavidade ela colocou uma de suas mãos em meu rosto, roçando em minha barba, e com a outra me laçou pela cintura. Seus lábios molhados e carnudos tocaram os meus vagarosamente. Nos beijamos longa e apaixonadamente.
          Infindáveis sensações me inundavam a cada instante, flashes desconexos de lembranças que aconteceram e de outras que tinha inventado, além de um completo êxtase físico e mental. Seu beijo tinha gosto de chocolate misturado com batom, e era intenso como meu desejo e frágil como minhas certezas. Fui desbravando seu corpo em alto relevo, como um conquistador que descobre algo que já fora explorado por outros tantos.
          Deitamos na cama e começamos a nos acariciar com bastante desejo e delicadeza, e se é verdade que muitos pagaram para ter esse belo manancial, fui um dos únicos que teve Carla e Manuela ao mesmo tempo. E quando tudo estava ardendo em mim, eis que toca o despertador, avisando que meu tempo havia encerrado. Já era hora de ir embora, pois Carla ainda tinha duas horas de trabalho pela frente. Não preciso nem dizer o tamanho da minha frustração e angústia por possivelmente não ter outra oportunidade dessa novamente. Nem mesmo essa aflição apagou minha alegria por notar que Manuela estava muito decepcionada pelo tempo ter acabado. Foi quando mais uma vez ela me surpreendeu e disse:
- Você é solteiro né? Vi que não tem aliança no dedo.
- Sim sou, mas que tem isso?
- Posso te fazer companhia no hotel? Tem trabalho amanhã?
- Claro que pode, amanhã eu iria embora, mas dou um jeito nisso.
- Vou te levar até o andar de baixo e esperar meia hora aqui, se não aparecer ninguém a gente vai, senão vai demorar um pouco mais.
          Ainda um pouco atônito com a situação, respondi que sim com um movimento de cabeça. Rapidamente descemos e me sentei mais ou menos no lugar onde a havia encontrado. Parecia que mais movimentado do que antes, o que diminuiu minhas esperanças de sair dali em menos de meia hora. Não acreditava naquilo que acontecia, e a maneira com que ao menos uma vez eu estivesse feliz e com sorte. Tive pensamentos que não condiziam com o momento – pessimismo não se perde facilmente.
          Acendi um cigarro para aplacar a ansiedade, mas ela não se dissipou com a fumaça, fiquei imaginando quantos homens teriam pago pelo seu serviço? Seriam eles gordos, magros, feios, cheirosos? Seriam educados ou violentos com ela? Me vi sofrendo com ela nas noites muito movimentadas ou nas humilhações que deve ter passado. Para alguém na minha condição é muito mais fácil voltar-se para dentro de si mesmo, mas apenas o amor é capaz de subverter a hegemonia do ego, e nos faz viver mais no outro do que na gente mesmo.
          Minhas divagações foram abruptamente interrompidas por Manuela que me deu um beijo na orelha e muito animada me disse que poderíamos ir embora. Rapidamente fomos para o hotel, onde transferia a passagem para o dia seguinte, poderíamos fazer do meu quarto um recanto onde o tempo seria esquecido, não havendo passado nem futuro, onde as tristezas e cobranças não estariam presentes. Não estava mais ansioso ou com medo, só tentava viver ao máximo cada instante com Manuela, que me tratava com mais atenção e carinho, com menos amizade e mais paixão.
          Logo pedimos espumante e morangos para aumentar o clima de desejo e o romantismo do momento. Entre muitos beijos e caricias bebemos toda a espumante, e muitas vezes nem usamos as taças ou a garrafa. Manuela tinha muito a me ensinar sobre sua atividade profissional, pude usufruir de sua experiência e de seus equipamentos de trabalho.
          Foram muitas e muitas horas de luxúria, suor e paixão, onde pude realizar quase todas as fantasias que tive com ela desde que a conheci.  Além de saciar minha voracidade carnal, conversamos muito sobre nossas vidas. Senti que nascia em Manuela um sentimento mais forte do que uma afetuosa amizade, o que enchia meu coração de alegria e esperança.
          Quando tivemos que nos despedir não sentia exatamente tristeza, apenas uma pequena saudade, mas eu tinha certeza de que seria não o fim, mas um novo começo para nós dois. E o beijo que trocamos antes da despedida me fez perceber que ficaríamos juntos para sempre. Não demoraria muito estaríamos vivendo juntos, e por mais dificuldades que existissem seriamos simplesmente, felizes.
          Ao voltar para casa, tive que atravessar quase o país todo, além disso, o cansaço e as emoções dos últimos dias consumiram todas as minhas energias. Cheguei em casa, larguei as malas em algum canto e fui dormir rapidamente. Ao acordar tive a sensação de ter voltado de um longo sonho ou de ter dormido quase uma semana. Já havia se passado mais de um dia desde que deixara Manuela, mas era como se estivesse todo esse tempo comigo.
          Tomei um café rápido, pois deixei muito trabalho acumulado. Entrei no meu computador e fui verificar meus e-mails quando notei que tinha uma mensagem dela. Tive a certeza de que sua saudade foi ainda maior do que a minha. Deixei a mensagem dela por último só para alimentar a expectativa. Depois de algum tempo fui ler a mensagem que dizia:

Oi querido, fez boa viagem?
Faz pouco tempo que não nos vemos e já sinto tanta saudade. Nem dormi até agora pensando em tudo que nos aconteceu. Talvez não entenda agora, mas um dia saberá que minhas palavras são fruto de um novo, profundo e eterno amor. Sempre te admirei pela sua força de vontade, inteligência e perseverança, que te levam hoje a ser um executivo de sucesso. O mundo é muito menor e muito mais escuro para mim do que para você.
É a única pessoa que eu sei ter me amado de verdade, pois sem nunca ter enxergado meu corpo, se atraiu e se apaixonou pelo que eu sou – ou como você desejava que eu fosse – e não por minha aparência. Sua cegueira não foi, não é e nem seria um problema, mas uma solução para mim.
Justamente por essa grande admiração é que eu não posso ser desonesta com nenhum de nós dois, embora isso cause uma dor que dilacera, é melhor o estrondo de uma verdade do que uma mentira que nos putrefa aos poucos. Ficar ao lado de alguém por pena ou sem amor, mais do que trair ao outro, é matar a si mesmo. Não quero cometer os mesmos erros do passado, ou pior ainda, te torturar cotidianamente com esse meu jeito.
Quando a gente tem dúvidas sobre existir um amor ou não, a certeza já está clara e límpida. O amor nunca deixa interrogações, e se elas existem, é porque o amor não se faz presente. Isso eu só pude perceber conversando contigo e tendo uma pequena noção do que sentes De alguma forma, o bem que você me fez, te afastou de mim.
Se ficássemos juntos, durante algum tempo poderíamos viver felizes, mas e depois? A verdade é mais dura para mim do que para você, eu sempre amei mais o desejo e o amor que me devotam, do que as pessoas que demonstraram esse sentimento. Sempre fiz questão de manter viva a esperança e a súplica por uma possibilidade de consumar esse amor. Minha felicidade não está em amar, mas em ser amada incondicionalmente, e no prazer de sentir esse desejo pulsando em alguém, de ter completo domínio sobre a vida de quem me ama.
Meu amor, infelizmente contigo isso não seria diferente, e fiquei pensando que a gratidão que tenho por você não me permite esconder isso. Talvez eu te amasse um dia, mas não sei se é agora. Além disso, os amores mais perfeitos são aqueles que nunca se realizam, pois o que fica na memória não é a rotina, o tédio, a dor ou as más lembranças, e sim, as lembranças que inventamos de quão belo tudo poderia ter sido.
Indo direto ao ponto, espero que encontre alguém que te ame, e sei que não posso ser eu. É melhor para nós dois que não me procure mais, nem amanhã, nem daqui a uma década. Sei que por mais longe que estejamos, algo nos unirá, a infelicidade. Espero que você um dia rompa com esse elo, pois eu não posso, nasci marcada para viver nessa condição. Não peço que concorde ou entenda, apenas que aceite que isso será o melhor para nós.
Seja feliz, adeus.
Manu

          Não sei explicar exatamente o que aconteceu comigo, lembro apenas da inimaginável dor e vazio de que fui tomado. Recordo de ter ficado muitas e muitas horas chorando em silêncio sentado no chão em um canto da sala, para só depois dimensionar o que se passava. É, dizem que o amor é cego, e de fato, eu sou feito apenas de amor, mas se dizem que a rejeição faz o amor sobreviver, serei eterno. Agora, muito tempo depois dou razão a Manuela, só mesmo a impossibilidade de um amor pode torná-lo subversor do tempo.
          Foram incontáveis as noites em que tentei inventar um final feliz para nossa história, escrever um final diferente daquele que aconteceu. Poderia dizer que encontrei uma mulher que tivesse me feito tão feliz quanto eu mereço, Ou que em um belo dia eu tenha acordado e a tristeza tinha passado, e que sairá com minha bengala cantando na chuva. Mas quem eu poderia enganar a não ser um leitor menos atento?
           O que tem acontecido é que penso em Manuela a cada segundo, e o tempo tem aprofundado a dor. Não tenho desprendimento suficiente para esperar ou desejar que ela esteja feliz. Acho que é bem pouco provável que isso tenha ocorrido, pois o que é a vida senão conjuntos de atrocidades separados por breves hiatos de alegria.

...................
Felipe Mianes