terça-feira, 20 de março de 2012

Um cego feliz

Escrevo esta postagem com o objetivo de divulgar uma situação ocorrida ontem, 19/03/2012, onde em um jornal de grande circulação (o que não significa qualidade) de Porto Alegre, chamado Zero Hora publicou na coluna do... bem até hoje não sei de fato o que ele é, mas escreve para o jornal, um senhor chamado Paulo Sant'anna, mais conhecido por suas fanfarronices do que por pensamentos lógicos. Nesta coluna, ele desfila uma s´perie de preconceitos e estereótipos, mencionando fundamentalmente que os cegos são pessoas infelizes, pobres coitadas que vivem um sofrimento incomensurável. Considera-os sujeitos solitários de quem ninguém deseja estar ao lado, e que por isso mesmo o fato de não enxergarem faz de suas vidas uma imensa infelicidade.
Como era de se esperar, fiquei profundamente indignado, primeiro porque não percebi nenhuma manifestação de repudio de outros cegos ou associações, e segundo, pela forma como esse sujeito se referiu a um grupo de pessoas que merece respeito e consideração, e nâo mais preconceito.
Sei que o pensamento dele é semelhante ao de muita gente na sociedade, embora muitos estejam escondidos por trás do politicamente correto. Ao contrário de revolta, isso me estimula a continuar com meu trabalho e com minha vida FELIZ.
Eis o e-mail que enviei ao tal colunista, que sei, dificilmente será reproduzido e que portanto, o faço aqui, para conhecimento de todos:
"Boa noite.
É com imensa alegria que lhe esvrevo para debater sua coluna do dia de hoje. Não com alegria pela série de inverdades e de despaltérios proferidos pelo senhor, mas alegria, por que ao contrário do que o senhor pensa, eu sou cego e feliz. Para mim a cegueira é uma caracteristica que ostento com muito orgulho, pois nós ao contrário daquilo que ...infelizmente pensas, nós enxergamos bem mais do que muita gente, não vemos a beleza fisica, mas a interior. Não enxergamos as cores do mundo nem as formas desse mundo, mas sabemos direitinho como ser capazes de construirmos nossas próprias Imagens. Sou cego e feliz, tenho uma esposa, uma casa, um emprego, amigos. Vou ao cinema, ao tetaro, a espetáculos musicais e me relaciono com muita gente inteligente e que me fazem esquecer que o preconceito ainda existe. Pena que o senhor com sua coluna, me lembrou que ele ainda existe. Não creio que a cegueira seja digna de pena, afinal Jorge Luis Borges - conheces esse autor? espero que sim - era cego, e dizia que a cegueira é um dom. Sim um DOM, pois nós vemos muito mais do que as imagens nos mostram, muito mais do que a raza compreensão de quem pensa que a felicidade está em se contentar com aquilo que enxerga. Fiquei chateado com suas observações, pois, é claro que existem cegos que são tristes, assim como há colunistas de jornal, ébrios, médicos, mendigos, politicoas que também o são. Felicidade não se mede por ter ou um não um sentido, pois de que adianta ter percepção sensorial se não souber o que fazer com ela? De minha parte são manisfestações como a sua, que me fazem ser ainda mais orgulhoso da cegueira que tenho, me sinto orgulhoso por ser feliz e cego, por "mesmo" sendo cego estar rodeado de pessoas que me amam. A cegueira fez de mim um homem integro, pagador de seus impostos, sim, o senhor pode não acreditar, mas a cegueira me deu uma profissão, a de professor.
Sou professor porque acredito que possamos mudar a mentalidade e o senso comum, os preconceitos e as discriminações, não sei de pessoas idosas, mas dos jovens podemos, para que eles não façam como fizeste, julgando alguém por algo que de fato não conheces. Que tal conhecer mais pessoas cegas e ver se é verdade aquilo que escreveste em sua coluna?
Mais vale ser cego dos olhos do que cego de ideias.
Atenciosamente
Felipe Leão Mianes - cego feliz"

sexta-feira, 2 de março de 2012

Do festejo da inclusão ao carnaval da diferença


Sei que o carnaval já acabou há alguns dias, mas, creio queainda vale a pena mencionar que este ano, os sujeitos com deficiência visualforam muito citados. E, me parece que de um “festejo da inclusão” estamos indopara um “carnaval da diferença”.
A inclusão tem se tornado cada vez mais um modo de fazer com que os sujeitos se sintam com aquela sensação de dever cumprido, uma alegria imensa, por ter “ajudado alguém que precisava”. Essa efervescência da inclusão provoca situações as vezes caricatas de por exemplo, produzir material em braile sem sequer saber se isso é necesário, apenas com o objetivo de “mostrar” o desejo inclusivo. Conversando com meu amigo Rafael Giguer e com a amiga Adriana Thoma, chamamos isso de: “festejo da inclusão”. Pois bem, creio que estamos dando um passo para além do festejo, ao fazer dele, um carnaval da diferença.
No desfile das escolas de sambado Rio de janeiro e de São Paulo houve uma grande menção aos sujeitos com deficiência visual e suas peculiaridades. Embora eu ache que a abordagem de ambas se vinculou muito com as ideias de superação e da deficiência visual como simples não´visão, é preciso ressaltar que o tema foi tratado até com respeitoe com algo muito importante, alegria. A escola de samba do Rio, chamada Grande Rio, tratou sobre o tema da superação em seu enredo, obviamente, não poderia faltar a superação dos limites do corpo e dos “defeitos” dos sujeitos.
Mesmo que a abordagem tenha sido voltada a superação de um defeito, ficou claro que mesmo assim se pode pensar a deficiência visual com alegria, que se pode ter deficiência e manter esse sentimento, o que para muitos é algo incompatível. Mostrou também diversos sujeitos com deficiência que fazem ou fizeram sucesso. Isso é importante para que as crianças e jovens cegos ou com baixa visão possam perceber que sua diferença não é o fim, mas um começo diferente.
A escola Império de Casa Verde,do carnaval paulistano, teve como tema enredo a visão. Dentre uma série de coisas, citou a “falta” da visão como algo não impeditivo para o sucesso, e que a deficiência visual se trata de uma visão, mas uma visão diferente da que estamos acostumados, ou seja, mesmo sem enxergar, pode-se ver o mundo pelas sensações e sentimentos. Mesmo assim, tratou-se a questão também pelo ponto de vista compensatório e da superação.
Mas, excetuando-se essa demasiada ligação com a superação, fiquei de fato feliz por poder perceber que de sujeitos à margem da sociedade, passamos a protagonistas, a começar a abrir um espaço antes impensado, que podemos mostrar nossa diferença e a beleza que há em ter deficiência visual. Sim, eu disse beleza. Podemos apresentar nossas percepções de mundo próprias, de marcar uma identidade, que embora seja “deslizante” tem seus marcadores cada vez mais fortes entre nós.
Portanto, creio que estamos dandoos primeiros passos para além do festejo da inclusão, e indo rumo ao carnaval da diferença, botando nosso bloco na rua, e que abram alas, pois nós iremos passar...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Nova peça de Luciano Alabarse terá sessão com audiodescrição em Porto Alegre

Inimigos de Classe, a nova peça do diretor Luciano Alabarse que estreia em março no Theatro São
Pedro, em Porto Alegre/RS, terá uma de suas apresentações audiodescrita. A sessão está marcada
para o dia 10 de março, sábado, às 21h. Com a audiodescrição, pessoas cegas ou com baixa visão
terão acesso a todo o conteúdo visual do espetáculo: cenário, figurinos, luz, caracterização dos
personagens e suas expressões, gestos e movimentos em cena.
Para Alabarse, esse recurso de acessibilidade será fundamental para ajudar a transmitir a quem
não enxerga, ou enxerga pouco, o tema atualíssimo do espetáculo: a falência do sistema
educacional público no que diz respeito ao universo dos alunos marginalizados. "A peça tem muita
ação e aposta suas fichas na construção dos personagens. Assim, a descrição de suas
características, ações e ambiente será decisiva para facilitar o pleno entendimento das pessoas
com deficiência visual", afirma o diretor.
A audiodescrição será narrada ao vivo, tendo como base um roteiro previamente elaborado. O
equipamento é o mesmo utilizado em eventos com tradução simultânea: fones de ouvido que
captam o sinal de áudio emitido de dentro de uma cabine acusticamente isolada. Desta maneira, o
som da audiodescrição será ouvido exclusivamente pelas pessoas que usarem o receptor. Basta
solicitá-lo na entrada do Theatro, mediante a apresentação de documento de identidade.
A iniciativa é uma produção do estúdio Som da Luz em parceria com a Tagarelas Produções e tem
apoio do Centro Especializado de Apoio Pedagógico e Produção (CEAPP) - um convênio entre a
Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED) e a União de Cegos do Rio Grande do Sul
(UCERGS). O roteiro da audiodescrição é de Mimi Aragón e Marcia Caspary, que também responde
pela narração, com revisão de Marilena Assis, consultora cega e professora das redes públicas
municipal e estadual, e supervisão de Lívia Motta, uma das maiores especialistas brasileiras em
acessibilidade cultural.
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SERVIÇO
• Audiodescrição de Inimigos de Classe, nova peça de Luciano Alabarse. No elenco, Denis Gosch,
Eduardo Steinmetz, Fabrizio Gorziza, Fernando Zugno, Gustavo Susin, Marcelo Adams, Marcelo
Crawshaw e Mauro Soares.
• 10 de março, sábado, às 21h, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Recomenda-se chegar às
20h.
• Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do Theatro a partir do dia 1º de março e custam
entre R$ 20 e R$ 50, com 50% de desconto para o público com deficiência visual. Mais informações
pelos fones (51) 3227 5100 e (51) 3227 5300.
Detalhes sobre a produção da audiodescrição:
Estúdio Som da Luz e Tagarelas Produções
(51) 3086 0527 - (51) 8118 9814 - (51) 8451 2115

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um errante vive-dor

Sempre fui um romancista de narrativas poéticas.
Um poeta que sonhava escrever em prosa.
Sinto-me tantas vezes um sujeito prosaico.
Daqueles que fogem dos delírios lúcidos.
Uma mistura de lágrimas, whisky e Prosac.

Palavras voam soltas em meus pensamentos.
As angústias seguem presas em mim.
Quero escrever os mais belos versos.
Não para ter glamour ou sucesso.
Mas para liberar essa dor em excesso.

Na madrugada gasto o tinteiro e amasso papéis por nada.
Essa escassez de ideias é como uma facada.
Mordo os lábios com gosto e rancor.
Afolha branca é agora vermelho borrado.
Como um morango mofado.

Não há como escapar dessa realidade soturna.
Trago comigo essa tristeza profunda.
Não sou apenas um poeta fingidor.
Sou um errante vive-dor.

Assim que o dia amanhece.
Um novo dia floresce.
A esperança me inunda e invade.
Pois a dor, é a matéria-prima da felicidade.
....
Felipe Leão Mianes

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

imagine e faça: Construindo o protagonismo do diferente

Imagine o dia em que todos sejam protagonistas e não platéia. Imagine o instante em que todos tenham sua diferença compartilhada e não apenas tolerada. Imagine o dia em que a diversidade dê lugar ao direito à diferença. Pois bem, imaginou? Então, que tal começarmos a parar de imaginar e fazer acontecer?
Assisti a um vídeo do seriado Glee (mais informações o Google responde), no qual os alunos do coral, cada qual com sua diferença da (utópica) normalidade cantam a música Imagine, do Jonh Lennon. É uma mensagem bem legal de fim de ano, de começo ou de meio de ano também, não importa o tempo. O que vale é perceber no vídeo o quão simples pode ser o compartilhar com o diferente.
É interessante notar também, que todos os “diferentes” do seriado estão no palco, protagonizando a cena. Isso reforça uma ideia que só de pensar me emociona e me motiva que é a do protagonismo do diferente, no qual não sejamos apenas aqueles que esperam as coisas acontecerem, nem sejam os que simplesmente assistem, mas sim, participam ativamente do processo.
Precisamos ser lembrados e chamados a participar, fazer parte dos planos principais das cenas da vida. Imaginar que todos estejam juntos é importante, mas pensar que nessa união não exista alguém superior ou inferior é ainda mais frutífero. Durante muito tempo os sujeitos com deficiência foram escondidos pelas suas famílias. Atualmente, esse processo começa a mudar, ainda que estejamos num momento em que a sociedade parece querer a todo momento “incluir por estar fazendo um favor”, quando na verdade este é um direito adquirido através de muita luta e do sofrimento de tanta gente que morreu esquecida num canto só por não enxergar, caminhar ou pensar como todos.
No entanto, acho que temos evoluído a passos largos nesse sentido, embora esteja a léguas do ideal. Porém, conquistar o direito a protagonismo social é mais fácil do que exercer este direito. Digo isso, porque existem diversas iniciativas no sentido de promover o acesso cultural, educacional, social e econômico de pessoas com deficiência, mas muitos desses sujeitos ainda relutam em participar e marcar sua posição no mundo.
Tão importante quanto protestar é agir. Pedir direitos é fácil, o difícil é correr atrás deles, ir aos eventos, exigir audiodescrição, rampas adequadas, cardápio em braile ou ônibus adaptados. Ninguém vai bater na campainha do meu apartamento e perguntar que recurso de acessibilidade ou especificidade me contempla,
Então, por mais que os locais não estejam preparados é preciso ir, reclamar, fazer barulho, prestigiar as boas iniciativas e eventos sobre e com essas tematicas. Exercer o direito a diferença requer esforço e uma dose grande de sacrifício de cada um de nós. E que por mais alto que seja o preço, sempre será recompensador diante dos bafejos de liberdade e autonomia.
Acho lindo o vídeo e ainda mais bela a canção do Lennon, mas sempre fui um sujeito de ações e não de imaginações. Mais do que imaginar, é preciso botar o bloco na rua e fazer acontecer. Eu imagino um mundo no qual o considerado diferente não necessite pedir permissão pra existir, mas além de imaginar, eu corro atrás.
Portanto, nesse porvir de um novo ano espero que sejamos não platéia, mas protagonistas. Que possamos fazer, e não só imaginar. Desejando que o prazer de ser diferente invada a alma de cada um de nós. Dizem que mudar o mundo é querer derrubar um muro com uma colherinha de sobremesa. Se assim for, eu sou o primeiro a começar a raspar o muro com tal utensílio. Posso demorar décadas, posso até não conseguir derrubar tudo, mas que eu irei conseguir provocar fendas nos muros das certezas, disso não tenho a menor dúvida. Como diz o poeta, um sonho que se sonha só, é só um sonho. Assim, deixemos de sonhar e passemos a agir.
Abaixo o link para assistir ao video referido nesta postagem:

domingo, 18 de dezembro de 2011

À melhor orientadora do mundo

É muito comum nessas épocas de final de ano nos pormos a pensar sobre nossas vidas, sobre as limitações, possibilidades e surpresas que nos reserva. Ainda assim, sou um tanto cético para crer em destino, sorte, azar ou algo do gênero. Prefiro atribuir o sucesso a outras características como esforço, competência, conhecimento, comprometimento e humildade. Há algum tempo atrás, também não acreditava que apenas uma pessoa poderia fazer toda diferença na trajetória de vida de outros sujeitos. Mas a cerca de 4 anos mudei de ideia com relação a este ponto.
Em 2007, retornei à universidade depois de um período difícil, do qual emanou um profundo desejo de estudar questões relativas à deficiência visual, e suas implicações culturais, não mais clínicas como é o normal. Porém, não sabia muito bem como e nem com quem estudar sobre essa temática.
Então, em meu primeiro dia de aula, coincidentemente comecei uma disciplina com uma professora que estreava na UFRGS. Desde o principio simpatizei com ela e no fim da aula já fui conversar – e enche-la de perguntas e pedidos de bibliografia – sobre o que eu pretendia estudar com o objetivo de chegar ao mestrado. Isso porque, Lodenir trabalhava questões semelhantes ao que eu imaginava, mas, ao invés de deficiência visual, pesquisava sobre surdez. Esse encontro mudaria a minha vida para muitíssimo melhor, mesmo que naquela época eu ainda nem imaginasse isso.
Aos poucos, fiz as leituras, estudei bastante e continuei em contato com a professora Lodenir até fazer o processo seletivo para o Mestrado em Educação. Aprovado que fui, tornei-me orientando da excelentíssima professora Lodenir Karnopp. Dali em diante passei a viver os melhores dias da minha vida – que duram até hoje. De minha orientadora, passou a ser cada dia mais uma amiga muito querida, dedicada e com quem aprendo cotidianamente.
O mundo de coisas que aprendi e de ideias que cultivei, me permitiram participar e ser aprovado mo processo seletivo para o doutorado, também orientado pela minha amiga/orientadora/professora. Graças aos seus ensinamentos, exigências de produtividade e qualidade me forjei como um bom pesquisador – creio eu.
Atualmente, está realizando seu pós-doc nos EUA, e não há um dia que eu não sinta saudades e que não me recorde da imensidão de coisas que com ela aprendi, como entender a pesquisa como um trabalho muito mais de transpiração que de inspiração, de ter consistência teórica e estar sempre corrigindo os erros e aprimorando as qualidades.
Além de ensinar a escrever, ler e fazer, creio que o grande diferencial da Lodenir é ensinar a todos a sua volta como SER. Seu comportamento ético, sereno, e de uma generosidade imensa.Me acho um privilegiado, pois é raríssimo de se ter um chefe tão bom assim, e de considerá-lo como se fosse da própria família.
Por isso, só me resta agradecer a ela por tudo que tenho vivido. Pois como diz uma música da Cidadão Quem: Se alguém já te deu a mão e não pediu mais nada em troca/ Pense bem, hoje é um dia especial. Pois desde que a conheci, todos os meus dias tem sido especiais.
Obrigado por me ensinar a ser uma pessoa e um pesquisador melhor. Obrigado por me proporcionar ter o que hoje tenho
. Obrigado pelas criticas que me fizeram crescer e pelos elogios que fizeram as horas de sono perdidas valerem a pena. Obrigado pelo apoio nos momentos mais doidos e pelos sorrisos matutinos. É de e pessoas como tu que nosso mundão precisa. Levarei sempre um pedaço de ti para toda vida, afinal, a orientação e o doutorado acabam, mas admiração e a amizade permanecem. Enfim, numa época em que todos pedem, eu apenas te agradeço por tudo que fizeste por mim e que me ensinaste, muito obrigado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Natal sem luz

Nunca fui um dos sujeitos mais entusiasmados com festas natalinas o dos famosos (in)amigos secretos. Sempre me sinto um tanto deslocado nesses lugares, sem saber o que dizer ou como agir. Porém, ano passado, em uma dessas ocasiões me senti plenamente a vontade, afinal, em locais escuros os cegos é que são os guias.
Participei de uma bela festa de fim de ano organizada pela querida amiga e professora Adriana Thoma, recebendo a todos com seu costumeiro afeto. Mas, havia um pequeno contratempo, afetando a recepção aos demais convidados, a organização do ambiente e a conservação dos alimentos e bebidas. Naquele momento, o bairro inteiro estava sem energia elétrica.
Enquanto isso, o tempo passava e o sol se despedia à francesa, ao mesmo tempo em que a lua chegava brilhante e cheia de si. Todos foram para fora do recinto ver se ao menos o luar conseguia iluminá-los, ainda que não estivesse adiantando de nada.
Os convidados ajudavam a procurar lanternas, velas, isqueiros ou qualquer outra quinquilharia que emanasse um pouco de luz. Definitivamente, muitas pessoas precisam mais de energia elétrica do que de oxigênio. Já os sujeitos com deficiência visual não sucumbem à luz do mesmo modo que Ulisses não se deixou levar pelo canto da sereia.
Porém, é preciso dizer que muitos dos convidados eram surdos, para quem a questão da visualidade e fundamental. Para eles, o fato de estarmos sem luz ocasionava certa dificuldade na comunicação em língua de sinais. Cabe lembrar que para eles aquele também poderia ser um momento de celebração, já que durante muito tempo, enquanto as línguas de sinais eram proibidas, a única forma de disseminar a cultura dos surdos ocorria nos quartos dos Institutos para surdos, onde à Liz de velas, mantinham acesa a chama da cultura surda.
Diante de todo esse quadro, creio que eu era o único que se sentia a vontade sem luz. Como cheguei ainda no horário de trabalho do sol, tive tempo de decorar a configuração do ambiente, onde ficavam as portas, mesas, cadeiras, sanitários e claro, onde estava a cerveja. Eu e minha baixa visão desfilávamos com desenvoltura pelo salão. Minhas mãos,ouvidos e memória fizeram um excelente trabalho naquele dia.
Aconteceu inclusive, uma situação pitoresca e irônica, em que algumas pessoas pediam para que eu as guiasse até os locais onde desejavam ir. Ou seja, se para todos foi uma situação embaraçosa, para mim foi uma noite agradável e divertida, pois me senti muito bem acolhido.
Quando a energia elétrica retornou, não nego ter sentido uma certa frustração. Assim, por mais que o Natal Luz faça sucesso, a minha festa de natal inesquecível foi exatamente aquela em que a própria Adriana denominou de Natal sem luz.
Não estou dizendo com isso que as pessoas com deficiência visual vivam nas trevas ou que prescindam das cores. O que digo é que não dependemos das imagens nem das cores para sentir o mundo.
Então, ter deficiência visual é libertador, por podermos utilizar de todos os outros sentidos para vivenciar e experimentar sensações que a vida nos proporciona para além da visualidade. Na contramão do usual e do tido como normal, Jorge Luis Borges diz que a cegueira é um dom, para poucos privilegiados.
Enfim, toda vez que me recordo daquele natal sem luz meu coração fica aos pulos. Ao invés das luzes artificiais seria bem melhor fazermos e deixarmos brilhar a luz que há dentro de cada um de nós. Muitos dos que tem deficiência visual veem mais o brilho das almas do que dos pinheirinhos, percebem a verdadeira luz muito mais do que aqueles que estejam presos à singeleza daquilo que enxergam.
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Felipe Leão Mianes