sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Inscrições abertas para o curso “Audiodescrição e suas intersecções com a Educação”

Estão abertas as inscrições para o curso de extensão “Audiodescrição e suas intersecções com a Educação”, da Faculdade de Educação da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110 – Centro Histórico – Porto Alegre/ RS). As aulas ocorrem de 16 de março a 29 de junho, sempre aos sábados pela manhã.
O curso destina-se a professores de todas as áreas do conhecimento, pedagogos, profissionais que atuam em museus, bibliotecas, teatros e centros culturais, produtores culturais, comunicadores e gestores culturais (alunos da UFRGS ou da comunidade externa).
O curso  é oferecido pela equipe da Tagarellas Audiodescrição, tendo como coordenadores Felipe Mianes (historiador e doutorando em Educação pela UFRGS) e Mariana Baierle (jornalista e mestre em Letras pela UFRGS) – ambos com baixa visão e Audiodescritores Consultores. Como professoras convidadas estão Mimi Aragon (publicitária e Roteirista de Audiodescrição) e Marcia Caspary (locutora, Roteirista e Narradora de Audiodescrição). Toda equipe da Tagarellas Audiodescrição tem formação específica na área e experiência em audiodescrição de livros, materiais didáticos, exposições de arte, peças de teatro, cinema, espetáculos de dança, seminários e eventos. 
Este curso tem o objetivo de instrumentalizar profissionais da área da Educação - não somente da Educação restrita à sala de aula, mas da Educação como um todo, envolvendo diversos ambientes culturais – para que conheçam o recurso e possam aplicá-lo de modo a tornar os espaços culturais acessíveis a todos. Tendo em vista que a formação de um audiodescritor profissional não caberia em apenas um semestre de extensão universitária, busca-se, neste curso, proporcionar uma formação inicial acerca do recurso, da legislação brasileira e da discussão acerca da ampliação de sua aplicabilidade e das intersecções com o campo da Educação.
A carga horária é de 60 horas, com valor único de R$ 350,00, com certificação pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS. Todas as informações referentes às inscrições, cronograma, ementa e bibliografia estão no blog do curso: http://educadfaced.blogspot.com.br.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Porto Alegre um dolorido "modelo de acessibilidade"


O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, tentou começar a construir uma solida carreira de humorista e contou uma piada muito engraçada dizendo que: “Porto Alegre é um modelo de acessibilidade para o Brasil e para o mundo". Fico imaginando por quais ruas esse político fanfarrão deve caminhar, ou quem sabe, deve estar com baixa visão e não percebe que o que ele diz é um engodo. Se bem que se ele tivesse deficiência visual, logo teria notado que errou ao fazer essa afirmação. Porto Alegre é um parque temático de buracos, e me arriscaria a dizer que a cidade tem mais calçadas problemáticas do que habitantes.
Nossa cidade nunca foi acessível, as ruas sempre foram repletas de perigos e de dificuldades para quem tem algum tipo de deficiência. Eu desafio quem quer que seja a me mostrar UM ponto da cidade onde tudo seja plenamente acessível. Morar por aqui é um desafio constante, e nos dividimos em dois grupos, o das que já se acidentaram, e das que irão se acidenta um dia. Desde sexta passada pertenço ao primeiro grupo.
Como se não bastasse a INacessibilidade da cidade, a insegurança é tão problematica quanto os problemas estruturais da capital gaudéria. Cada dia mais o medo e a violência crexcem e sobreviver aqui sem ser assaltado, roubado e agredido é uma tarefa para bem poucos.
Tanto é que temos índices bem parecidos a São Paulo e Rio de Janeiro em termos de violência urbana. Mas e quando os dois problemas se juntam em um único momento, qual o resultado? É, isso me aconteceu na semana passada e garanto que está sendo bem dolorido.
Sexta passada, por volta das 8hs, desci do Õnibus, sob o viaduto da avenida Duque de Caxias. Algo raro aconteceu naquele dia, não havia ninguém na parte de baixo do viaduto, sempre cheio de pedestres e ambulantes, assim como a praça Raul Pila, em frente de onde eu estava, que está sempre igualmente lotada, naquele dia não havia sequer uma pessoa, que eu pudesse ver pelo menos.
Havia apenas um sujeito em atitude absolutamente suspeita, o que me deixou apreensivo, já que eu carregava uma mochila com meu notebook (onde estavam gravadas dentre tantas coisas, meu projeto de tese). Embora eu enxergue pouco, desenvolvi tecnicas para perceber quando alguém age de modo suspeito, e assim consegui verificar que o vagabundo me seguia. Eu tinha que atravessar uma praça para chegar até a UFRGS, e meu medo era de que ele me assaltasse ali mesmo, e depois de me abordar nada poderia fazer, afinal, reagir é sempre a pior coisa a fazer.
Então, atravessei a rua e tendo uma certa distância, comecei a correr para evitar que ele me alcançasse ali onde não havia ninguém. Depois de passar por uma dezena de buracos na calçada, quando estava quase chegando à esquina pisei em uma lajota solta,: virei o pé, tropecei e tive um baita tombo. Como não sabia se o meliante estava atras de mim ou não, na fração de segundos que tive, resolvi continuar correndo até um lugar seguro, e assim o fiz.
Depois de estar em segurança é que fui ver o estrago: pé esquerdo inchado, joelho esquerdo mega inchado - ainda hoje está -, uma dor lancinante na costela - que ainda persiste -, cortes na mão esquerda, no lábio superior e no rosto (abaixo e acima do olho esquerdo). Dos males o menor, meu projeto de tese estava salvo.
Hoje, cinco dias depois do ocorrido, ainda tenho dores fortes na costela do lado esquerdo do torax, meu joelho continua inchado e tenho dificuldades para caminhar. Os exames médicos mostraram que não foi nada grave, mas poderia ter sido.
O que eu fico pensando é como se pode tentar mascarar os graves problemas que a cidade tem para nós com deficiência ou qualquer pessoa que queira escapar de um problema mais grave. Que modelo de acessibilidade é esse onde em um dos lugares mais movimentados da cidade há mais buraco que calçada?
Desde 2011, há um Plano Diretor de Acessibilidade aprovado pela prefeitura e já vigorando como lei. Onde eu cai? em uma praça municipal! Não adianta de nada fazer leis se elas não são cumpridas, criar planos diretores para que fiquem no âmbito do "um dia a gente implementa". cadê a fiscalização? qual a punição para quem não cumpre 00 incluindo os políticos que deveriam ser responsabilizados por isso? Um a lei que não é aplicada é só mais um pedaço de papel inútil.
As pessoas ainda tratam a acessibilidade como desdém e sem a seriedade necessária. Não sei se a dor maior é física ou em minha honra de cidadão honesto e cumpridor de seus deveres. Para quem precisa de acessibilidade, Porto Alegre trata seus habitantes com desprezo, com indiferença e até mesmo com má intenção, ao dizer que nós estamos errados ao reclamar dos perigos da cidade. Quanto custa tapar um buraco? será que é mais caro me atender em um hospital ou colocar corretamente uma lajota?
Como diz minha amiga Mariana Baierle, o maior problema não são as calçadas, mas as mentes deterioradas que deixam as calçadas mal conservadas. Eu acho que vão esperar alguém morrer ou ter graves ferimentos para fazer algo, mas dai, pode ser tarde demais. Porto Alegre é uma cidade RIDICULAMENTE INACESSÍVEL, e por mais piadas que o prefeito conte quem sente as dores somos nós.
Nosso município já não tem belezas muito atrativas, nem praias ou construções monumentais, mas bem que poderia tentar ser um modelo de acessibilidade. Se não der para ser modelo, pelo menos que nos locais onde mais pessoas circulam, manter as calçadas bem cuidadas já seria um bom começo.
Ás vezes quando falamos que conhecemos alguém que se machucou ou que soube de um caso assim, poucas vezes isso fica registrado, é como se fosse uma anedota contada, onde sem provas, poucos são capazes de se colocar no lugar do outro.
Por isso mesmo, posto aqui uma foto de como eu estava no dia da minha queda, horas após o ocorrido. Com vários hematomas, curativos, pomadas, bolsa de gelo e dor, mas isso não aparece nas fotos. Só mesmo um registro desses para fazer com que se possa refletir um pouquinho sobre esse “modelo de acessibilidade” que temos em Porto Alegre.

 


















Um ano e dois meses depois...
Resolvi revisitar essa postagem para fazer algumas atualizações. A primeira é que, mais cinco dias se passaram e as dores na costela persistiram. Fui rever meus exames e descobri que tinham sido trocados pelos de outra pessoa. Retornei ao HPS, refiz os exames e descobri que estava com a costela quebrada.
A cidade é um eterno canteiro de obras, o que piora ainda mais a acessibilidade já caótica na cidade, no mais, em termos de acessibilidade arquitetônica tudo continua como "dantes no quartel de Abrantes", com ruas esburacadas, obstáculos aéreos que causam ferimentos, sinalização precária e por ai vai....
Estabeleceu-se um plano de metas para cada secretaria, inclusive para a SMACIS que cuida da acessibilidade. Conforme os critérios do governo, todas foram cumpridas e ultrapassadas. Porém, acredito haver um profundo erro conceitual nessas metas. Rebaixar calçadas, fornecer cartçoes de isenção no transporte e sinaleiras sonoras bastam? Definitivamente, não!
De que adiante rebaixar as caçadas se o rebaixamento é mal feito e em lugares às vezes inócuos? de que adianta colocar semáforos sonoras se as ruas continuam perigosas para os cegos andarem sozinhos tendo a integridade física preservada? De que adianta conceder carteira de isenção no transporte coletivo se os ônibus continuam sem acessibilidade plena? De que adianta oferecer selos de acessibilidade se nem sabemos os critérios? E se houverem, nem amplamente debatidos foram. Há mais, mas acho que paro por aqui mesmo.
Uma cidade modelo de acessibilidade faria diversos eventos na semana de seu aniversário sem acessibilidade? Porto Alegre fez! Não há nenhum evento em que haja audiodescrição e/ou Libras. Ano passado ocorreu o mesmo, fiz uma solicitação oficial para que nesse ano houvesse e sequer recebi resposta. Que modelo é esse? Como poderei comemorar o aniversário de uma cidade que vira as costas para mim e minhas necessidades básicas?
A única meta a ser cumprida é permitir que as pessoas com deficiência tenham a possibilidade de desfrutar dos mesmos ambientes e atrações da cidade. é dar segurança para seus cidadãos para que circulem nas ruas sem o risco de ferimentos como os que eu tive. E nesse caso:META NÃO CUMPRIDA INTEGRALMENTE!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Audiodescritor em Foco - entrevista com Pilar Orero

É com enorme satisfação que inauguro hoje um novo projeto aqui no blog. Se chama Audiodescritor em foco, e o objetivo é propor ideias e compartilhar reflexões de audiodescritores de diferentes lugares do Brasil e do mundo. A ideia é bem simples, sempre as mesmas cinco perguntas para os audiodescritores, o que permitirá verificar diferentes posicionamentos e percepções de uma mesma questão. Outras tantas perguntas ficaram faltando, muitas surgiram das respostas dadas, mas o importante é abrir mais um importante e democrático espaço para que os audiodescritores debatam o rumo da AD. Espero que gostem, e se tiverem sugestões, estarei a disposição.
Para inaugurar o projeto, realizei entrevista com a audiodescritora catalã Pilar Orero, conhecida internacionalmente pelo trabalho que desenvolve como audiodescritora e professora da Universidade Autonoma de Barcelona.
 
Entrevista com Pilar Orero
 
 
 Pilar Orero é mestre em Tradução pela Universitat Autonoma de Barcelona (UAB), Espanha. Doutora em Tradução pela University of Manchester (Reino Unido)  Professora na área de Tradução audiovisual na UAB, onde coordena o curso de mestrado online em Tradução Visual. É membro do Centre d’Acessibilitat i Intel-ligencia Ambiental de Catalunya CaiaC (Centro de acessibilidade e inteligência ambiental da Catalunha), onde coordena o Doutorado em Ambientes Inteligentes e Acessibilidade. Desenvolve projetos e pesquisas em diversos aspectos relacionados à acessibilidade, principalmente sobre audiodescrição. Além de um grande número de artigos e ensaios em qualificadas e renomadas revistas e congressos sobre tradução e?ou acessibilidade, Pilar também é co-editora da revista  Media for All: Subtitling for the Deaf, Auidio Description and Sign Language (Mídia para Todos: legendagem para surdos, audiodescrição e língua de Sinais).
 

1 - Como você se tornou audiodescritor? Que importância a audiodescrição tem na sua vida?
Pilar: Assisti a um congresso em Londres, em 2004, e conheci a James O’Hara e Joel Snyder, que me ensinaram AD
Desde 2004 mudou muito a minha vida, já que todas as pesquisas que faço se referem a AD, e também a transmissão de conhecimentos. Me reúno com associações de pessoas com deficiência e vou a comitês de normatização.

2 – Na sua opinião, o que a AD representa para seus usuários? O que pode provocar na vida dessas pessoas?
Pilar: Há usuários que gostam muito de AD e há quem não goste, inclusive lhes incomoda. Essa recepção tão diversa é muito importante já que significa que é uma atividade normatizada – o estranho seria se 100% dissesse que é maravilhoso, isso não existe navida. Como é uma atividade normatizada deveria ser oferecida sempre e que seja o usuário quem decida se quer escutar ou não.

3 – Quais as maiores dificuldades e quais as maiores alegrias em ser audiodescritor?
Pilar: Começando com um serviço aberto para toda a comunidade, sem ter em conta as associações de usuários e a porcentagem de deficiência do usuário. Para mim é muito importante que a AD seja um serviço público, que se possa escolher, como agora se escolhe o nível de volume da TV

4 - Você concorda com a ideia de que a AD, mais do que informar, deve proporcionar que o usuário usufrua e sinta as sensações do que é descrito?Você acredita que a audiodescrição além de um recurso de acessibilidade seja também uma produção cultural?
Pilar: Sim

5 – O mundo está cada vez mais visual, e se levarmos em conta que a visualidade é a matéria-prima da audiodescrição, ainda há muito a ser explorado nesse campo. Junto a isso, temos a ampliação e difusão dos produtos e políticas culturais para acessibilidade por parte dos governos e da sociedade civil. Diante desse cenário, quais desafios você acha que devem ser enfrentados para expandir a audiodescrição, tanto em quantidade como em qualidade?
Pilar: É muito importante definir o que é qualidade, e entender que como qualquer outra atividade normalizada, deve haver diferentes tipos de qualidades. Por exemplo, para saber a hora, podemos ter um relógio Rolex, ou um Swatch ou um telefone celular, todos dizem a mesma informação: a hora. Tanto o rolex quanto o Swatch são relógios de alta qualidade, mas cada um com suas características. O mesmo deveria acontecer com a AD.

 Entrevista e tradução: Felipe Mianes
 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

CONSULTORIA EM AD E O NOSSO PROTAGONISMO

Eu, como um profissional que realizei curso de aperfeiçoamento e formação em audiodescrição, bem como uma série de trabalhos como audiodescritor consultor, me sinto no direito de empreender um debate sobre o tema da consultoria. Ate porque, também realizo pesquisas e atuo como formador nesse campo. 
Em absoluto objetivo impor a minha opinião como a melhor ou única. Não pretendo pessoalizar a questão, pois creio que há espaço para diferentes tipos e modos de pensar sobre a AD, seja como produto cultural, como tradução visual, ou até ambos – o que é o meu caso. 
Meu objetivo aqui é refletir sobre a importância que considero fundamental e indispensável do audiodescritor consultor em uma equipe de audiodescritores. Mais que isso, de valorização dessa função muito além de simples concordância ou não com o produto já pronto.
Como todos já sabemos, no Brasil são mais de 35 milhões de pessoas com deficiência visual, dessas 500 mil são cegas, ou seja, as demais tem baixa visão, e enxergam usando algum recurso de acessibilidade, como é o meu caso, por exemplo.
É desconhecimento dizer que alguém com deficiência visual não possa ser roteirista, já que alguém com baixa visão pode sim fazer roteiros de imagens estáticas, por exemplo, e pude comprovar isso empiricamente.
Muitos de nós consultores temos formação na área de audiodescrição, em cursos ministrados inclusive por colegas que discordam dessa ideia.
Fato é que temos um certificado igual aos demais colegas audiodesritores que executam outraa funções. 
Dizem que a consultoria apenas avalia se os trabalhos estão bons ou não. O que é meia verdade, já que eu a Mariana Baierle e outros colegas participam dos processos da AD desde a pré-produção, provando, que tal é bem possível e eu diria necessário para a excelência da qualidade do trabalho.
O consultor é o que executa o controle de qualidade do produto, como dissera outrora: uma equipe que não conta ou usa mal seus audiodescritores consultores é uma equipe incompleta.
Uso o exemplo de uma indústria, onde sempre há aquele industriário que é responsável por aferir a qualidade do produto, pensar sobre ele e acompanhar o processo de produção desde o inicio para que a qualidade seja a melhor possível. Pois bem, na carteira de trabalho desse industriário não vai: consultor em indústrias, e sim, sua profissão é de industriário, como os seus demais colegas.
Outra questão é que, se muitas vezes os trabalhos requerem pouco tempo para produção,  eu e a Mariana já revisamos roteiros que foram produzidos, revisados, gravados e entregues em menos de 24 horas, assim, o tempo pode ser relativo. Afinal, se há uma demanda de trabalhos se contratam mais roteiristas, porque não contratar mais audiodescritores consultores para a equipe?
Outro argumento é importantíssimo, essa diferenciação feita ao consultor é um entrave político. Acho que é necessário pensar que as questões políticas também são fundamentais para a ampliação da AD, pois além de público queremos ser protagonistas nos processos de todas as esferas sociais, inclusive na audiodescrição. Cada vez mais as pessoas com deficiência fazem questão de participar de todos os processos que lhes envolvam e, principalmente, em igualdade de condições com todos.
Exemplificando o que eu digo
O audiodescritor consultor além de público da AD ele é um profissioal como outros na equipe, e assim deve ser tratado. Eu e a Mariana sempre fazemos questão de atuarmos desde ao inicio da produção dos trabalhos.
Tomo como exemplo a obra Colegas – O filme, (vencedor do prêmio de Melhor Filme do Festival de Gramado) que a Tagarellas fez a AD. Pois bem,  nosso processo de construção da AD foi o seguinte:
TODOS juntos assistimos ao filme, sendo que as roteiristas assistiram de olhos vendados. Depois debatemos sobre o que ouvimos do filme, pesquisamos sobre alguns temas e nos reunimos novamente para assistir a obra outra vez vendo as imagens. Conversamos novamente sobre o que seria interessante constar ou não no roteiro.
Em seguida, as roteiristas elaboraram o roteiro e nos repassaram para fazermos as observações que entendiamos necessárias. Antes de ler, assisti o filme outra vez, depois li o roteiro da AD inteiro.  Posteriormente a isso, comecei a ler o roteiro parte por parte assistindo a cada cena do filme de acordo com a parte apontada no roteiro. Fiz as observações que achei pertinentes sobre o roteiro e, antes de enviar para as roteiristas, eu revisei tudo novamente assistindo ao filme mnmais uma vez.
Enviei o roteiro para as roteiristas, que fizeram as adequações que entenderam pertinentes. Por fim, um dia antes da exibição do filme, já em Gramado, nos reunimos novamente e assistimos ao filme, ensaiando a narração da AD, e na medida em que tinhamos alguma dúvida, retomavamos, debatiamos e quando era o caso reformulavamos o trecho revisado. Assim, depois de algumas horas finalizamos o roteiro .
Isso sim é uma construção de AD em conjunto, e que qualifica o trabalho, sendo que os consultores tiveram papel fundamental no processo, de maneira equiparada aos demais membros da equipe. 
Esse protagonismo das pessoas com deficiência na AD é fundamental tanto para a qualidade quanto para a ampliação de público para a AD, já que é um fator que alimenta a identificação entre o público e o produto.

domingo, 30 de dezembro de 2012

O ano que vem é hoje, o futuro nunca espera!

Se 2013 for igual a 2012 eu já me dou por muito satisfeito, afinal, foi um ano repleto de alegrias e realizações pessoais. Profissionalmente foi o melhor ano da minha vida:
No campo academico foi tudo como o esperado, publiquei artigos cumpri minhas funções de pesquisador e principalmente escrevi meu projeto de tese, que brevemente irei qualificar. gostei do texto e percebi a evolução na minha escrita e nos meus modos de pesquisar e considero que estou na melhor fase como pesquisador, embora ainda tenha muito a evoluir, o que me deixa estimuladissimo.
Fiz diversos trabalhos como audiodescritor, fazendo parte da família Tagarellas inovadora no modo de fazer AD e um exemplo de como trabalhar com seus audiodescritores consultores. Participei de sucessos retumbantes como Colegas - O filme, e da AD do espoetáculo de dança Não me toque estou cheia de lágrimas - sensações de Clarice Lispector, dentre outros projetos de AD . Foi lançado o documentário Olhares, que co-dirigi coma amiga Mariana Baierle, outro baita sucesso que levou nosso trabalho para além das fronteiras gaúchas e nos abriram muitas portas devido ao apreço do público pelo nosso trabalho.
Fazer audiodescrição é a coisa que mais me dá prazer na vida, é a razão pela qual levanto todos os dias com sorriso no rosto e vontade de trabalhar duro e com dedicação e animação. É um dos motivos que me faz ter certeza que tudo dará certo mesmo nos momentos dificeis.
Mais do que escrever, eu gostaria de compartilhar um poema que eu li no livro Fotografias poéticas de um olhar viajante, escrito por Sara Bentes. Conheci o trabalho de Sara a pouco tempo, mas o suficiente paraque eu já admire muito suas ideias seja como escritora, compositora e cantora, ela escreveu a LINDISSIMA canção chamada Pra quê, um verdadeiro hino pra nós com deficiência visual. Deixo-os com essas belas palavras desejando um 2013 com saúde, paz e com todos os nossos objetivos alcançados. Para os bons, tudo vai dar certo e melhor do que o esperado; para os maus, se preparem que a casa vai cair.
 
Descrições (Sara Bentes)
ele me faz uma cena de cinema;
ela me faz rir demais!
O outro me traz o relevo até as mãos;
a outra usa comparação.
Ele me pinta um quadro detalhado;
ela diz o essencial;
uma aproveita tudo o que eu já conheço,
o que me é familiar,
um já me faz parecer tudo mais lindo,
dizendo o que ele quer ver.
Todo o encanto que a paisagem lhes provoca;
gostoso é perceber!
Pelos seus gritos, sorrisos, euforia.
sinto a beleza no ar, no calor das mãos que felizes me apertam,
pra depois então falar,
descrever tão intraduziveis visuais;
quase impossível missão...
E todos tentam, cada um da sua forma,
dividir sua visão,
com seus olhares perfeitos e únicos,
cada um revela seu ser,
completando meu mundo, permitindo-me ver.
Eles estão ali, sem bem perceberem,
derramando seus universos em mim,
A beleza do tato, audição, ofato e paladar lhes faço lembrar.
Ele me faz uma cena de cinema;
e é onde eu me sinto estar.
 
Sara Bentes - Pra quê

 
 
 
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

2º ENCONTRO NACIONAL DE AUDIODESCRIÇÃO

Dos dias 13 a 15 de dezembro, acontece em Juiz de Fora o II Encontro Nacional de audiodescrição, que terá diversas e qualificadas atividades para debatermos sobre os rumos da audiodescrição no Brasil, desde o registro da profissão de audiodescritor até os desafios a serem enfrentados para a ampliação e qualificação da audiodescrição em nosso país.
Será um momento importante que reunirá os principais audiodescritores do Brasil, além outros vértices importantes para a consolidação do recurso, como produtores, membros das secretarias nacionais de direitos humanos e da cultura, produtores culturais, audiodescritores e público do produto.
As discussões também têm como objetivo elaborar um documento que sirva para balizar ações e intenções futuras sobre a audiodescrição em todo território nacional. Esse documento será muito importante para estabelecer metas e atividades conjuntas entre os diversos vértices da cadeia produtiva.
Certamente, será também um momento de congraçamento e interação entreo os audiodescritores e o público do encontro, compartilhando experiências, estabelecendo contatos profissionais e pessoais que são de extrema importância para o crescimento da audiodescrição, e de nós que atuamos na área.
Fiquei muito emocionado e lisonjeado com o convite que a comissão organizadora me fez para participar de uma das mesas redondas que tem como tema o público da audiodescrição. Primeiro, porque a AD é uma das coisas mais importantes e prazerosas da minha vida ultimamente, pois tenho trabalhado e me aprimorado como consultor, tendo formação e estudo para tal. Em minhas pesquisas também analiso a AD, mas é diferente ser consultor e público, poder participar ativamente de diversos produtos audiodescritos e eventos que foram sempre um sucesso.
Segundo, como acadêmico e estudioso na área da acessibilidade, será um evento que me proporcionará muito conhecimento e ideias que hão de advir dos debates e oficinas a serem realizadas.  
E, terceiro, que terei a oportunidade de conhecer, compartilhar e debater com pessoas que considero de primeira grandeza quando o tema é AD, caso do Paulo Romeu, Lara e Graciela Pozzobon, Eliana Franco e minha “ídola mor”, Lívia Motta. Sei que já tenho experiencia e idade suficiente para não ir a um evento e ficar tietando, mas essas pessoas realmente são referencias positivas para mim, que embora já tenha trabalhado bastante nessa área, tenho muito a aprender.
Enfim, tenho certeza que será um grande momento para todos nós e que esse encontro renderá muitos frutos, ao menos como um dos debatedores, farei o possível para que tenhamos a maior e melhor qualidade possível.
Abaixo, a programação do evento:
PROGRAMAÇÃO
13/12 – Quinta-feira
17h 30min - Inscrições e entrega de material
18h 30min - CERIMÔNIA DE ABERTURA:
Palavra do Reitor Prof. Dr. Henrique Duque - boas vindas e introdução ao tema do encontro;
Palavra da coordenadora do evento: Prof. Dra. Eliana Lúcia Ferreira.
 19h às 20h30min - MESA DE ABERTURA: AUDIODESCRIÇÃO E O ACESSO À CULTURA E À INFORMAÇÃO
Reitor da UFJF: Prof. Dr. Henrique Duque;
Representante da Secretaria dos Direitos Humanos: Sr. Antonio José Ferreira (Secretário Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência);
Representante da Organização Nacional de Cegos do Brasil: Clóvis Alberto Pereira;
Representante dos audiodescritores: Prof. Dra. Lívia Maria Villela de Mello Motta;
Representante do público consumidor: Paulo Romeu Filho.
20h30min - EVENTO CULTURAL (apresentação de longa-metragem com audiodescrição)
14/12 – Sexta-feira
9h às 10h30min - MESA REDONDA: POLÍTICAS PÚBLICAS PARA AMPLIAÇÃO DO USO DA AUDIODESCRIÇÃO NOS DIVERSOS SEGMENTOS
Secretaria de Direitos Humanos: Sérgio Paulo da Silveira Nascimento;
Ministério das Comunicações: Elza Maria Del Negro B. Fernandes;
Ministério do Trabalho: Cláudia Maria Virgílio de Carvalho Paiva;
MEDIADOR: Paulo Romeu Filho.
10h30min - CAFÉ
11h às 12h30min - MESA REDONDA: IMPLEMENTAÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO NOS DIVERSOS SEGMENTOS (FOCO NO PRODUTOR DE AUDIOVISUAIS)
MÍDIAS: Alessandra Savino;
TEATRO: Lara Valentina Pozzobon da Costa;
CINEMA: Marçal de Souza;
MEDIADORA: Marta Almeida Gil.
14h às 17h - OFICINAS
1. AUDIODESCRIÇÃO NO CINEMA
PROFESSORES: Bell Machado e Letícia Schwartz
2. AUDIODESCRIÇÃO NO TEATRO
PROFESSORES: Mimi Aragón e Nara Monteiro
3. AUDIODESCRIÇÃO NA TV
PROFESSORES: Leonardo Rossi Lazari e Klístenes Bastos Braga
14h às 17h - REUNIÕES TEMÁTICAS:
Em paralelo às oficinas acontecerão reuniões temáticas para discussão de assuntos relevantes ligados à formação e profissionalização do audiodescritor.
14h às 15h30min - PROFISSIONALIZAÇÃO DO AUDIODESCRITOR E MERCADO DE TRABALHO
COORDENADOR: Rodrigo Campos Alves
15h30min às 17h - COMPETÊNCIAS PROFISSIONAIS DO AUDIODESCRITOR
COORDENADOR: Maurício Santana
17h às 17h30min - CAFÉ
17h30min às 19h - MESA REDONDA - IMPLEMENTAÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO NOS DIVERSOS SEGMENTOS (FOCO NAS PESQUISAS ACADÊMICAS).
Eliana Paes Cardoso Franco - Universidade Federal da Bahia (UFBA);
Soraya Ferreira Alves - Universidade de Brasília (UNB);
Vera Santiago Araújo - Universidade Estadual do Ceará (UECE);
MEDIADORA: Elizabet Dias de Sá.
15/12 - Spabado
8h30min ás 10h - MESA REDONDA: IMPLEMENTAÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO NOS DIVERSOS SEGMENTOS (FOCO NO PRODUTOR DE AUDIODESCRIÇÃO)
Graciela Pozzobon da Costa;
Maurício Santana;
Lívia Maria Villela de Mello Motta;
MEDIADOR: Laércio Santana.
10h30min às 12h - MESA REDONDA: IMPLEMENTAÇÃO DA AUDIODESCRIÇÃO NOS DIVERSOS SEGMENTOS – FOCO NO PÚBLICO ALVO
Elizabet Dias de Sá;
Felipe Mianes;
Iracema Vilaronga;
José Vicente de Paula;
Gilson Mauro;
MEDIADOR: Marco Antonio de Queiróz;
12h às 12h30min - CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO COM LEITURA DO DOCUMENTO PRODUZIDO DURANTE O EVENTO.
Audiodescrição do evento:
Todas as atividades do Encontro serão audiodescritas por:
Jumara Bienias;
Luciamaria;
Márcia Caspary;
Maria de Fátima Angelo.

Mestre de cerimônias:
Rodrigo Almeida Simões da Silva
 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Obrigado deficiência!

No dia 3 de dezembro é comemorado o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, e sem dúvida me sinto muito honrado em pertencer a esse grupo, pois se tenho a vida feliz que levo hoje é muito graças a ela. Sei que há muito ainda o que ser melhorado em nossas vidas seja na derrubada das barreiras arquitetônicas ou atitudinais. Mas também é preciso lembrar que temos muito a celebrar, afinal, muito já foi conquistado e ainda estamos construindo um mundo melhor a cada dia.
Se formos pensar no quanto a sociedade ainda precisa evoluir para que contemplem todas as especificidades e extingam todos os preconceitos e discriminações existentes, poderemos até esmorecer por ver que o caminho é longo e sem uma perspectiva de atingir os resultados esperados. As dificuldades que temos ainda são evidentes, e se apresentam cotidianamente.
Mas e se ao invés de mirar o horizonte cada um de nós se fixasse em dar um passo de cada vez? Que tal se a gente lutasse fazendo as pequenas mudanças, colocando um tijolinho por vez? E que tal se a gente fizesse as mudanças pensando no que nós podemos fazer de concreto e não naquilo que podem fazer por nós? Enfim, acho que são boas pautas de reflexão.
Para mim, hoje não é só um dia de reflexões quanto ao futuro e o que temos a reivindicar. Penso no nosso dia como uma celebração que deve ser levada a diante, mostrada a todos para que vejam que grupo grandioso e potente nós somos. Já temos algumas conquistas importantes e bastante a comemorar em termos das diminuições de barreiras que nos são impostas.
É preciso celebrar e reverenciar tantas pessoas que lutara até o fim da vida – ou morreram por tentar – para que um dia tivéssemos nossos direitos assegurados e que a vida de nós com deficiência fosse melhor. Pessoas que estudaram e que batalharam em todas as esferas sociais para que estivéssemos no patamar que hoje estamos.
Sei que há muitas pessoas a mencionar, mas reverencio aqui a memória de Ligia Assumção Amaral, grande professora e ativista nos direitos das pessoas com deficiência, em quem me inspiro cotidianamente para prosseguir produzindo e lutando, Foi uma pena que ela tivesse nos deixado a 10 anos, mas sua obra estará sempre viva. Onde estiveres, saibas que sou seu fã.
Por mais que muitas vezes eu seja pessimista, nesse caso eu me vejo pensando no copo meio cheio, pois se temos muito a conquistar, um longo caminho já foi percorrido, e por isso, acho que devemos lembrar de tudo que já conseguimos adquirir como direitos e em termos de diminuição dos preconceitos. Hoje prefiro pensar em um dia feito para comemorar as conquistas e celebrar as alegrias que a deficiência me traz.
Eu sempre convivi com a deficiência desde que me entendo por gente, e até meus vinte e poucos anos levei-a um pouco a tiracolo ao mesmo tempo em que tentava tangenciá-la. Isso fez com que eu perdesse muita coisa na minha vida, mas ganhasse outras tantas o que não permite que eu me arrependa de ter “descoberto” tão tarde que eu sou como sou graças a baixa visão. Há uns sete anos eu me vi diretamente de frente com o preconceito e com a discriminação de uma forma muito brutal e que marcou a minha vida para sempre. Como não é de tristezas que pretendo falar, deixo isso pra lá.
Foi então que uma luz se fez presente nos meus olhos quase fechados e na minha mente totalmente aberta, era o orgulho de ter baixa visão. Sempre soube que queria ser professor, mas a História – minha graduação – não era exatamente o que eu procurava, e sabia que eu queria trabalhar com pesquisas na área da cultura. O mundo deu muitas voltas e fiz da minha deficiência objeto de pesquisa, e fui crescendo como sujeito e como pesquisador, realizando esse sonho indescritível que é ser mestre e fazer doutorado em Educação.
Obrigado a minha orientadora Lodenir Karnopp por ter acreditado em mim, e obrigado aos meus olhos cheios de catarata por terem me mostrado esse caminho de tantas alegrias. Hoje sei que a felicidade mora em mim, e não estou aqui apesar da deficiência, mas sim por causa dela. Como dizia Borges “ter cegueira é um dom”, e sei que eu tenho usado esse dom com relativa sabedoria para ajudar a tantas pessoas, e mais que isso, ajudar a mim mesmo.
É por causa da deficiência que eu conheci pessoas muito estimadas como as amigonas Mariana Baierle, Janete Múller, Márcia Caspary e o Rafael Guiger. A Mariana é minha colega de direção do filme Olhares, outra conquista, pois até “cineasta” estou me tornando por conta da baixa visão, além de parceira em outros tantos projetos passados e futuros. Além disso, é uma pessoa especial, uma irmãzinha mais nova que faz lembrar eu mesmo a uns anos atrás.
Ter conhecido a audiodescrição foi uma das coisas mais felizes de toda minha vida, e me tornar audiodescritor é como o sol de todos os meus dias. Consegui isso porque tenho estudo, mas também porque tenho baixa visão. Ser consultor de Ad e consumidor do produto é algo fantástico e que eu agradeço diariamente por ter deficiência e poder participar como produtor dessa arte de audiodescrever.
Dou valor a tudo aquilo que tenho e que sou, mas tenho certeza que nada na minha vida seria tão lindo se eu não tivesse baixa visão, e não visse a vida de um jeito tão alto. Obrigado papai e mamãe por não me tratarem como um coitadinho, e me darem a educação e o melhor tratamento que alguém poderia querer.
Portanto, sei que existem ainda muitas dificuldades na vida de quem tem deficiência, mas às vezes é mais fácil fazer do obstáculo um degrau para continuar subindo do que sucumbir a ele. Lembrar com ternura e gratidão da baixa visão que trago comigo é um ato de amar a mim mesmo e a tudo que tenho e sou. Nesse dia especial para todos nós. Penso na deficiência não como um entrave, mas como um dom, um presente que eu aprendi a usufruir. Obrigado baixa visão, por ter a chance de perceber isso!