No dia 27 de outubro de 2013, no Centro Cívico Sant Antoni
(Barcelona), participei de uma pesquisa cujo objetivo era verificar as
preferências pelos diferentes estilos de audiodescrição. Tal investigação é
realizada em alguns países da Europa. Na Espanha, ficou a cargo da Universitat
Autonoma de Barcelona, instituição em que faço meu doutorado sanduíche.
Tive a
honra de ser convidado pela professora Pilar Orero a participar junto com mais
dez pessoas desse experimento, envolvendo a investigação em audiodescrição e a
constituição de estilos de construção do recurso na Europa, levando em conta as
opiniões especializadas de usuários da audiodescrição.
Essa
pesquisa é efetuada em conjunto por instituições de seis países: Alemanha,
Itália, Bélgica, Polônia, Portugal e Espanha. O experimento é feito com a mesma
metodologia em todos os locais, conforme nos fora informado no momento de sua
realização.
A atividade
começou com a exibição de parte do filme “Bastardos
inglórios” de Quentin Tarantino. Durante vinte minutos, assistimos ao
trecho da obra com audiodescrição. Depois disso respondemos a uma série de
vinte perguntas relacionadas à audiodescrição em geral e outras sobre a
audiodescrição do filme.
As questões
eram relacionadas tanto ao que conseguimos absorver de informações com o uso da
AD, quanto à pertinência ou não da utilização de nomenclaturas cinematográficas
e visuais para descrever enquadramentos e planos utilizados no filme.
Após ter
respondido a essas primeiras perguntas, passamos para a segunda etapa que
consistiu em assistir a quatro clipes de cinco minutos cada, com uma determinada
parte do vídeo visto antes. Porém, nessas exibições foram apresentadas
diferentes versões de audiodescrição sobre os mesmos trechos.
Quando
terminava a exibição de cada clipe, respondíamos a cinco perguntas referentes
ao estilo de audiodescrição empregado, opinando sobre o quanto de informação
apreendemos e de que modo conseguimos ou não construir as imagens através do
recurso. Também fomos arguidos sobre qual estilo nos proporcionava mais
entendimento e ao mesmo tempo fruição com a obra exibida.
O que pude
perceber nesse experimento é o constante interesse em buscar a melhor
compreensão possível e a excelência na criação de audiodescrição. No Brasil,
temos louváveis pesquisas acadêmicas semelhantes, mas elas ainda são
incipientes e não congregam um número expressivo de universidades, o que as
fazem ficar muito isoladas. Na Europa se
procura interação e intercâmbio entre pesquisadores para a construção de um
padrão para o recurso.
Mais
importante do que isso, essas pesquisas estão sempre voltadas ao gosto e desejo
dos usuários da audiodescrição. São eventos realizados com pessoas familiarizadas
com o recurso, que tem compreensão sobre como ele funciona e quais as suas
nuances. Ou seja, isso é uma demonstração da importância da pessoa com
deficiência visual no processo de construção da AD, o que reforça ainda mais a
necessidade dos consultores nas equipes de audiodescritores.
Dos quatro
estilos apresentados na pesquisa, cada um deles tinha seus prós e contras. Dois
deles eram bem mais informativos, cujo roteiro continha descrições sobre o
ambiente e as ações dos personagens. Porém, ao privilegiar apenas esses itens,
ficaram um pouco de lado as expressões corporais e sensações dos personagens.
A diferença
entre os dois primeiros, é que um fazia referência aos planos e enquadramentos
e o outro não trazia tais informações. Além disso, no primeiro a narração teve
mais “força”, com a utilização de uma locução mais firme e sem modificação na
entonação. Já o outro, teve uma locução menos rígida, ainda que eu tenha
percebido a tentativa de manutenção da neutralidade, ela estava mais “solta”.
O terceiro
vídeo tinha um estilo de audiodescrição muito diferente do que assistira
anteriormente. O roteiro foi feito de tal modo que foram descritas as partes
tidas como fundamentais das cenas, com frases mais curtas e com mais espaços
para o áudio original do filme, ainda que fossem momentos sem diálogos e
somente com a trilha sonora. Ficou evidente o privilégio à objetividade da
audiodescrição..
Nesse caso,
o clima do filme pareceu mais próximo de nós, ainda mais porque a narração foi
feita em tom mais “amigável” e com diferenças de entonação que ajudavam na
compreensão da cena. No entanto, me pareceu que ficaram faltando algumas
informações que permitissem um maior entendimento sobre as cenas e sobre o
sentido e sentimento a ser passado no referido trecho. Com a tentativa de
objetividade, ficaram faltando detalhes, o que para mim é algo imprescindível
em uma AD.
Por fim, o
último clipe foi o mais parecido com a audiodescrição do vídeo mais longo
exibido primeiro. Nele, a AD buscou fazer uma mescla entre o estilo mais
objetivo e os que priorizam um maior detalhamento das cenas, como cenários e
expressões dos personagens. Com um roteiro mais longo e completo, foi possível
compreender os planos em que a cena foi filmada, ter um número maior de
informações sobre os acontecimentos e, referências que possibilitaram sentir
aquilo que se passava.
Embora em
ritmo mais acelerado, a narração foi um meio termo entre a objetividade dos
dois primeiros e a “suavidade” do terceiro, além disso, o áudio foi inserido em
um volume um pouco mais alto. Sendo assim, creio que esse foi o trecho que
tentou fazer uma média entre os três estilos exibidos antes.
Claro que
estou aqui exibindo apenas as minhas observações, talvez outro usuário que
assistiu aos mesmos clipes poderá ter percepções completamente diferentes das
minhas, logo, o que estou fazendo é relatar o meu ponto de vista, que é
humildemente, apenas uma vista de determinado ponto.
Algumas
coisas me deixaram muito feliz ao participar desse experimento. O primeiro fato
que me deu alegria foi o convite que recebi para fazer parte desse grupo. Além
disso, ver que se fazem pesquisas sobre audiodescrição nesse nível e com essa
complexidade, envolvendo diversos países, é muito estimulante.
Por outro
lado, o fato de se prover protagonismo ao usuário com deficiência visual é algo
que muitos audiodescritores deveriam observar com atenção. O público não é
tratado como mero receptor do recurso, mas como parte do processo de construção
da AD, o que é algo que eu sempre faço questão de ressaltar. Afinal, fazer
audiodescrição com e não para o usuário é sempre mais enriquecedor no sentido
de compartilharmos experiências e sensações que vivenciamos. Eis a importância
de nosso protagonismo no processo.
Também me
deixou muito satisfeito notar que a audiodescrição feita no Brasil – estou
falando em geral e por pessoas habilitadas para isso – é muito semelhante a
realizada em outros países com uma trajetória de tempo e estudos menor do que a
europeia. Se um roteiro daqueles fosse narrado em português, dificilmente
alguém notaria a diferença, o que demonstra nossa evolução e qualificação cada
vez maior.
Ao
compartilhar ideias com os colegas que participavam da pesquisa e ao verificar
o estilo de audiodescrição feito na Europa, percebi que os desejos e
posicionamentos dos usuários espanhóis são semelhantes aos nossos. Ou seja, ser
favorável a audiodescrições que privilegie a informação, mas que não deixem de
lado em momento nenhum o entendimento de que também queremos um pouco de
sensação, de AD que tente passar em seu roteiro e narração a emoção – ou não –
que está sendo transmitida pelo produto. Isso ajuda na fruição e no vínculo com
o que estamos assistindo.
Portanto,
acho que a audiodescrição brasileira, no que diz respeito ao avanço técnico
está indo muito bem, embora possa melhorar. Tenho orgulho de dizer que faço parte de uma equipe
na qual privilegiamos exatamente esses pontos: informação e emoção. Essa
experiência me deu ainda mais certeza de que estamos indo no caminho certo, e
que continuaremos andando a passos largos, sempre aprendendo e melhorando nosso
jeito de fazer.
Enfim, viva
a qualidade da audiodescrição no Brasil, pois temos sim profissionais de
excelência, que fazem trabalhos que não ficam devendo em nada a outros
audiodescritores do mundo. Sigamos evoluindo, pois para frente é que se anda,
como me ensinou a minha bengala branca!
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