sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Bengalandoem Barcelona (visitando a Casa Batló)

A Casa Batlló, construída entre 1904 e 1906, é a obra mais emblemática do famoso arquiteto catalão Antoni Gaudi. A fachada é fantástica e cheia de imaginação. Ele substituiu a antiga fachada por um novo conjunto de pedra e vidro, mandando moldar as paredes exteriores para dar sua forma ondulada. Seu interior é uma obra-prima de forma, cor e luz.
Barcelona e os turistas que vão à cidade tem uma relação afetiva com o local. Esse é um dos pontos turísticos mais conhecidos da capital catalã, o que a faz estar repleta de gente durante todos os horários do dia.
Chegar até a Batló é um tanto fácil, pois existe uma grande malha de linhas de metrô e ônibus que tem estações no entorno do local. As estações de metrô contam com piso podotátil, com mapas em alto relevo e com mapas em tamanho ampliado.
Para aqueles que vão de ônibus, os veículos que fazem as linhas que chegam a Batló estão dotados de avisos sonoros sobre as paradas e com letreiros em fontes grandes e com bom contraste, ajudando no momento de tomar o coletivo certo e de descer no ponto indicado sem maiores problemas.
Ao descer de algum dos meios de transporte coletivo escolhido, há um pequeno trajeto a ser feito a pé, sem pisos táteis ou sinalizações sobre as ruas ou como acessar a entrada da referida casa. Outra questão que dificulta um pouco é o fato de estar sempre repleto de pessoas em volta das entradas, pois o contingente de turistas é sempre grande, podendo atrapalhar uma circulação adequada, ainda que haja segurança para tal. Também será preciso pedir ajuda para encontrar a bilheteria caso a pessoa cega ou com baixa visão decida ir sozinha até lá, pois é um tanto escondida.
Antes de ir até a Casa Batló, colhi algumas informações básicas para me situar sobre a visita que faria. Dentre tantas coisas que pude conhecer em sua página na internet, é que a administração do local desenvolve um projeto com o objetivo de tornar-se cada vez mais acessível às pessoas com deficiência.
Para tanto, contrataram a consultoria da ONCE (Organização Nacional dos Cegos da Espanha) para prestar consultoria sobre as melhores formas de como fazer para conseguir o objetivo de facilitar o conhecimento da casa por pessoas cegas e com baixa visão.
Isso demonstra algo muito importante que temos a aprender, e que algumas empresas e instituições brasileiras já procuram seguior, ainda que em minoria, que é promover a acessibilidade dando o protagonismo de tais ações para as próprias pessoas com deficiência que tenham conhecimentos para realizar esse tipo de trabalho.
Ou seja, não desejam apenas assistir as necessidades das pessoas com deficiência, mas tê-las como parceiras nas iniciativas de tornar suas instalações mais acessíveis e sensíveis a todos os públicos, principalmente aqueles com deficiência visual. Ainda mais que, o mais importante da casa são as obras de Gaudi cuja predominância visual é evidente, onde a sensação e fruição está na parte da visualidade, tornando premente a necessidade de ações que provenham acessibilidade ao público cego e com baixa visão.
Sei que existem iniciativas para prestar acessibilidade a outros públicos, como é o caso dos surdos que recebem materiais em vídeo e há sempre profissionais conhecedores de língua de sinais por lá disponíveis para atendê-los. Sobre as pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida, sei que há algumas medidas, mas elas não são tantas, apenas elevadores e nem tão adaptados assim.
Quando cheguei na bilheteria, soube que pessoas com deficiência pagavam uma entrada completa, sem direito a desconto ou isenção, mas, tinham direito a um acompanhante que não pagava ingresso. E me foi explicado o motivo pelo qual se cobrava esse tipo de tarifa.
Aqui em Barcelona existe uma “troca”, que não julgarei se é justa ou não, apenas constato: quando um lugar tem acessibilidade plena, não oferece nenhum tipo de isenção ou desconto para pessoas com deficiência. Por outro lado, se existe falta de acessibilidade grave ou mesmo mínima que seja, há um desconto ou tarifa promocional para essas pessoas. Então, esse desconto é sempre tido como um “pedido de desculpas” do lugar por não estar adaptado, e uma forma de compensar essa falta.
Na casa idealizada por Gaudi não é diferente. A questão é que segundo me explicou um dos monitores, como não há pessoal suficiente para guiar as pessoas com deficiência visual pelo ambiente, e como não foram feitas adaptações na casa para pessoas com deficiência visual em termos de arquitetura para não interferir na obra, se faculta um  acompanhante a pessoas cegas e com baixa visão para que possam acessar os ambientes copm segurança e auxilio daquele que o acompanha.
Ao entrar no local, percebi que existem elevadores para todos os pisos, mas preferi subir de escada, e percebi que embora não haja muita luminosidade, o corrimão é amplo e f´[acil de ser usado por uma pessoa com deficiência visual.
Especialmente no segundo piso, dentre as diversas salas, em uma delas há materiais em braile e em alto relevo com informações sobre a casa e sobre seu contexto. Há também uma maquete da fachada, que é riquíssima em detalhes de cada forma idealizada por Gaudi. Ao tocar aquela maquete pude entender e sentir o mesmo que as demais pessoas, ter contato com o estilo do artista.
Pude conhecer cada forma, cada curva da casa, cada nuances das decorações e mobiliários pensados por Gaudi, além de constatar por exemplo, que conforme as informações que tivera antes, de fato parece mesmo uma casa voltada para a temática marinha. O que só foi possível por ter  a chance de tocar em maquetes, ter informações em formato acessível e com a utilização do audioguia.
O visitante tendo ou não deficiência, recebe na entrada um audioguia. Isso propicia cenas muito interessantes, como ver diversas pessoas paradas nas salas da casa abertas a visitação, contemplando o lugar e ouvindo seus audioguias. Para as pessoas com deficiência visual ele é ainda mais importante para a compreensão e fruição do que está exposto, dado que muitas das obras não contam com maquetes ou podem ser tocadas, como os que ficam do lado externo da casa ou em uma altura que inviabilize o toque.
O audioguia foi concebido por profissionais  que tiveram a consultoria de pessoas ligados à ONCE, ou seja, pessoas com deficiência visual ajudaram no trabalho de construção desse material. Creio que o fato de cegos e?ou pessoas com baixa visão terem participado desse processo ajude a explicar a excelente qualidade do produto.
Isso porque, ao ouvir todas as faixas pude notar que é algo muito completo. Nas primeiras faixas, explica-se quem foi Gaudi, bem como suas principais obras e quais as características principais de suas obras. Além disso, conta a história da Casa Batló e como o arquiteto catalão concebeu cada canto da casa. Ter essa noção de contexto ajuda muito a compreender a obra como um todo.
Nas faixas seguintes, são apresentadas cada uma das salas dos cinco andares do lugar. Em cada metro de todos os ambientes há referências e formas diferentes, algumas que podem ser tocadas são mencionadas que isso pode ser feito no audioguia. E, em todas elas são mencionadas as formas, cores, texturas, tamanhos e outros tantos detalhes que ajudam a formar imagens mentais quase completas sobre aquilo que está sendo falado.
Não são apenas comentários sobre cada obra, mas também são feitas descrições minuciosas das mesmas em sua maioria, unindo audioguia e audiodescrição em um mesmo produto. São raros os audioguias que tem a propriedade de fazer descrições detalhadas e não só comentários sobre as obras, de modo que ajudam mas não como um todo nesse entendimento do que se está explicando.
Por fim, no texto do audioguia há algo muito importante para pessoas com deficiência visual que são as orientações sobre os espaços. Nesse caso, no princípio de cada faixa o narrador informa em que local o ouvinte se encontra, mencionando também a todo o instante a orientação espacial sobre aquilo que está sendo dito.
Ao final, são dadas orientações sobre como a pessoa deve proceder para ir até o próximo local a ser visitado, e assim facilitando a locomoção daqueles que não enxergam ou necessitam de algum auxílio visual.
Portanto, creio que seja um produto completo e que além de satisfazer as necessidades sobre o conteúdo artístico, ajuda no deslocamento e no acesso das pessoas cegas e com baixa visão aos diversos ambientes. Sendo assim, a visita se torna muito mais proveitosa e repleta de conhecimentos e sensações.
Diante de tudo que relatei, acredito que a acessibilidade na Casa batló seja bem completa, sendo um lugar que merece a visita de todos, que toma a acessibilidade não como uma obrigação, mas como um fator de acolhimento, e é exatamente disso que precisamos:acessibilidade com qualidade, protagonismo das pessoas com deficiência e acolhimento em todos os sentidos.

                                                                                            
Descrição da foto: 
Fachada da Casa Batló à noite. Sçao cinco andares na cor creme, cuja iluminação faz ressaltar suas formas onduladas e desenhos de formas diversas que lembram figuras marinhas.
Fim da descrição









Descrição da foto
Com um casaco de couro verde escuro e um cachecol vermelho estou de perfil, tocando a parte superior de uma maquete da fachada da Casa Batló.
Fim da descrição











                                                                                         

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pronunciamento do Senador Paulo Paim sobre a ampliação da audiodescrição na tv aberta

A audiodescrição na televisão brasileira
Senhor Presidente,
Senhoras e Senhores Senadores.

Registro carta que me foi entregue pelo senhor  Felipe Leão Mianes    sobre audiodescrição na televisão brasileira.

No último dia 11 de outubro, o Ministério Público Federal obteve êxito no Tribunal Regional Federal de Brasília, em uma ação movida contra o Ministério das...

...Comunicações para a retomada do cronograma de implantação da audiodescrição na televisão brasileira estabelecida na Portaria 310, no ano de 2006.

Nela, foi determinado que cada emissora deveria exibir 2 horas diárias de audiodescrição, aumentando 2 horas por ano até se chegar aos 100% da programação.

Tal Portaria foi cancelada pelo Ministério das Comunicações, após forte pressão das concessionárias dos serviços de radiodifusão.

Atendendo apenas aos argumentos das emissoras de TV, o órgão emitiu a Portaria 188, em 2010, estabelecendo um cronograma completamente diferente do anterior.

Nesse caso, seriam 2 horas semanais de audiodescrição, ampliadas a cada dois anos até se chegar a 20 horas semanais de audiodescrita.

Na decisão judicial, um dos argumentos utilizados pelo relator, é de que não pode haver retrocesso em direitos fundamentais adquiridos (conforme decisões do Supremo Tribunal Federal).

O Ministério das comunicações tem 60 dias a contar da intimação para emitir portaria retomando o cronograma.

A União, infelizmente entrou com recurso contrário a ampliação da audiodescrição na TV aberta brasileira.

Não conseguimos compreender qual o motivo que leva o governo a ser contra a acessibilidade e a direitos já adquiridos.

Tais direitos estão vinculados aos direitos humanos e de acesso à informação, e portanto, não podem ser assim retirados simplesmente.

Com tal decisão da União, nos sentimos excluídos, discriminados e indignados, palavras aqui do senhor Felipe Leão Mianes.
          
Sou favorável, senhor Presidente, a retomada do cronograma original de implantação da audiodescrição na televisão brasileira. Já solicitei a minha assessoria que entre em contato com o Ministério das Comunicações.




Os benefícios da audiodescrição são inúmeros e é parte do processo de inclusão cultural de todas as pessoas com deficiência. Defender o direito à acessibilidade é agir em favor dos Direitos Humanos e da inserção social de todos os indivíduos.

A audiodescrição é um recurso fundamental para a aquisição de informação, conhecimento e entretenimento por parte daqueles que a utilizam.

E quanto maior a oferta, maiores serão as possibilidades para que essas pessoas estejam cada vez mais inseridas socialmente.

Segundo o censo do IBGE, o Brasil tem mais de 45 milhões de pessoas com deficiência, isso significa que 23,9% da população se beneficia com a audiodescrição.

Portanto, todas essas pessoas têm direito ao acesso pleno a todas as formas de comunicação.

Senhoras e Senhores Senadores. Esperamos que as pessoas com deficiência tenham pleno acesso a esse meio cultural essencial para a inclusão social.

Era o que tinha a dizer,
Senador Paulo Paim. Desenvolvido por Oliver Media

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

EU ESTOU PRESO!

Estamos vivendo dias em que se discute o que é um preso político ou um julgamento justo da mais alta corte brasileira. Políticos brasileiros de biografia e poder reconhecido até pouco tempo foram condenados a prisão por diversos crimes. Muitos correligionários tem feitos protestos a favor, outros tem protestado contra.
Acho que tudo isso é uma briga eleitoral que vai resultar no pleito do próximo ano. Mas, o que as pessoas não se dão conta é que pessoas com deficiência também vivem em regime de prisão. Umas vivem em prisão domiciliar e outras em liberdade condicional.
Estou preso porque não posso sair de casa sem me incomodar com a falta de acessibilidade nas cidades, que me provocam ferimentos físicos e psicológicos.
Estou preso, porque sempre que quero assistir tv não tenho audiodescrição, e o governo é a favor das emissoras em não ampliar o recurso.
Estou preso, porque quando quero ir ao teatro, ao cinema ou a um outro ambiente cultural não consigo chegar aos locais ou usufruir das obras com acessibilidade necessária. Não há  na imensa maioria das instituições culturais qualquer preocupação com isso.
Estou preso, porque o mercado de trabalho não aceita que eu seja alguém com defici~encia qualificado, e me oferece sempre as mesmas vagas com salários ridículos e incompatíveis com minha formação. Não acreditam que nós possamos ter um cargo de liderança ou destaque na empresa e servimos apenas para atender telefone, programar computadores ou vender bilhetes de loteria.
Estou preso, porque toda vez que faço concurso público sou discriminado e humilhado pelas realizadores com exigências mil, e pelos entes públicos realizadores que menosprezam o potencial de pessoas com deficiência.
Estou preso, porque vivo em uma sociedade que não sabe conviver com a diferença e sempre tem um olhar de menosprezo ou supervalorização. Muita gente ainda duvida que mesmo eu tendo deficiência possa ser feliz e ter orgulho de minha condição.
Estou preso, porque sempre recaem sobre nós os estigmas do fracasso, da incapacidade e da falta. Se faço algo errado é por conta da deficiência, se faço certo é apesar dela. Se estou de bom humor, sou um cego feliz, senão, sou recalcado. Nunca posso ser exatamente eu mesmo.
Estou preso, porque apesar das politicas de inclusão as escolas continuam sem saber como lidar com a deficiência, sem acolher seus alunos em sua diferença. Continuam pensando mais em quais recursos disponibilizar e menos na diferença que deveriam acolher. As universidades continuam não preparando docentes para lidar com nossas especificidades, e depois colocam a culpa no professor.
Estou preso, porque ao invés dos governantes fazerem sua parte para tornar a educação, a cultura e o cotidiano das pessoas com deficiência melhor, perdem tempo com politicagens e factoides. Ao invés de privilegiar os direitos humanos, agem em favor de outros interesses que não o dos cidadãos. Dizem trabalhar pela diversidade, mas cada vez mais restringem direitos.
Senhores, eu também sou preso político!
Estou preso por conta de uma política de desrespeito aos direitos humanos e das pessoas com deficiência por conta de uma sociedade que não sabe pensar no outro, que não aprendeu a respeitar e compartilhar com a diferença.
E o pior, dificilmente um embargo infringente poderá me livrar de tudo isso!

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Bengalando em Barcelona (atendimento aos alunos com deficiência na UAB)



No dia 11 de novembro, tive uma reunião com a coordenadora do PIUNE (Programa de Integração de Universitários com Necessidades Especiais), Judit Oliver, na qual pude conhecer as diretrizes do programa, dentre as quais: os modos de funcionamento, sua estrutura e filosofias para atendimento de alunos com necessidades especiais na UAB (Universidade autônoma de Barcelona). Nessa oportunidade me repassou alguns materiais com uma série de dados muito importantes para pesquisas futuras.
O PIUNE oferece diversos recursos para a inclusão dos alunos com deficiência que ingressam na universidade. Sua principal diretriz é promover autonomia a esses alunos em todos os âmbitos da universidade. Seu atendimento é bem amplo, chegando a cerca 119 alunos em 2012, dos quais 29 deles com deficiência visual.
Os serviços que prestam são os mais variados, dentre os quais se destacam:
1-    Plano de individual de atenção: onde são estabelecidas as necessidades e recursos de acessibilidade a serem providos para cada aluno.
2-    Tutores individuais: cada aluno atendido recebe a atenção de um tutor para auxílio à mobilidade e aprendizagem.
3-    Adaptação dos sistemas de avaliação conforme as necessidades e possibilidades de cada aluno.
4-    Assistência ao estudante para informação e disponibilização de novas tecnologias que auxiliem em seu aprendizado.
5-    Interpretes de línguas de sinais em todas as atividades acadêmicas.
Dentre os diversos serviços prestados para os alunos, destacam-se o assessoramento à mobilidade e acompanhamento de alunos com necessidades especiais, suporte de estudantes/tutores como auxílio à aprendizagem, suporte pedagógico e tecnológico, disponibilização de materiais acessíveis, programas de intercâmbio, suporte e integração laboral e as cabines de aprendizagem.
Estas, são cabines em que cada aluno dispõe dos recursos tecnológicos e de pessoal preparado para proporcionar momentos de estudos extra classe caso o aluno deseje. Ou seja, algo como um laboratório de aprendizagem com todos os recursos de acessibilidades disponíveis para que o acadêmico possa estudar no momento que quiser sobre o assunto que mais lhe convier.
Para tanto, procuram agir globalmente, desde a preparação dos estudantes até a formação de professores, funcionários e outros agentes que atuem na UAB. Sempre tendo em vista que o objetivo principal é promover a máxima autonomia estudantil, laboral e social dos estudantes com necessidades especiais.
Em primeiro lugar, o sistema de atendimento dos estudantes é por auto adesão, ou seja, o aluno procura o programa e o utiliza se tiver vontade. Nesse caso, pode fazer isso antes mesmo de ingressar na universidade, solicitando apoio para os processos de ingressos, que vão de transporte especial até materiais com letras ampliadas.
Esse tipo de atuação gera a necessidade de conhecimentos de todos os envolvidos com a comunidade universitária sobre o PIUNE, para que caso um estudante deseje requisitar ajuda, saiba como e onde fazer isso.
Um de seus grandes méritos é a divulgação maciça e a criação de uma rede dentro da UAB, em que todas as faculdades e departamentos, assim como a maioria das pessoas que convivem no ambiente da universidade conhecem o PIUNE e podem orientar aquele que deseje ser atendido. Essas diretrizes de fato exigem que tais redes sejam sólidas para que se possa ter a maior efetividade possível no trabalho desenvolvido.
Nesse sentido, o PIUNE age em diversas frentes de ação. Uma delas é a divulgação e diálogo intermitente com as faculdades sobre o funcionamento do programa, para que se algum aluno chegar à faculdade solicitando ajuda, seja encaminhado para lá. Por outro lado, esse diálogo ajuda a conscientizar os gestores e professores da importância de prover acessibilidade.
Todos saberem da existência do PIUNE, facilita a otimização do tempo, bem como da contemplação das necessidades dos alunos diante do que solicita o professor. Este, na maioria das vezes, envia materiais com bastante antecedência para adaptação caso necessário.
Ao contrário do que acontece no Brasil, o planejamento e provimento dos recursos de acessibilidade para cada aluno acontece antes e não durante e depois de seu ingresso em determinado curso ou disciplina. Isso permite que todos os alunos tenham acompanhamento sem atrasos ou prejuízos no andamento do período letivo.
A segunda frente de trabalho, está voltada aos funcionários que atuam na universidade, seja no âmbito acadêmico ou da vila universitária, suas lojas e outros estabelecimentos que prestam serviços aos acadêmicos. Junto a essas pessoas, estão incluídos os alunos. Há diversos cursos desenvolvidos semestralmente objetivando a formação de todos na UAB para que conheçam e se sensibilizem com as diversas formas de lidar com as pessoas com deficiência, surdas e que tenham outra necessidade específica.
Ou seja, capacitam esses sujeitos para e a realidade e algumas das necessidades das pessoas com deficiência. Objetivam também, diluir os preconceitos e estigmas, valorizando o respeito, a aceitação e o compartilhamento com as diferenças. A ideia como um todo é colocar em prática as diretrizes da Catalunha em termos de acessibilidade e de convívio com as diferenças, que é o respeito ao considerado diferente e a percepção de que se tratam de pessoas com os mesmos direitos de todas.
Isso ajuda na dissolução de barreiras não só na universidade, mas em todas as esferas sociais. Já que, ao conhecer a realidade e o direito das pessoas com deficiência, os estudantes não os vêem como estranhos, como anormais ou como dignos de sentimentos de piedade ou supervalorização. Aprendem a ver primeiro o sujeito e não sua limitação física ou sensorial. Logo, além de incrementar a qualidade acadêmica dos alunos com e sem deficiência agrega um valor social inestimável ao projeto.
Tal política levada a cabo no PIUNE faz parte de um regimento específico promulgado em 1999, com força de determinação legal dentro da universidade. O Regramento de igualdades de oportunidades para as pessoas com necessidades especiais, regulamenta todas as políticas da UAB para o atendimento das consideradas minorias sociais. Ou seja, a acessibilidade não é uma condição negociável, ou mesmo uma questão de boa vontade, mas sim, uma obrigação regimental.
Se um professor se negar a proporcionar condições de acessibilidade ao seu aluno, ou atrasar algo que prejudique seu desempenho, assim como, se as faculdades não fizerem a sua parte para prover acessibilidade em todos os âmbitos para os alunos, os docentes e gestores são responsabilizados por essa quebra regimental.
Não se pode alegar desconhecimento, falta de recursos ou a inexistência de pessoas com deficiência e necessidades especiais em determinados ambientes para que a acessibilidade não exista. É uma obrigação que todos os espaços estejam adaptados, e que as condições sejam dadas, pois se não há uma pessoa que necessite hoje, a ideia é trabalhar para que amanhã haja.
Acredito que essa visita foi muito esclarecedora para meus trabalhos e para minhas convicções enquanto pessoa e docente. Percebi que é possível atingir o patamar que no Brasil se considera utópico, de atender as pessoas com necessidades especiais com autonomia, qualidade, rapidez e compartilhando com suas diferenças. A precariedade de muitas instituições de Ensino Superior às vezes nos leva a crer que chegar a esses resultados é impossível, mas não concorde com isso nunca, pois não é verdade.
Contudo, o que vi, li e ouvi hoje, me faz crer que com um pouco de boa vontade, respeito ás diferenças e uma grande dose de reivindicação das pessoas com deficiência, é possível alcançarmos a excelência no que tange ao atendimento de pessoas com necessidades especiais nas universidades.
Não como uma concessão, não como um beneficio, não como um projeto individual e efêmero, e sim, com regulamentações sólidas e claras que todos devem cumprir e que continuarão sendo levados a cabo independente de quem esteja momentaneamente participando do contexto acadêmico.
Ver que o impossível é realizável também me faz pensar que a deficiência não está nas pessoas atendidas, e sim, naqueles que fingem que a diferença não existe e que fazem de tudo para tornar essa realidade muito distante. Continuar reivindicando é a única e profícua forma que temos de alcançar o patamar conquistado pelos acadêmicos com deficiência da UAB e de toda Catalunha.