segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Participação em pesquisa sobre a audiodescrição na Europa



No dia 27 de outubro de 2013, no Centro Cívico Sant Antoni (Barcelona), participei de uma pesquisa cujo objetivo era verificar as preferências pelos diferentes estilos de audiodescrição. Tal investigação é realizada em alguns países da Europa. Na Espanha, ficou a cargo da Universitat Autonoma de Barcelona, instituição em que faço meu doutorado sanduíche.
Tive a honra de ser convidado pela professora Pilar Orero a participar junto com mais dez pessoas desse experimento, envolvendo a investigação em audiodescrição e a constituição de estilos de construção do recurso na Europa, levando em conta as opiniões especializadas de usuários da audiodescrição.
Essa pesquisa é efetuada em conjunto por instituições de seis países: Alemanha, Itália, Bélgica, Polônia, Portugal e Espanha. O experimento é feito com a mesma metodologia em todos os locais, conforme nos fora informado no momento de sua realização.
A atividade começou com a exibição de parte do filme “Bastardos inglórios” de Quentin Tarantino. Durante vinte minutos, assistimos ao trecho da obra com audiodescrição. Depois disso respondemos a uma série de vinte perguntas relacionadas à audiodescrição em geral e outras sobre a audiodescrição do filme.
As questões eram relacionadas tanto ao que conseguimos absorver de informações com o uso da AD, quanto à pertinência ou não da utilização de nomenclaturas cinematográficas e visuais para descrever enquadramentos e planos utilizados no filme.
Após ter respondido a essas primeiras perguntas, passamos para a segunda etapa que consistiu em assistir a quatro clipes de cinco minutos cada, com uma determinada parte do vídeo visto antes. Porém, nessas exibições foram apresentadas diferentes versões de audiodescrição sobre os mesmos trechos.
Quando terminava a exibição de cada clipe, respondíamos a cinco perguntas referentes ao estilo de audiodescrição empregado, opinando sobre o quanto de informação apreendemos e de que modo conseguimos ou não construir as imagens através do recurso. Também fomos arguidos sobre qual estilo nos proporcionava mais entendimento e ao mesmo tempo fruição com a obra exibida.
O que pude perceber nesse experimento é o constante interesse em buscar a melhor compreensão possível e a excelência na criação de audiodescrição. No Brasil, temos louváveis pesquisas acadêmicas semelhantes, mas elas ainda são incipientes e não congregam um número expressivo de universidades, o que as fazem ficar muito isoladas.  Na Europa se procura interação e intercâmbio entre pesquisadores para a construção de um padrão para o recurso.
Mais importante do que isso, essas pesquisas estão sempre voltadas ao gosto e desejo dos usuários da audiodescrição. São eventos realizados com pessoas familiarizadas com o recurso, que tem compreensão sobre como ele funciona e quais as suas nuances. Ou seja, isso é uma demonstração da importância da pessoa com deficiência visual no processo de construção da AD, o que reforça ainda mais a necessidade dos consultores nas equipes de audiodescritores.
Dos quatro estilos apresentados na pesquisa, cada um deles tinha seus prós e contras. Dois deles eram bem mais informativos, cujo roteiro continha descrições sobre o ambiente e as ações dos personagens. Porém, ao privilegiar apenas esses itens, ficaram um pouco de lado as expressões corporais e sensações dos personagens.
            A diferença entre os dois primeiros, é que um fazia referência aos planos e enquadramentos e o outro não trazia tais informações. Além disso, no primeiro a narração teve mais “força”, com a utilização de uma locução mais firme e sem modificação na entonação. Já o outro, teve uma locução menos rígida, ainda que eu tenha percebido a tentativa de manutenção da neutralidade, ela estava mais “solta”.
O terceiro vídeo tinha um estilo de audiodescrição muito diferente do que assistira anteriormente. O roteiro foi feito de tal modo que foram descritas as partes tidas como fundamentais das cenas, com frases mais curtas e com mais espaços para o áudio original do filme, ainda que fossem momentos sem diálogos e somente com a trilha sonora. Ficou evidente o privilégio à objetividade da audiodescrição..
Nesse caso, o clima do filme pareceu mais próximo de nós, ainda mais porque a narração foi feita em tom mais “amigável” e com diferenças de entonação que ajudavam na compreensão da cena. No entanto, me pareceu que ficaram faltando algumas informações que permitissem um maior entendimento sobre as cenas e sobre o sentido e sentimento a ser passado no referido trecho. Com a tentativa de objetividade, ficaram faltando detalhes, o que para mim é algo imprescindível em uma AD.
Por fim, o último clipe foi o mais parecido com a audiodescrição do vídeo mais longo exibido primeiro. Nele, a AD buscou fazer uma mescla entre o estilo mais objetivo e os que priorizam um maior detalhamento das cenas, como cenários e expressões dos personagens. Com um roteiro mais longo e completo, foi possível compreender os planos em que a cena foi filmada, ter um número maior de informações sobre os acontecimentos e, referências que possibilitaram sentir aquilo que se passava.
Embora em ritmo mais acelerado, a narração foi um meio termo entre a objetividade dos dois primeiros e a “suavidade” do terceiro, além disso, o áudio foi inserido em um volume um pouco mais alto. Sendo assim, creio que esse foi o trecho que tentou fazer uma média entre os três estilos exibidos antes.
Claro que estou aqui exibindo apenas as minhas observações, talvez outro usuário que assistiu aos mesmos clipes poderá ter percepções completamente diferentes das minhas, logo, o que estou fazendo é relatar o meu ponto de vista, que é humildemente, apenas uma vista de determinado ponto.
Algumas coisas me deixaram muito feliz ao participar desse experimento. O primeiro fato que me deu alegria foi o convite que recebi para fazer parte desse grupo. Além disso, ver que se fazem pesquisas sobre audiodescrição nesse nível e com essa complexidade, envolvendo diversos países, é muito estimulante.
Por outro lado, o fato de se prover protagonismo ao usuário com deficiência visual é algo que muitos audiodescritores deveriam observar com atenção. O público não é tratado como mero receptor do recurso, mas como parte do processo de construção da AD, o que é algo que eu sempre faço questão de ressaltar. Afinal, fazer audiodescrição com e não para o usuário é sempre mais enriquecedor no sentido de compartilharmos experiências e sensações que vivenciamos. Eis a importância de nosso protagonismo no processo.
Também me deixou muito satisfeito notar que a audiodescrição feita no Brasil – estou falando em geral e por pessoas habilitadas para isso – é muito semelhante a realizada em outros países com uma trajetória de tempo e estudos menor do que a europeia. Se um roteiro daqueles fosse narrado em português, dificilmente alguém notaria a diferença, o que demonstra nossa evolução e qualificação cada vez maior.
Ao compartilhar ideias com os colegas que participavam da pesquisa e ao verificar o estilo de audiodescrição feito na Europa, percebi que os desejos e posicionamentos dos usuários espanhóis são semelhantes aos nossos. Ou seja, ser favorável a audiodescrições que privilegie a informação, mas que não deixem de lado em momento nenhum o entendimento de que também queremos um pouco de sensação, de AD que tente passar em seu roteiro e narração a emoção – ou não – que está sendo transmitida pelo produto. Isso ajuda na fruição e no vínculo com o que estamos assistindo.
Portanto, acho que a audiodescrição brasileira, no que diz respeito ao avanço técnico está indo muito bem, embora possa melhorar.  Tenho orgulho de dizer que faço parte de uma equipe na qual privilegiamos exatamente esses pontos: informação e emoção. Essa experiência me deu ainda mais certeza de que estamos indo no caminho certo, e que continuaremos andando a passos largos, sempre aprendendo e melhorando nosso jeito de fazer.
Enfim, viva a qualidade da audiodescrição no Brasil, pois temos sim profissionais de excelência, que fazem trabalhos que não ficam devendo em nada a outros audiodescritores do mundo. Sigamos evoluindo, pois para frente é que se anda, como me ensinou a minha bengala branca!

sábado, 9 de novembro de 2013

Pela ampliação da audiodescrição na tv aberta brasileira

Ola pessoal!
Fiz um video para dar minha opinião, reivindicar e pedir para que todos compartilhem a ideia de termoas mais audiodescrição na tv aberta.
O governo através do ministério das comunicações não parece gostar muito de ampliar acessibilidade na tv, justamente por isso, temos que fazer nossa parte e pressionar, fazer muito barulho, vamos nessa comigo!

http://www.youtube.com/watch?v=HFzEy5UF59E&feature=youtu.be

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Nota de apoio à ação do Ministério Público Federal para o cumprimento do cronograma de audiodescrição na TV brasileira.

Dia 11 de outubro passado, o Ministério Público Federal obteve êxito no Tribunal Regional Federal de Brasília em uma ação movida contra o Ministério das Comunicações para a retomada do cronograma de implantação da audiodescrição na televisão brasileira, estabelecida na Portaria 310, no ano de 2006, quando foi determinado que cada emissora deveria exibir 2 horas diárias de audiodescrição, aumentando 2 horas por ano até se chegar aos 100% da programação.
Após forte pressão das concessionárias dos serviços de radiodifusão, a Portaria foi cancelada pelo Ministério das Comunicações que, atendendo apenas aos argumentos das emissoras de TV, emitiu a Portaria 188, em 2010, que estabelecia um cronograma muito diferente do anterior: 2 horas semanais de audiodescrição, ampliadas a cada dois anos até se chegar a 20 horas semanais de programação audiodescrita.
A ação do MPF objetiva a retomada do cronograma promulgado em 2006, depois de amplo debate com todos segmentos sociais. Conforme o Ministério Público, a portaria emitida pelo Ministério das Comunicações em 2010 configura supressão de direitos adquiridos na Norma Complementar 01/2006, promulgada pelo próprio MiniCom.
Na decisão judicial, o relator, desembargador Souza Prudente, argumenta que, conforme estabelece o Supremo Tribunal Federal, não pode haver retrocesso em direitos fundamentais adquiridos e que o não cumprimento da Portaria 310 fere o direito de isonomia no acesso aos meios de radiodifusão. A decisão do tribunal foi unânime em favor do Ministério Público.
Assim, o Ministério das Comunicações tem 60 dias, a contar da intimação, para emitir Portaria retomando o cronograma estabelecido em 2006. O não cumprimento gerará multa e outras sanções.
Tendo em vista tais acontecimentos, a Tagarellas Audiodescrição manifesta apoio integral ao Ministério Público Federal na ação pela retomada do cronograma original de implantação da audiodescrição na televisão brasileira. Estamos à disposição para lutar pela consolidação dessa vitória conquistada pela sociedade brasileira. Reafirmamos nosso compromisso de trabalhar ao lado de todos que defendam os direitos à acessibilidade.
Acreditamos que a audiodescrição é um recurso fundamental para a aquisição de informação, conhecimento e entretenimento por parte daqueles que a utilizam. E quanto maior a oferta, maiores serão as possibilidades para que as pessoas estejam cada vez mais incluídas cultural e socialmente.
Segundo dados apurados no Censo 2010, o Brasil tem mais de 45 milhões de pessoas com deficiência, 23,9% da população. Desse contingente, pelo menos 36 milhões de cidadãos têm deficiência visual e são beneficiários potenciais da audiodescrição. E todo brasileiro tem direito ao pleno acesso a qualquer meio de comunicação. Considerando que a televisão alcança quase todos os lares nacionais, torna-se um poderoso instrumento de inserção na cultura e no entretenimento.
Mais do que expressar nosso engajamento, gostaríamos que nossos amigos e parceiros também fizessem parte dessa luta, reforçando a propagação dessas reivindicações por meio das redes sociais, do contato direto, das entidades representativas e de tantos outros meios capazes de legitimar a defesa de direitos universais adquiridos. Nós acreditamos que proporcionar protagonismo às pessoas com deficiência é a melhor forma de tornar o mundo mais acessível e sensível à diferença. Isso também estará mais próximo de ser alcançado se todos reivindicarmos o cumprimento efetivo dessa e de outras tantas leis que garantem direitos à acessibilidade. Fundamentalmente, queremos lutar com – e não só para – as pessoas com deficiência.
Esperamos que as autoridades competentes, especialmente o Ministério das Comunicações, e as emissoras concessionárias de radiodifusão brasileira conscientizem-se da importância e do potencial da audiodescrição, que proporciona aos usuários pleno acesso à cultura e ao entretenimento, essenciais à efetiva inclusão. E que pode, diante dos números da deficiência no País – mesmo desconsiderando inteiramente que não são as pessoas com alguma limitação visual as únicas beneficiadas pela programação televisiva audiodescrita -, ampliar significativamente a audiência de qualquer canal, fato que, todos sabemos, está diretamente relacionado à multiplicação das receitas de publicidade. Não há dúvida: acessibilidade na tevê faz bem para todo mundo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Bengalando em Barcelona (Park Guell)

Dessa vez, fui bengalar por um dos pontos turísticos mais conhecidos de Barcelona, o famoso Park Guell, inaugurado em 1922, vindo a se tornar Patrimônio da Humanidade  pela UNESCO em 1984. Em princípio era para ter sido um bairro da cidade, mas como foi um fracasso imobiliário acabou virando um parque e com algumas das obras mais impressionantes do renomado arquiteto catalão Antoni Gaudi. 
Chegar ao Park Guell não foi uma tarefa fácil, pois a estação de metrô e as linhas de ônibus mais próximas ficam a cerca de 30 minutos de caminhada do parque. Além disso, situa-se em uma colina e, portanto, há uma subida muito íngreme até chegar ao local, o que dificulta – quase inviabiliza – a ida de pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida.
Para subir, encontramos escadas rolantes que ajudam no deslocamento. Contudo, não há a mesma facilidade na descida. Mais que isso, para quem consegue ir até lá, por conta da topografia do parque, existem dezenas de escadas para os acessos aos diferentes espaços, mas não há elevadores, rampas ou algo que ajude no deslocamento dessas pessoas.
Para uma pessoa com deficiência visual as dificuldades começam já no metrô, pois não há informações claras em braile e/ou fontes ampliadas que informem o caminho que se deve seguir para chegar ao parque. Porém, nem mesmo as pessoas videntes conseguem encontrar com facilidade e autonomia as informações que precisam. Prova disso é que muitos turistas acabam se perdendo.
O piso é feito com pequenos relevos quadriculados, dificultando o uso da solavancos provocados pelas ondulações. Embora seja preciso ressaltar que durante todo o caminho não há sequer um buraco ou obstáculo aéreo que possa provocar algum tipo de acidente.
Depois da aventura de tentar ir até o parque, na entrada existe um totem com informações sobre o lugar, em Braile e em fontes ampliadas. Mais que isso, existe um mapa em alto relevo onde se podem verificar os locais que se deseja ir e as rotas a serem percorridas.
Não há calçamento na maioria dos trajetos, o que dificulta a localização espacial e a locomoção com a bengala. Como não há piso tátil, ir sozinho seria um tanto desaconselhável, ainda mais porque as elevações e declives tornam o percurso um tanto perigoso. São dificuldades que uma pessoa com deficiência visual encontraria se fosse sozinha a esse local, ou seja, isso representa uma falha na acessibilidade, mas não inviabiliza a visita, que em minha opinião deve ser recomendada diante do que irei relatar a seguir.
O parque possui uma série de viadutos que ligam diferentes pontos do parque. Todos eles construídos em pedra, sendo que a imensa maioria deles idealizados por Antoni Gaudi. Na escadaria de entrada, há duas fontes pequenas e a escultura de um lagarto.
Todas essas obras que mencionei são consideradas como parte do patrimônio artístico do local, e podem ser tocadas por todas as pessoas. Ou seja, isso ajuda as pessoas com deficiência visual a ficarem mais próximas e conhecerem as formas e texturas das obras. Isso representa a possibilidade de tocar e sentir a magnitude e grandiosidade da obra de Gaudi.
Fui visitar a Casa Museu Gaudi, e então me impressionei mais ainda com as possibilidades acessíveis que o museu oferece. Digo isso, tendo em conta que no Brasil quase a totalidade dos museus não permite que as pessoas com deficiência visual toquem no acervo, ainda mais em artigos raros como foi o caso. Por isso, creio que tal visita foi especialmente importante para demonstrar que com soluções alternativas e de baixo custo se pode prover acessibilidade.
A casa fica dentro das dependências do parque, mas é necessário pagar para ingressar e conhecer o local. Porém, pessoas com deficiência que “comprovem” isso – no meu caso, o uso da bengala branca – tem entrada gratuita e direito a um acompanhante. Se é verdade que não há catálogos e materiais explicativos em braile ou em fonte ampliada, não é menos verdade que a possibilidade de ir acompanhado pode ajudar se a pessoa que estiver conosco se dispuser a descrever a parte não acessível do acervo – como também aconteceu comigo.
Não há elevadores e a escada é bem íngreme, o que dificulta o acesso a pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida. No entanto, as informações dos painéis são relativamente acessíveis, já que o tamanho das letras e contraste, aliados a posição em que estavam, ajuda muito a uma pessoa com baixa visão no momento de ler o que está escrito. Outro fato interessante é que existem diversos funcionários dentro do museu se colocando sempre a disposição para auxiliar no que for necessário, para fornecer alguma informação suplementar ou mesmo guiar ou fazer a descrição dos detalhes das obras.
Porém, o fato que mais me chamou a atenção e que mais me deixou satisfeito e com a sensação de inclusão, foi a possibilidade de tocar nas obras expostas. Deixei essa parte por último por considerá-la a mais importante.
Logo na entrada do museu já havia uma funcionária me aguardando – talvez avisada via rádio que alguém com deficiência visual estava na fila – e além de me dar as boas-vindas, me cedeu um par de luvas brancas, me dizendo que eu, como pessoa com deficiência que sou, teria o direito de tocar as obras em exposição.
No acervo, havia várias obras de Gaudi, muitas delas mobiliários como algumas cadeiras e mesas desenhadas por ele. A casa foi mantida como deixara quando morreu em 1926, de tal forma que seus aposentos e o oratório foram preservados como estavam na época. Pude tocar todas essas obras e sentir cada nuance e cada formato, cada reentrância e cada curva de suas obras. Havia também, alguns bustos de Gaudi, que tateei e pude formar melhor a imagem de como era o rosto do artista, dado que pelas fotos isso não me foi possível.
Essa possibilidade tátil enriquece o conhecimento e a informação da pessoa com deficiência visual, permite que ela sinta e compreenda o que significa a obra e, ao fazer o mesmo em muitas delas, compreender o estilo do autor e verificar por si mesmo as características delas.
Tudo isso é possível a partir de uma ideia singela, através do uso de luvas feitas com um material simples, mas que torna possível a acessibilidade. Uma alternativa encontrada pelos curadores e conservadores das obras que servem de exemplo para todos os museus.
Poucos metros depois de sair do parque, encontramos uma loja vendendo produtos relacionados ao Guell e à Gaudi. O lugar se chama Gaudi Experience. Há diversas possibilidades de acessibilidade nesse lugar. A primeira, imensos painéis sensíveis ao toque, nos quais é possível encontrar diversas fotos e informações sobre as obras do arquiteto catalão.
Nesses painéis, as fotos e as informações sobre as obras poderiam ter seu tamanho ampliado e conforme o desejo do usuário poderiam ser descoladas em todas as direções. Então, além de poder ler com facilidade, era possível subir e descer a tela, lendo todos os textos com conforto e nitidez.
Além disso, para as pessoas cegas e com baixa visão que não consigam ler nos painéis, existem duas alternativas. A primeira, a possibilidade de ouvir o que está escrito na tela em catalão, espanhol, francês ou inglês. A segunda, solicitar que uma das funcionárias que estavam a disposição lesse o conteúdo do painel.
Também foi possível tockr uma maquete das escadarias e colunas da entrada do Park Guell. A reprodução é em tamanho grande e com um impressionante detalhamento. Diante disso, tive a chance de conhecer coisas que não tinha visto no momento em que estava em frente ao ambiente reproduzido. Isso complementou tudo que conhecerá antes no parque, e de fato, foi uma experiência enriquecedora.
Portanto, creio que apesar de ser pequeno, o museu me proporcionou um imenso aprendizado em termos de soluções viáveis para se prover acessibilidade dentro das possibilidades existentes sem prejudicar o patrimônio ou ferir as regras e diretrizes de conservação dos objetos.
Isso demonstra também a necessidade de reflexão e busca de alternativas no que diz respeito a acessibilidade. Muitas instituições brasileiras que mantém museus alegam baixo orçamento ou desconhecimento para não prover acessibilidade. Mas, com criatividade, alguns estudos e utilização de boas ideias, é possível lançar mão de recursos simples e ampliar a oferta de acessibilidade em seus acervos, algo ainda tão longe do ideal.



Na Casa Museu Gaudi, bem no canto direito da foto. De perfil, com o rosto virado para a obra. tateio um dos móveis desenhados pelo artista. Uso luvas brancas em ambas as mãos, com esquerda seguro a bengala branca, e com a direita toco a peça feito por Gaudi.
Um banco de dois lugares feito em madeira. Sua forma é cheia de curvas e desenhos elípticos. No acento e no encosto, há desenhos que parecem flores estilizadas.
Fim da descrição

Na Gaudi Experience, apareço de costas para a foto e de frente para um telão laranja, lendo informações sobre a Casa Calvet, que está na altura dos meus olhos, em um quadro com fundo preto e letras brancas e grandes.
Fim da descrição








Também na Gaudi Experience, estou à direita e de lado para a imagem, de frente para a maquete da entrada principal do Park Guell que está à esquerda da foto.
Estou tateando a reprodução da escultura de um lagarto e duas fontes, separando as duas escadarias que levam à sala Hipóstila. Uma sala aberta com cerca de duas dezenas de colunas  cilíndricas que sustentam a construção. Em sua fachada superior estão esculpidos lagartos semelhantes aos que estou tocando na escadaria.
Fim da descrição



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Amor pela docência!



Quando fui redigir esse texto em comemoração ao dia dos professores fiquei um tempo olhando para a tela em branco e pensando no que escrever. Quando se tem muito a dizer, às vezes a tarefa se torna mais difícil, e nem sei bem por onde começar. O que eu sei, é que eu só pude fazer esse texto e você o ler porque nós tivemos professores que nos ensinaram tais habilidades.
Não sei bem em que fase da minha vida decidi ser professor, mas certamente foi muito cedo, tanto que ainda no Ensino Fundamental já tinha essa certeza. Talvez tudo isso tenha começado com a professora vera que me alfabetizou de forma segura e tão interessante, que desde então ler e escrever se tornou meu vício.
Ou quem sabe, esse talento que as pessoas dizem que tenho para a escrita, se deva aos exercícios propostos pela Jurema, minha professora de Português, que ao ver que eu gostava de escrever, exigia mais de mim do que dos outros alunos. Como sempre fui alguém com posições bem definidas, ela me sugeria sempre escrever duas redações com pontos de vista diferentes sobre o mesmo tema, o que me deu a qualidade de conseguir ver todas as situações de diversos ângulos.
Creio que isso tenha ajudado a elevar minha qualidade dissertativa e imaginativa para a escrita, de tal modo que sempre me incentivou a escrever crônicas, contos e poesias. Os textos dessa época já não existem mais, pois em um de meus arroubos juvenis meti tudo no lixo, mas ficaram as lembranças e o prazer de escrever.
Não sei se dom ou vocação existem para todos, para mim sim. Além de dom, vocação ou como queiram, a docência é uma das poucas coisas que eu acho que sei fazer bem feito. Não tenho falsa modéstia, e não acho que eu seja o mais brilhante dos professores, porém, certamente sou um daqueles que emprega todo seu amor, dedicação e carinho a cada instante e em cada trabalho que faz.
A docência é a minha vida, e eu confesso que ao escrever isso os olhos ficam úmidos, pois tudo que hoje tenho e sou devo a ela. Amo ser professor tanto quanto amo viver, pois ambas as coisas se confundem sem eu conseguir fazer uma coisa sem a outra. Por mais que muitas vezes a gente reclame de tudo que está errado em nossa profissão, o que fazer se é isso que me dá prazer?
É obvio que nem tudo são flores, já que cada dia mais nossa profissão é desvalorizada e achincalhada pelos sucessivos governantes e também pela sociedade que prefere valorizar o efêmero e o desimportante. Há nem tanto tempo, ter um professor na família era motivo de orgulho, mas hoje é quase motivo de vergonha. Mesmo assim, eu ainda acredito que isso mude, senão, já teria colocado a viola no saco e ido embora.
Um exemplo desse descaso ocorre com as professoras da educação infantil. Todas elas são tidas como pessoas de segunda categoria – inclusive por muitos colegas docentes. No entanto, essas pessoas não pararam para pensar que essas profissionais são as “células-tronco da educação”? São elas que iniciam as crianças nos processos educacionais, que incentivam o lúdico, que estimulam o desejo do aprender, que mediam as primeiras relações sociais dos pequeninos.
Se não tivermos uma educação infantil de qualidade, não teremos uma educação como um todo qualificada, não teremos cidadãos e profissionais com qualidade desejada. Fica aqui meu efusivo apoio e desejo pela valorização dessas professoras, o que hoje não acontece.
Muitas delas sequer recebem um salário mínimo, quando na minha opinião deveriam ganhar mais do que um magistrado, mais até do que o presidente da república. Se você acha que eu estou errado tudo bem, mas lembre que para uma árvore ser frondosa, alguém plantou a semente, eis o que fazem os professores da educação infantil.
Além disso, nossa carência de estrutura e valorização perpassa todos os níveis de ensino, o que me faz crer que vivemos em uma sociedade que virou de costas para a educação, sem perceber que um dia o futuro vai cobrar essa conta, se é que já não o está fazendo.
Os obstáculos para mim não são barreiras intransponíveis, mas escadas pelas quais eu consigo subir mais além. O que eu sei, é que continuarei lutando e fazendo a minha parte para melhorar a qualidade e a valorização da docência. Persistirei na luta por uma educação mais digna, ampla e que compartilhe com a diferença, que acolha ao invés de simplesmente incluir, que não tenha o que tolera e o tolerado, o normal e o anormal. E se eu fizer isso a vida inteira e ao final não conseguir, que assim seja, mas a minha parte eu terei feito.
Muitas vezes a desmotivação toma conta, mas permanece somente até o instante em que a gente percebe que faz a diferença em pequenos atos. Parafraseando Quintana, um professor sozinho não muda a sociedade, mas pode mudar ou incentivar a mudança em indivíduos, e como a sociedade é feita de indivíduos, talvez a gente consiga mudar a sociedade.
Não foram poucas as ocasiões em que nas aulas que ministrei sobre inclusão, audiodescrição ou acessibilidade, muitos alunos vieram falar comigo sensibilizados com o que tinham aprendido, e que aquilo mudaria para sempre a vida delas. Conheço diversos casos de pessoas que começaram a se engajar e a fazer a sua parte na luta pelo direito às diferenças depois de aulas que assistiram sobre o tema. Gente dos mais diversos níveis sociais, profissionais ou etários, que pela intervenção de um professor passaram a repensar suas práticas e seus modos de fazer.
Muitos de meus alunos são sujeitos que jamais tiveram contato com acessibilidade, inclusão ou pessoas com deficiência, e esse é meu desafio maior, como sensibilizar essas pessoas sem que tenham vivido isso na prática? Como mostrar a elas a importância das diferenças em todos os campos sociais? É um trabalho árduo, com algumas decepções e dificuldades, mas se não fossem elas, o regozijo do êxito talvez não fosse tão intenso.
Não existe dinheiro no mundo que pague perceber a transformação de um aluno, ver que suas percepções se abrem para tantas outras coisas, que começam a ver o mundo de um jeito diferente. É sensacional notar que a maioria deles, mais do que perceber a necessidade da acessibilidade, ingressam na luta por ela como se essa causa também fosse sua, e para muitos de fato passam a ser, e isso é o que me faz feliz.
Emociono-me muito quando vejo meu trabalho dando seus primeiros frutos, quando um aluno ou aluna começa a trabalhar e a aplicar conhecimentos que eu e outros colegas transmitimos. É incrível ver que nosso trabalho de alguma forma está dando certo. É u ma satisfação sem tamanho quando um aluno te para na rua, conversa contigo numa rede social ou tenta manter algum contato, pois isso significa que de algum jeito conseguimos tocá-los.
Tenho o meu jeito próprio de lecionar, muitos gostam e outros nem tanto. Sei que eu cobro e muito, mas eu só exijo de quem eu acho que tem algo a oferecer. Eu sou um "chato de galocha" com a pontualidade, mas sei valorizar o potencial e a construção de conhecimentos dos meus alunos, tanto que eu os incomodo muito para que tenham suas opiniões próprias, claro que embasadas cientificamente. Também sou rigoroso contumaz quanto ao cumprimento dos prazos, mas estou todo tempo à disposição de todos para ajudar no que for preciso.
Enfim, eu como professor sei que ainda tenho uma longa trajetória de aprendizado pela frente, e isso me deixa muito motivado a continuar nessa batalha. Mas o que todos podem ter certeza é que eu amo aquilo que faço, que me dedico com afinco e plena entrega à docência. Com certeza não sou o melhor professor do mundo, contudo, sei que estou dentre os mais esforçados.
Despeço-me, agradecendo a todos os professores que eu tive até hoje. Aos ruins por terem me ensinado a como não fazer e aos bons por terem me ajudado a basear neles minhas atuais práticas. Desde a professora Vera que me ensinou a ler até a Lodenir, minha eterna orientadora, muito obrigado por tudo.
Sei que serei aluno para todo sempre, mas enquanto eu for docente a minha vida vai valer a pena, cada gota de suor ou de lágrima, cada noite não dormida, cada viagem cansativa ou tempo longe de casa, tudo isso fica pequeno perto do amor por ser professor!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Bengalando em Barcelona (Babel é aqui!)



No Brasil, historicamente, temos uma tendência ao radicalismo monollinguístico, ou seja, dificilmente se aceita outro idioma que não seja o Português e os demais são tomados como de segunda categoria, desde os indígenas aos considerados mais da moda e até fundamentais como o Inglês, por exemplo.  
Mas, aqui em Barcelona a coisa é completamente diferente, para começar, dois idiomas convivem em igualdade de condições, o Espanhol e o Catalão, ambos oficiais, e não há nada de problemático nisso. Algumas pessoas no Brasil deveriam vir aqui e conferir a beleza que é a pluralidade linguística de uma nação.
Sabemos que o Brasil se tonou um país eminentemente monolingue diante das tentativas de Getúlio Vargas e outros governantes que o sucederam, de promover uma união nacional. Todo aparelho do estado foi usado para promover essa tentativa de criação da “identidade brasileira”, desde as cartilhas de alfabetização, passando pela programação da Rádio Nacional e pela televisão.
Sendo assim, nosso país acabou por construir uma sólida cultura monolingue em que aceitar outros idiomas é uma experiência  que muita gente precisa aprender. Isso é exatamente o contrário do que acontece aqui em Barcelona, cuja cultura é do plurilinguismo.
Barcelona é a capital da Catalunha, uma província autônoma da Espanha que tenta a muito tempo tornar-se independente e formar seu próprio país. A luta independentista catalã é antiga e eles fazem do catalão um potente instrumento de fortalecimento de sua cultura. Durante a ditadura de Francisco Franco (1935-1975) foi proibido de ser utilizado em território espanhol, o que ao contrário do que se pensava, tornou a língua ainda mais importante na resistência catalã.
O Catalão é uma mistura de espanhol, francês e Português – e na minha opinião quando falado nas ruas mais parece italiano. Eu estou buscando me  matricular em um curso básico, já que o governo barcelonês disponibiliza uma série desses cursos para estrangeiros, e o melhor, é grátis. Além disso, o aprendizado de uma língua se dá mesmo no convívio diário, e isso eu tenho de sobra.
Viver em uma cidade bilíngue é sempre uma experiência inigualável. O Espanhol e o Catalão estão juntos por todas as partes, seja nos folhetos informativos da cidade, nas estações de metrô ou nas embalagens dos alimentos vendidos no supermercado. Além disso, ouvindo as rádios locais, prestando atenção nas conversar alheias pelas ruas - seja dos idosos, dos adultos ou das crianças - é possível perceber o valor que os barceloneses dão ao seu idioma.
Embora valorizem muito sua língua, eles também não parecem ter problema algum em usar a segunda, no caso o Espanhol, necessário para conversar com a maioria dos turistas que recheiam a cidade. Eles tem orgulho de seu idioma, mas nem por isso desvalorizam a língua alheia.
No Brasil, para quem não sabe ou finge que não sabe, temos também duas línguas oficiais, o Português e a Libras (Língua Brasileira de Sinais), essa última tomada às vezes como um mero recurso de acessibilidade. Quem dera algumas pessoas aprendessem alguma coisa com o exemplo catalão.
Essa experiência linguística é ainda mais estimulante pois não cessa no Espanhol e no Catalão. Como muita gente sabe, Barcelona é uma cidade turística, cujo litoral, o centro histórico e a vida noturna atraem uma legião de visitantes de todas as partes do mundo.
Não sei se por conta disso, mas a maioria dos habitantes também sabe falar fluentemente em inglês, não foram raras as vezes em que eu notei isso. Do funcionário da limpeza pública ao vendedor da Zara, usam a língua anglo-saxa com desenvoltura. E por sinal, o que tem de gente falando no referido idioma nessa cidade é algo impressionante.
Estive envolvido em um caso emblematico, em que a venderoda de uma loja de roupas falava em Catalão com a colega, no instante seguinte conversou comigo em Espanhol e quando terminou de responder, logo ao lado uma moça falou com ela em Inglês e parecia que estava falando a mesma língua, tamanha a agilidade na troca de idiomas.
Outro caso interessante, ocoreu no metrô, quando um italiano tentou falar comigo em inglês, mas como eu não compreendo, apenas disse – em inglês – que não falava aquele idioma. Então, perguntei se falava em Espanhol e o sujeito disse que não. Disse a ele que era brasileiro – em espanhol – e para minha surpresa ele disse: “parla em português que io entendo”, e assim dei a informação que ele precisava.
Outra coisa que merece ser mencionada é que além do inglês, do italiano e do Português, já ouvi diálogos em: alemão, japonês – pelo menos a moça que falava estava com uma camiseta escrito “Japão” -, francês e árabe. Este último merece um destaque especial.
Como a imigração de africanos para Barcelona é muito grande, e em sua maioria advindos dos países islâmicos cujo árabe é a língua mais usada, a quantidade de pessoas falando nesse idioma por aqui é grande. No centro da cidade se pode ouvir alguém falando em árabe, mas o mais comum é nas regiões de imigrantes como o Raval, bairro onde morei por  duas semanas.
Mais do que a língua, a cultura islâmica aqui é muito forte, e os imigrantes fazem questão de manter viva sua cultura. Percebi isso, quando uma criança de no máximo 5 anos saia da escola e falava em Espanhol com seu colega, quando viu a mãe imediatamente começou a falar em árabe com ela.
Enfim, viver em uma cidade com tamanha diversidade cultural e linguística é sensacional, algo que eu levarei comigo para sempre. A todo momento fico pensando no exemplo brasileiro da Libras que já mencionei aqui. Quanto tempo as pessoas ainda vão levar para entender que um idioma não aniquila o outro? Pelo contrário, as culturas ficam mais ricas ainda. Eu espero que não demore muito para que nós brasileiros tenhamos essa noção e passemos a dar valor as línguas oficiais e não oficiais de nosso país.
Por fim, devo dizer que não há um dia em que eu não lembre de minha orientadora Lodenir Karnopp, linguista muito conhecida no Brasil, e cujo trabalho é em torno da educação biblíngue – no caso dela, as línguas de sinais. Lembro dela por ser grato à essa oportunidade que ela me proporcionou, algo  sem precedentes na minha vida.
Mas lembro também, porque aqui em Barcelona vivemos o cenário pelo qual ela tanto luta no Brasil, pelo bilinguismo como forma de inserção e consolidação cultural das minorias línguisticas. Querida Lodenir, essa postagem é em sua homenagem!